Renda menor ou mais tempo para se aposentar: os entraves da mulher investidora


Luís Lima Do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de março de 2020 às 17:14 | Atualizado 15 de março de 2020 às 13:43

Embora sejam de gerações diferentes, a estudante Paula Yumi, de 23 anos, e a aposentada Margareth Samecina, de 60 anos, têm mais em comum do que imaginam. Em meados de 2019, as duas tomaram uma grande decisão financeira: deixariam a poupança para diversificar o portfólio de ativos e, assim, ampliar ganhos. E foi assim que ambas estrearam em uma área que muitos temem: a renda variável.

Não foram apenas as duas que tomaram esse caminho. O aumento de mulheres que investem na bolsa de valores praticamente dobrou de 2018 para 2019, saltando de 179 mil investidoras, para 388 mil - o maior valor desde 2002. O avanço feminino na bolsa, porém, não foi o suficiente para conter os entraves que elas enfrentam ao investir. É o que mostra um levantamento feito pela fintech Magnetis, enviado com exclusividade ao CNN Brasil Business.

A estudante de Publicidade e Propaganda, Paula Yumi

Paula Yumi, estudante de Publicidade e Propaganda, passou a diversificar investimentos em 2019

Foto: Acervo Pessoal

De acordo com a pesquisa realizada com base de clientes da Magnetis, as mulheres vão demorar mais para conseguir os mesmos retornos dos homens. Isso porque elas partem para o mercado financeiro com um salário defasado em comparação a eles. Enquanto a renda mensal média delas é de R$ 2.050, para os homens é R$ 2.579, um aumento de 25%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outro entrave é o perfil do investidor: enquanto os homens são mais arrojados, as mulheres têm um perfil mais conservador.

Como simulação, a fintech considera um cenário em que dois indivíduos (um homem e uma mulher) tenham como objetivo se aposentar aos 65 anos, com uma renda mensal de R$ 10 mil. O resultado dessa simulação foi a de que o público feminino levaria três anos a mais ou ganharia quase R$ 3.600 menos que os homens para atingir o mesmo objetivo.  

Ou seja, eles conseguiriam se aposentar aos 65 anos com uma renda mensal de R$ 17.531, enquanto elas teriam um rendimento de R$ 13.935. Para atingir o mesmo valor que os homens, as mulheres teriam que se aposentar aos 68 anos.

A questão de ser mais conservadora, no entanto, não é simplesmente uma escolha. Essa é a conclusão de Mariana Congo, educadora financeira e especialista em investimentos da Magnetis. Para ela, a falta de educação financeira faz com que as mulheres ainda têm receio de se arriscar em investimentos mais ousados. Isso fica evidente nos números: de acordo com a pesquisa, entre elas, 32% se consideram mais conservadoras, ante 15% dos homens entrevistados.  

"Não é só uma questão numérica, mas cultural e de educação. Também é preciso incentivar a visão de que as mulheres podem ter investimentos mais arriscados, para também ter, potencialmente, rendimentos maiores", diz a especialista.

Desta maneira, quem sabe, os números de investidoras mais afeitas ao risco poderia crescer. Segundo o levantamento, 50% do público masculino se considera ousado na hora de definir a sua carteira, enquanto no público feminino a resposta foi dada apenas por 25% de mulheres. 

Pessoas olham o painel da B3 em dia de interrupção dos negócio (circuit breaker)

Parcela de mulheres tem crescido na Bolsa de São Paulo, mas montante representa só 24% 

Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

Mulheres investidoras 

O aumento da presença feminina na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, tem chamado atenção e animado o mercado. Entre 2018 e 2019 o número de mulheres investidoras dobrou, chegando ao patamar maior desde 2002, ano do primeiro levantamento. O resultado disso foi a movimentação de R$ 79 bilhões em valor investido.  

E foi no embalo desse crescimento e da disseminação de informação que Paula e Margareth vivenciaram o ponto de virada em termos financeiros. No caso da aposentada Margareth, o namorado de uma de suas filhas apresentou possibilidades de investimentos para além da renda fixa. O incentivo por parte do genro fez com que a curiosidade dela aguçasse. 

“Na minha faixa etária, há muito medo do risco. E culturalmente nos é imposto que não sabemos cuidar das finanças, um reflexo de um pensamento machista”, diz ela.

Já para Paula, que é estagiária na área de publicidade, o conhecimento também veio por meio de conversas com amigos que atuam no mundo de investimentos. Para iniciar seu contato com o mercado financeiro, a estudante realizou um aporte inicial de R$ 3 mil - fora da poupança, claro. “Percebi que meu dinheiro rendia muito menos do que eu esperava. Agora, eu passei a aplicar em ações e fundos multimercados”, afirma. 

Desde então, ambas viram a sua carteira de investimentos ter ganhos expressivos -- acima da antiga poupança, que as duas utilizavam.