Após o PIB, coronavírus também deve afetar a taxa de desemprego


Matheus Prado e André Jankavski do CNN Brasil Business, em São Paulo*
17 de março de 2020 às 11:27

Mesmo em estágio inicial de contágio no Brasil, com 234 casos confirmados e um óbito, o coronavírus já mostra o seu poder ao forçar revisão diversas projeções econômicas do país para baixo. O PIB, por exemplo, não deve ter uma expansão acima de 1,7%, segundo o Boletim Focus – e o viés é de mais reduções. Porém, outro indicador que pode sofrer um grande impacto é taxa de desemprego. 

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Companhias aéreas sentem efeitos do coronavírus (11.jul.2018)

Foto: Leonardo Benassatto/Reuters

Trata-se de um efeito cascata: saindo menos de casa, as pessoas consomem menos. Consequentemente, as lojas e outros estabelecimentos do setor de serviços deixam de repor os seus estoques. Logo, as fábricas também diminuem a produção. 

O estrago logo aparece – e as empresas, que já atuam em uma economia fragilizada há seis anos, podem enxergar nas demissões uma saída. Por isso, segundo especialistas, é provável que o número de 11,9 milhões de pessoas sem trabalho, o que representa uma taxa de 11,2% da população economicamente ativa, deve ter uma relevante alta nos próximos meses, caso o surto continue subindo na velocidade atual. 

“O final do ano passado mostrou uma recuperação do emprego formal e de qualidade, mas certamente esse movimento não irá continuar”, diz o professor Fernando Veloso, do Instituto Brasileiro de Economia, ligado à Fundação Getulio Vargas (IBRE-FGV). 

Para tentar evitar que esse cenário aconteça, o governo anunciou um pacote de estímulo econômico na segunda-feira (16). Algumas das propostas, como o adiamento do pagamento de impostos federais e do FGTS, foram vistas como uma maneira de reduzir as demissões. O ministério da Economia ambém anunciou a ampliação de crédito para pequenas e médias empresas. 

Mas isso pode não ser o suficiente. Um setor que já está mostrando que a realidade é dura é o de companhias aéreas. Questionado sobre eventual impacto da não ajuda estatal no setor, Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), diz que “basta olhar para o que acontece no mundo”. 

“A Flybe fechou as portas, a norueguesa Norwegian anunciou plano de demitir metade do pessoal, a British Airways luta pela sobrevivência e a American Airlines cortou drasticamente voos, inclusive todos para o Brasil. É isso o que pode acontecer”.

Por enquanto, as companhias aéreas Latam, Gol e Azul já anunciaram redução de mais de 60% de sua capacidade de voos para os próximos meses. 

No setor automotivo, a ordem é serenidade. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) vinha batendo a sua meta de vendas para 2020 até o fim da última semana: aumento de 9,3%. Com o avanço do coronavírus, tudo ficou mais nebuloso. “O momento é de ter calma e entender os reais impactos econômicos”, afirma Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea. 

Informalidade

Enquanto a redução do número de empregados é aguardada, a informalidade é um problema que deve crescer nos próximos meses. Não que o buraco já não seja pequeno. “A informalidade é muito expressiva por aqui, somando cerca de 41% dos ocupados. Vai ser difícil para essa faixa da população ficar em casa sem renda”, afirma Renan Pieri, professor de economia da FGV EAESP. 

E isso é um grande problema. Um trabalhador informal recebe cerca de metade de um formal: logo, ele precisa trabalhar mais. Se não fizer isso, sequer terá o que comer em tempos de pandemia. 

Por isso, Pieri opina que é necessário que o governo pense em alguma forma de distribuição de renda, como por exemplo a implementação de uma renda mínima, para socorrer esta parcela da força de trabalho nacional. Veloso, do IBRE-FGV, também acredita que uma ação nessa mesma direção será necessária em um futuro próximo.

João Saboia, professor emérito do IE-UFRJ, acredita que o governo federal ainda não se colocou enfaticamente pois está priorizando o arrocho fiscal, “mas vai precisar se posicionar”. Já para Sérgio Firpo, professor do Insper, falta planejamento de longo prazo para o governo. “Está faltando estratégia, resolver todos os problemas por meio de política fiscal e desonerações de tributos, como dito, pode não ser o suficiente”, diz ele.