Grandes investidores estão comprando mais ações – mas com cautela


Juliana Elias do CNN Brasil Business, em São Paulo
17 de março de 2020 às 08:44
Bolsa de valores de SP

Painel no pregão da B3, a bolsa de valores de São Paulo (09.Mai.2016)

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Com a explosão de casos de coronavírus das últimas semanas, bolsas de valores de todo o mundo entraram em colapso, com algumas das piores quedas em anos ou mesmo décadas.

Na B3, a bolsa de valores brasileira, não foi diferente. O Ibovespa, principal índice da bolsa, perdeu 13,9% só na segunda-feira (16), e no ano acumula queda de 38,5%. Algumas empresas já viram o preço de suas ações caírem a bem menos da metade em poucos dias, casos como o das companhias aéreas Gol e Azul, da agência de turismo CVC e da Petrobras.

Para o investidor arrojado, não deixa de ser uma oportunidade de ir às compras em meio a uma grande liquidação, mas sem perder de vista o terreno arenoso em que estará pisando. É o que os grandes fundos que investem em bolsa de valores estão fazendo.

O CNN Brasil Business conversou com gestores de fundos de ações brasileiros para saber como eles estão administrando a carteira em um momento tão atípico quanto este. Em muitos casos sem dinheiro em caixa para simplesmente comprarem o que quiser, eles estão vendendo uma parte das empresas que consideram ter se prejudicado mais para, do outro lado, comprar mais daqueles que acreditam ter caído muito além do que mereciam. As compras têm sido feitas aos poucos, para não ser pego por grandes surpresas entre um dia e outro.

É uma estratégia que, ao mesmo tempo, ajuda a estancar a sangria das perdas e a comprar boas ações baratas na aposta de bons retornos em algum momento mais à frente. Todos eles reforçame, entretanto,  não serão meses fáceis pela frente, que os riscos são muitos e que a estratégia de aceitar entrar nessa espiral, agora, só faz sentido para aqueles dispostos a esperarem o resultado no longo prazo, em dois anos ou mais. Veja a seguir o que eles estão fazendo:

Henrique Bredda, sócio e gestor da Alaska Asset Management

Aberto em 2017, o Alaska Black Institucional, principal fundo de ações da casa, já passou por boas chacoalhadas desde então, como o “Joesley day” em maio de 2017, a greve dos caminhoneiros de maio de 2018 e a turbulenta corrida eleitoral também de 2018. “Mas dessa vez está muito diferente”, diz o gestor do fundo, Henrique Bredda, “não tem algumas ações caindo e outras subindo; tem as que estão caindo 10% e as que estão caindo 20%”.

Sem dinheiro em caixa para ampliar os investimentos, a estratégia da Alaska tem sido vender algumas posições para ampliar outras. “Estamos privilegiando empresas ligadas ao mercado doméstico, que se afetam menos com os negócios globais”, disse Bredda. O grupo de educação Cogna (antiga Kroton), a administradora de shopping centers Aliansce Sonae e a varejista Magazine Luiza são algumas das empresas que já estavam na carteira e que receberam novos aportes nas últimas semanas. Por outro lado, parte do que tinham em Petrobras, Vale, Klabin e Suzano, exportadoras de produtos básicos, foi vendida.

“Tem coisas que estão sendo dadas, ficaram baratas demais”, disse Bredda. “O zigue-zague dos preços agora está caótico e não dá para saber os limites dessas quedas, mas, quando olhamos um horizonte mais longo para essas empresas, do que elas podem gerar de caixa nos próximos anos em comparação a quanto ficaram valendo agora, vemos um raro momento para fazer compras competitivas.”

O fundo da Alaska tem um patrimônio de R$ 12 bilhões aplicado na B3 e cerca de 200 mil investidores. No ano, até a última sexta-feira (13), a queda acumulada na rentabilidade era de 30%.

Luiz Felipe Amaral, sócio e gestor da Equitas

Especializada em ações, a Equitas é dona de um dos fundos que mais se valorizaram em 2019 – o Equitas Selection subiu 60% no ano passado, para um Ibovespa que ganhou 31%.

“É em momentos de pânico como esse que as grandes oportunidades aparecem, e é preciso ter paciência e olhar para o médio e longo prazo”, diz o gestor responsável, Luiz Felipe Amaral. “A cara é de que o mercado ainda ficará turbulento por algum tempo, e não se sabe o fundo do poço, então o jeito é comprar aos poucos e ir observando se cai mais.”

Algumas empresas que estavam na carteira, como Petrobras, foram totalmente vendidas. Outras, como a Azul, foram seguradas. A Equitas tem também aproveitado um dinheiro que tinha parado em caixa desde o início do ano para ir às compras agora.

A operadora de planos de saúde Notredame Intermédica, a rede de shoppings Iguatemi, a Localiza e as Lojas Renner são algumas empresas que já faziam parte da carteira e que ganharam novos aportes nos últimos dias. “Não há dúvidas de que essa crise terá impacto no lucro das empresas no curto prazo, mas olhamos para um horizonte mais longo, de três a cinco anos”, disse Amaral.

O Equitas Selection possui um patrimônio de R$ 6,3 bilhões e cerca de 120 mil investidores. Até sexta (13), a perda do fundo acumulada no ano era de 29,7%.

Renato Ometto, gestor de ações da Mauá Capital

A Mauá Capital possui dois fundos de ações que somam R$ 800 milhões sob gestão, de acordo com o responsável da área, Renato Ometto.

Segundo Ometto, o choque das últimas semanas levou a equipe a fazer um rearranjo de parte das carteiras, vendendo um pouco de empresas que caíram muito, como as companhias aéreas, e realocando o dinheiro para outras que acham promissoras. “Aproveitamos para comprar papéis que já queríamos ter na carteira, mas julgávamos estar caros”, disse.

É o caso da rede de farmácias Raia Drogasil, que vinha sendo negociada entre R$ 120 e R$ 130 no início do ano. Na sexta-feira (13), fechou a R$ 104,99. “Estávamos há muito tempo olhando para ela, é uma empresa bem administrada, com um negócio resiliente e que não deve perder vendas, e ficou com um preço bom”, disse Ometto.

Magazine Luiza, Lojas Renner e exportadoras como a Vale, que, em sua análise, tem a ganhar com a disparada do dólar, foram outras compradas nos últimos dias.

“Para o investidor individual, é importante ter em vista que esse dinheiro que vai para a bolsa agora tem que ser uma parte da renda com que ele não vai poder contar nos próximos meses”, disse Ometto. “Tem que pensar nesse dinheiro daqui dois ou três anos; no curto prazo é muito difícil prever.”