Dólar fecha a R$ 4,44 e bate novo recorde; Bovespa cai 7%


Luísa Melo Do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de março de 2020 às 15:32 | Atualizado 14 de abril de 2020 às 16:39
Bolsa de valores de São Paulo

Preocupações com disseminação do coronavírus derrubou principal índice da bolsa de valores de São Paulo

Crédito: Amanda Perobelli/Reuters (25.7.2019)

A bolsa de valores brasileira, a B3, despencou 7% nesta quarta-feira (26), na volta do recesso prolongado de carnaval. Foi o maior tombo desde 18 de maio de 2017, quando foram divulgadas as primeiras notícias sobre a delação da JBS e a perda chegou a 8,8%.

O Ibovespa, principal índice da B3, encerrou o dia em queda de 7% a 105.718 pontos. A queda se deu diante de temores de que a epidemia de coronavírus afete o crescimento da economia global e com a confirmação do primeiro caso da doença no Brasil.

Perto do fechamento, as ações das companhias aéreas tinham as maiores perdas dentro do Ibovespa. As preferenciais da Gol recuavam 14,6%, enquanto as da Azul caíam 13,2%. Os papéis da Vale e da Petrobras, que têm grande peso na composição do índice, também caíam ao redor de 9%, ajudando a puxar a bolsa para o vermelho.

No mercado de câmbio, o dólar subiu 1,1% e renovou recorde de fechamento nesta quarta, vendido a R$ 4,44, maior valor nominal (sem considerar a inflação) já registrado.

Os investidores acompanham o avanço do surto de coronavírus fora da China, sobretudo na Europa. Na segunda e na terça-feira, enquanto o mercado esteve fechado no Brasil, as principais bolsas globais registraram quedas de 6% a 7%.

A epidemia de coronavírus já preocupava os mercados mundiais porque pode desacelerar o crescimento da China, segunda maior economia do mundo e protagonista no comércio global. Agora, crescem também as dúvidas quanto ao impacto do vírus na economia europeia e os reflexos na atividade global como um todo. 

Diante da incerteza, os investidores migram recursos de mercados emergentes, como o Brasil, para outros considerados mais seguros, como o americano. O aumento da demanda por dólares faz a cotação subir.

Homem usa em meio ao risco de coronavírus em estação de metrô na Itália

Homem usa máscara em meio ao risco de coronavírus em estação de metrô de Milão, na Itália (25.fev.2020)

Crédito: Flavio Lo Scalzo/REUTERS

“O caso [de coronavírus] no Brasil é isolado, tem muito pouco impacto. O que está mais puxando essa alta do dólar é a expansão do coronavírus na Europa. O mercado já tinha provisionado uma redução do crescimento da economia da China, mas agora também começa a surgir uma expectativa de redução na economia europeia, que já está enfraquecida”, aponta o sócio e chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni. “É um movimento clássico: quando tem uma epidemia, o investidor ou vai se hedgear [buscar proteção] em dólar ou em ouro”, conclui.

Petrobras e Vale em queda

No caso do Brasil, um desempenho mais fraco da atividade econômica na China pode prejudicar as exportações, por exemplo, já que o país é importante comprador de commodities, sobretudo minério de ferro. A indústria brasileira também pode sofrer com o desabastecimento de peças e componentes importados do mercado chinês. Já a Europa é relevante importadora de produtos agrícolas brasileiros, o que também afetaria o desempenho comercial do Brasil.

Para Velloni, se a indústria da China for afetada com mais força e por um longo prazo pela epidemia do coronavírus, poderá haver escassez de oferta de produtos chineses no mercado americano, o que geraria uma pressão inflacionária nos Estados Unidos. “Assim, o país poderá elevar os juros para desestimular o consumo [e, com isso, tentar conter a alta dos preços]”, diz. 

No atual cenário de juros baixos no Brasil, taxas mais altas nos EUA poderiam gerar um fluxo de fuga de dólares para o país, elevando ainda mais a cotação do dólar.

Equipe médica atua em hospital de Wuhan, China, epicentro do coronavírus

Equipe médica atua em hospital de Wuhan, China, epicentro do surto do novo coronavírus

Crédito: China Daily via REUTERS-16/02/2020

Para Velloni, se a indústria da China for afetada com mais força e por um longo prazo pela epidemia do coronavírus, pode haver escassez de oferta de produtos chineses no mercado americano, o que geraria uma pressão inflacionária nos Estados Unidos. “Assim, o país poderá elevar os juros para desestimular o consumo e tentar conter a alta dos preços”, diz. 

No atual cenário de juros básicos baixos no Brasil, taxas mais altas nos EUA poderiam gerar um fluxo de fuga de dólares para o país, elevando ainda mais a cotação do dólar.

Intervenção do BC

O dólar fechou em recorde mesmo após intervenção do Banco Central, que ofertou nesta quarta 10 mil contratos de swap tradicional com vencimento em agosto, outubro e dezembro de 2020, totalizando US$ 500 milhões.

Na quinta-feira, a autoridade monetária ofertará até 20 mil contratos de swap tradicional com vencimento em agosto, outubro e dezembro deste ano, equivalentes a US$ 1 bilhão. O leilão ocorrerá entre 9h30 e 9h40.

Coronavírus no Brasil

O Ministério da Saúde confirmou nesta quarta o primeiro caso positivo de coronavírus no Brasil. O paciente é um homem de 61 anos que mora em São Paulo e viajou para a Itália, país mais afetado pelo surto na Europa, entre 9 e 21 de fevereiro. 

A contaminação pelo vírus foi diagnosticada pelo hospital privado Albert Einstein e confirmada em contraprova realizada pelo governo brasileiro. Outros 20 casos da doença estão sendo investigados no Brasil, 12 deles de pessoas que também estiveram na Itália – o país já tem centenas de casos confirmados.

Nesta quarta, pela primeira vez, o número de novos casos diários de coronavírus confirmados fora da China superou a quantidade de notificações no país, epicentro da doença, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade alertou, porém, que não há necessidade de pânico por conta da epidemia. O vírus já infectou mais de 80 mil pessoas em todo o mundo e a taxa de mortalidade é de cerca de 2%.