Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Projeções do Cemaden acendem alerta no abastecimento paulista

Chuvas fracas e irregulares impedem a recuperação do Cantareira, principal sistema de represas da Grande São Paulo, que segue em “Restrição”

Vista aérea com drone da represa Atibainha, em Nazaré Paulista, parte do Sistema Cantareira, em 21/09/2025  • Luis Moura/WPP/Estadão Conteúdo
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A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) reúne 39 municípios e mais de 20 milhões de habitantes. O relatório do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostra que o Sistema Cantareira — principal sistema de abastecimento da região — enfrenta um período de fragilidade hídrica importante.

As chuvas entre abril e setembro ficaram bem abaixo do normal, e mesmo em outubro — já dentro da estação úmida — a recuperação não ocorreu como esperado. Em consequência, o volume armazenado permanece muito baixo: cerca de 21% do volume útil, colocando o Cantareira na faixa operacional de “Restrição”, nível que indica atenção elevada para o abastecimento da RMSP.

O quadro se explica sobretudo pela irregularidade das chuvas e pela baixa entrada de água nos rios que alimentam o sistema. Em vários meses, a quantidade de água que entrou nos reservatórios ficou entre 40% e 55% da média histórica, muito abaixo do necessário para reverter o quadro.

Mesmo com o início da estação chuvosa, o aporte continua fraco, e o relatório classifica a condição hidrológica como uma seca de intensidade entre moderada e extrema, dependendo da escala de análise.

As projeções do Cemaden também preocupam. No cenário otimista — chuvas dentro da média —, o Cantareira pode encerrar dezembro com algo em torno de 32% do volume útil, avançando apenas para a faixa de “Alerta”.

Se as chuvas ficarem entre 25% e 50% abaixo do normal, o sistema deve permanecer em “Restrição” ou até se aproximar da faixa “Emergencial”. Para o primeiro trimestre de 2026, há grandes diferenças entre os cenários: enquanto chuvas na média permitiriam uma recuperação para cerca de 60%, chuvas muito abaixo da média podem derrubar o volume para perto de 18%.

O fenômeno La Niña, atualmente vigente, tende a reduzir as chuvas no Sudeste, agravando ainda mais a recuperação lenta dos reservatórios. Dessa forma, a projeção é de chuvas abaixo da média neste final de primavera e durante todo o verão. Isso torna mais factível a perspectiva de um nível abaixo de 20% no final de março.

A Sabesp, empresa de saneamento que atende a RMSP, realizou diversas obras para facilitar a gestão do sistema de abastecimento nos últimos anos, permitindo que diversas áreas possam ser atendidas por diferentes reservatórios.

Mesmo assim, é importante considerar que outros sistemas também não se encontram em situação favorável. O Sistema Integrado Metropolitano, que reúne todas as represas que abastecem a RMSP, está com o menor volume útil armazenado desde o final da crise hídrica de 2014–2016.

Para o público, o recado é claro: mesmo com a chegada das chuvas, a recuperação do Cantareira será lenta e incerta. O maior sistema de represas que abastece a Região Metropolitana de São Paulo segue em situação delicada, e qualquer déficit adicional de precipitação pode pressionar ainda mais o abastecimento.

Por isso, o relatório reforça a importância de manter medidas de uso racional da água e de acompanhar de perto a evolução das chuvas nos próximos meses.