Companhias aéreas podem quebrar por coronavírus, diz diretor-geral da Iata


Luiza Duarte Da CNN Brasil, em Nova York
14 de março de 2020 às 12:01 | Atualizado 14 de março de 2020 às 12:02
 

A pandemia de novo coronavírus esvaziou aeroportos e cancelou importantes eventos culturais e esportivos em todo o mundo, o que tem provocado prejuízo para vários setores. O cenário eleva o risco de falência para mais companhias aéreas, segundo o diretor-geral da Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos), Alexandre de Juniac.

"Se a crise continuar por mais dois ou três meses, nós vamos ver companhias quebrando por dificuldades financeiras, o que levará também a concentração no mercado e menos oferta", afirmou Juniac, após a britânica Flybe pedir recuperação por conta dos prejuízos causados pelo COVID-19.

O diretor-geral da Iata ainda informou que pediu ajuda aos governos do mundo inteiro para lidar com a pandemia, que está atingido em cheio o setor aéreo. A situação pode ficar ainda pior, já que o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou restrições aos voos entre Europa e Estados Unidos durante 30 dias. A medida atinge mais de 6,7 mil voos - o que corresponde a 11% do tráfego aéreo mundial.

A medida esvaziou os aeroportos de 26 países da Europa. Do outro lado do Oceano Atlântico, o terminal de Los Angeles, o quinto mais movimentado do mundo, tem tido dias atípicos, com saguões quase vazios. 

Mundo afora, a situação se repete nos principais aeroportos globais. Na China, o fluxo de passageiros caiu mais de 84% só no mês de fevereiro. Isso representa um prejuízo de US$ 2,9 bilhões para o país. Também na Ásia, em um dos aeroportos de Seul, na Coreia do Sul, não houve voos internacionais pela primeira vez em 40 anos.

Sem revelar valores, a companhia aérea de Hong Kong, Cathay Pacific, anunciou que está esperando uma perda substancial na primeira metade desse ano, já que teve de reduzir sua capacidade de operação por causa da doença. Dezenas de aviões da empresa estão estacionados no Aeroporto Internacional de Hong Kong. Nos terminais, os check-ins estão praticamente vazios.

Outra que enfrenta problemas é a sul-coreana Korean Air. Em comunicado aos funcionários, a companhia afirmou que o novo coronavírus ameaça sua sobrevivência. A empresa cortou mais de 80% da sua capacidade internacional e deu férias coletivas para alguns colaboradores.

No Reino Unido, a British Airways usou o mesmo tom. O diretor-geral da companhia comunicou aos funcionários planos de cortar postos de trabalho e reduzir o número de aviões no ar para lidar com a crise. A Norwegian Air suspendeu mais de quatro mil voos e afastou metade de seus empregados.

Impactos no turismo

Mulher com máscara caminha no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York

Mulher com máscara caminha no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York

Foto: REUTERS/Eduardo Munoz

A redução do número de aeronaves no ar misturada com o medo da doença afeta, diretamente, o turismo. Nos Estados Unidos, a Disney anunciou o fechamento de seus parques na Califórnia como uma medida para evitar a propagação do vírus.

A Igreja Sagrada Família e o Museu do Prado, na Espanha, fecharam às portas aos turistas. A mesma medida tomada pelo Museu do Louvre, em Paris, e pelos principais centros de exposição de artes da Holanda.

Na Grécia, a Acrópoles de Atenas não vai abrir aos turistas até o final do mês. E a pandemia de coronavírus atingiu até o pico do mundo: o governo do Nepal suspendeu a expedição de alpistas ao Monte Everest, o mais alto do planeta, até o fim de 2020.

Especialista em relações do trabalho, Alexander Colven afirmou à CNN Brasil que as respostas ao novo coronavírus são boas e que as empresas estão levando a ameaça a sério. No entanto, como há um grande risco de impacto econômico, é preciso garantir que o dinheiro chegue até as mãos das pessoas mais vulneráveis.

