Países cortam juros para combater efeitos do coronavírus – Brasil é o próximo?


André Jankavski Do CNN Brasil Business, em São Paulo
03 de março de 2020 às 12:54 | Atualizado 15 de março de 2020 às 17:17

Após derrubar as bolsas em todo o mundo nas últimas semanas e as expectativas de crescimento econômico no mundo, o coronavírus começa a impactar as taxas de juros globais. No início desta tarde, o FED, banco central americano, anunciou um corte extraordinário de 0,5%. O movimento já tinha sido realizado pelo Banco Central da Austrália durante a madrugada. Outros bancos centrais, como o europeu, o japonês e o inglês, já comunicaram que devem seguir o mesmo caminho. 

Pessoas usando máscaras de proteção para se protegerem do coronavírus

Pessoas usando máscaras de proteção em Wuhan, na China (28.fev.2020)

Crédito: Reuters

Essa foi a deixa para que diversos especialistas e analistas começassem a apontar a necessidade de que o Brasil deveria seguir no corte de juros. A última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), em fevereiro, definiu que a taxa básica de juros seria de 4,25% – a menor da história. No mesmo comunicado, o COPOM indicou que o ciclo de queda, iniciado em 2016 (e com a taxa em 14,25%) estava encerrado.

Porém, com a inflação a níveis controlados – 4,3%, em 2019, e a expectativa de fechar em 3,2% neste ano –, especialistas acreditam que há espaço para mais reduções. Com mais quedas, segundo eles, o crédito ficaria mais barato e a economia voltaria a sair da estagnação atual. Mas por que isso não aconteceu até agora?

“No atual momento, com uma economia estagnada e uma crise global, o Banco Central atuar na redução dos juros não ajuda muito. Porém, não agir poderia significar prejudicar ainda mais a retomada”, diz Rafael Cardoso, economista chefe do Banco Daycoval. “O Brasil precisa de mudanças estruturais ou do acontecimento de um caso inesperado, como uma recuperação global.”

Ou seja, as reformas estruturais ainda continuam sendo o principal meio para o Brasil sair do crescimento minguado dos últimos quatro anos. Na agenda do Congresso, estão a reforma tributária e a administrativa. A primeira, segundo especialistas, seria a que traria mais resultados para a economia no curto e médio prazo. 

O economista Bernard Appy, um dos responsáveis pelo Centro de Cidadania Fiscal e relator do texto da reforma tributária no Congresso, acredita que o Brasil poderia adicionar 10 pontos percentuais ao crescimento até 2035 caso a reforma seja aprovada neste ano. 

Para Sérgio Vale, economista chefe da consultoria MB Associados, a agenda política pode ser o principal entrave para a recuperação neste ano – o que pode complicar com as eleições municipais do fim do ano. 

“Há espaço para mais uma queda de juros e as expectativas para a inflação já estão em queda para 2020 e 2021. Porém, a falta de confiança com as mudanças estruturais está impactando diretamente para a volta do crescimento”, diz Vale. 

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 17 e 18 de março. Há pouca esperança no mercado de que haja um corte neste mês, mas muitos esperam pelo menos um aceno para novas quedas. 

A epidemia do coronavírus piorou, infectando mais de 90 mil pessoas e matando mais de 3 mil pessoas, e as expectativas para crescimento global seguiram trajetória parecida: a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já projetou um crescimento de 2,4% para o mundo este ano, ante 2,9% da estimativa inicial. 

As previsões para o PIB brasileiro também estão em queda. O Relatório Focus, que reúne as expectativas de especialistas de mercado, já diminuiu a previsão de crescimento do Brasil de 2,3% para 2,17%. Os bancos americanos JP Morgan e Merrill Lynch acreditam que o Brasil, de novo, crescerá menos do que 2%.

O Grupo dos 7, que contempla os países mais ricos, vai usar todas as ferramentas de política monetária para combater riscos do coronavírus.  A questão é saber se a queda dos juros será suficiente para não reduzir ainda mais as expectativas.