Dados levantados pelo apresentador Ricard Quest, da CNN, mostraram que hotéis, restaurantes e mais serviços usados por turistas também estão começando a ter problemas para fechar as contas. O resultado é um efeito cascata na indústria do turismo e para milhões de pessoas, já que cerca de 10% da força de trabalho do mundo todo depende desse setor.

De acordo com o diretor executivo da Associação Mundial de Viagens de Negócios (GBTA), Scott Solombrino, a última vez que o mundo viu algo parecido foi depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 200, que deixaram mais de 2,7 mil mortos.

A crise atinge também as empresas que operam os navios de cruzeiros, que foram foco do novo coronavírus no mundo. Apesar do cenário, Adam Sacks, presidente da Tourism Economics, afirmou à CNN que o ser humano é resiliente e que é uma questão de tempo para tudo ser resolvido na indústria do turismo. "O desejo e a necessidade das pessoas de viajar superam suas preocupações rapidamente", declarou.

Impactos no entretenimento 

Billie Eilish

Depois de limpar os Grammys ao vencer as quatro principais categorias, Billie Eilish chega ao Brasil para dois shows

Foto: Divulgação/Universal

Para outros setores, como o do entretenimento, a crise causada pelo novo coronavírus parece estar longe de terminar. Em Nova York, com a cidade em estado de emergência por causa do novo coronavírus, até abril, os shows musicais da famosa Broadway estão suspensos.

A medida foi tomada porque o governador do estado, Andrew Cuomo, proibiu reuniões públicas com mais de 500 pessoas, o que inclui os teatros. 

A situação preocupa a indústria já que a arrecadação do setor, que faturou quase US$ 2 bilhões entre 2018 e 2019, depende do turismo. Ao todo, 63% da receita das casas de espetáculos da Broadway vêm de turistas de fora da cidade ou do país.

Nas telonas, dezenas de filmes como a sequência de "Um Lugar Silencioso - Parte II", "Velozes e Furiosos 9" e "Mulan" tiveram a estreia adiada. Os estúdios temem que as salas de cinema fiquem vazias. Nos palcos, artistas como Billie Eilish, a recém-ganhadora do Grammy Awards, suspenderam apresentações.

Impactos no esporte

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Arquibancada vazia em jogo do Juventus contra Inter de Milão na Serie A italiana, realizado à portas fechadas por conta do coronavírus (8.mar.2020)

Foto: Massimo Pinca/Reuters

No mundo do esporte também não é diferente. A pandemia já provocou adiamentos, cancelamentos e jogos com portões fechados. Os principais eventos esportivos do planeta sofreram mudanças importantes no calendário. 

A Fifa (Federação Internacional de Futebol), entidade máxima do futebol, cancelou a primeira rodada das eliminatórias da Copa Sul-Americana para a Copa do Mundo de 2022. A Seleção Brasileira enfrentaria a Bolívia e o Peru, respectivamente nos dias 27 e 31 de março.

A Copa Libertadores teve os jogos suspensos pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) entre os dias 15 e 21 deste mês. A nova data ainda será divulgada pela confederação.

Jogos da Liga dos Campeões da Europa ocorreram sem público. Em alguns deles, torcedores se aglomeraram do lado de fora do estádio para acompanhar a partida.

No automobilismo, o GP da Austrália foi cancelado. A corrida seria a primeira etapa do mundial de Fórmula 1. A decisão veio depois de um membro da McLaren ser diagnosticado com o novo coronavírus.

Além disso, a maior liga de basquete do mundo, a NBA, está suspensa por tempo indeterminado. O prejuízo pode chegar a US$ 2 bilhões.

Apesar da previsão de perdas em vários setores da economia global, Colven, o especialista em relações de trabalho, defendeu que as reações das empresas podem até parecer drásticas, mas são prudentes. "É melhor fazer isso do que arriscar um impacto ainda maior na saúde pública", afirmou.