Pedro Guimarães diz que Caixa está segura para enfrentar crise do coronavírus


Da CNN Brasil, em São Paulo
19 de março de 2020 às 23:13 | Atualizado 20 de março de 2020 às 08:33

 

Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, disse que o banco está seguro para enfrentar a crise do coronavírus.

Ele acrescentou que a instituição se encontra em situação positiva, e que está na posição de ajudar o país, tendo no momento carteira superior a R$ 700 bilhões.

Guimarães também destaca a segurança de carteira de créditos da Caixa disponibilizadas para enfrentar os efeitos do coronavírus, que totaliza R$ 78 bilhões.

Segundo o presidente da Caixa, a “maior parte” destes recursos está ancorada em segmentos muito seguros para um banco, como crédito consignado, que representa pouco risco para instituições financeiras.

Confira a íntegra da entrevista (em vídeo, acima, e em texto, abaixo):

William Waack: Nós entendemos o esforço da Caixa nesse momento, mas entendemos também que todo banco público e privado está sujeito à regras internacionais muito severas, como a reserva de capital e como respeito a normas técnicas para a concessão de crédito. Em que medida o programa que a Caixa se colocou como realizável deixa a sua instituição confortável em termos de saúde da própria instituição?

Pedro Guimarães: A Caixa Econômica Federal, o banco de todos os brasileiros, em especial os mais humildes, tem a maior base de capital e o maior volume de recursos livres, títulos públicos federais. Então estamos em um momento de grande solidez e possibilidade de ajudar, nós temos uma carteita superior a R$ 700 bilhões. Esse pacote, essa possibilidade, é da ordem de R$ 78 bilhoões, ou seja, ao redor de uma expansão de cerca de 10% da carteira e a maior parte em segmentos muito seguros para um banco porque o crédito consignado é a linha de crédito com menor risco para um banco. Outras linhas como, por exemplo, essa fundamental de financiamento das Santas Casas, tem uma garantia implícita do SUS. Então, nós estamos em uma posição única de capitalizacao, única de rentabilidade e estamos fazendo créditos matemáticos com todos os cálculos.

Thais Heredia: Quero falar sobre a concessão de crédito, que no final das contas o atraso no pagamento das dívidas já nasce como uma renegociação com essas pessoas que têm alguma coisa para pagar. Como vai se dar essa renegociação? Que taxa de juros vai estar embutida nessa carência? Por exemplo, que as pessoas vão deixar de pagar por dois meses ou por mais tempo as suas parcelas. Qual vai ser o custo dessa renegociação para as empresas e correntistas que procurarem a Caixa?

Pedro Guimarães: A Caixa tem uma posição única porque quase toda a nossa carteira de crédito, R$ 500 bilhões dos R$ 700 bilhões, são de créditos imobiliários que tem hoje uma baixíssima inadimplência e nós não temos percebido uma renegociação potencial. Onde que nós percebemos o maior risco? R$ 30 bilhões dos R$ 700 bilhões que vão para as micro e pequenas empresas, em especial R$ 9 bilhões para o segumento mais atingido de comércio e serviços. Ou seja, pouco mais de 1% da nossa carteira tem um risco maior e por causa disso nós temos total confiança. E só gostaria de reforçar para vocês: nós estamos ampliando em 60 dias, mas se a crise for mais grave, ampliaremos para 90, para 120, para 150. Porque nós no ano passado tivemos um lucro de R$ 21 bilhões, nosso primeiro trimnestre está muito forte e nós entendemos que um banco social em um momento tão grave, de pandemia como este, tem este papel.

Renata Agostini: No final da semana passada você falava sobre as diferenças entre do que vivemos agora e do que vivemos na crise de 2008, argumentando que era um momento bem distindo e que havia solidez no sistema financeiro brasileiro. Agora, nós vimos que a situação mudou muito nos últimos dias. Inclusive, na semana passada, o argumento da Caixa e do Banco do Brasil é de que não seriam necessárias novas linhas. E agora a gente viu que a Caixa entrando nesse esforço do governo para novas medidas de socorro à economia. A sua avaliação sobre a solidez do nosso sistema financeiro mudou? O senhor observa no horizonte riscos?

Pedro Guimarães: Nós vemos uma diferença muito grande entre a solidez do sistema financeiro hoje e há pouco mais de dez anos atrás. Nós temos R$ 78 bilhões de linha que é basicamente o mesmo da semana passada e nós ampliamos mais R$ 3 bilhões que são exatamente essas linhas para as santas casas. Tem um ponto importante que são R$ 30 bilhões de potencial compra de carteira de bancos médios que, de novo, há mais de dez anos atrás sofreram, mas nesse momento não temos nenhum pedido de nenhum banco médio para compra de carteira. Por outro lado, a Caixa, por ser o maior banco do Brasil e da América Latina, está fazendo um planejamento de três ou seis meses para frente. O que isso significa? Se houver algum problema a daqui dois, três ou quatro meses nós já queremos deixar muito claro, muito tranquilo, que estaremos aqui. E, de novo, de um ponto de vista matemático. Nós não vamos fazer o que foi feito há décadas atrás na Caixa, ou anos atrás, onde a Caixa entrou para recuperar perdas de outros. Nós só faremos operações com cálculo matemático e potencial mensurado.

William Waack: O maior medo que as pessoas têm na vida, sobretudo quem tem um pequeno ou médio negócio, é do gerente do banco, especialmente em um momento como este, no qual as pessoas estão assustadas e diante possíveis perdas severas. O que é que um pequeno ou médio negócio pode oferecer para a Caixa como garantia? Porque vocês mesmo reiterou que os empréstimos não serão filantropias. Eles serão concedidos mediante garantias. O que é que faz diante do terrível gerente do banco quem é dono de um pequeno ou médio negócio?

Pedro Guimarães: Exatamente por isso, quando nós assumimos há pouco mais de um ano, nós saimos das operações de créditos com grandes empresas. Nós também vendemos toda a participação que a Caixa tinha em Petrobras a um valor acima de R$ 30. Isso nos fez ganhar em relação a hoje mais de R$ 5 bilhoes. Então o que significa para ser objetivo: realmente as pequenas e micro empresas não terão o mesmo tipo de garantia de uma empresa maior. Só que este é o foco da Caixa. Nós estamos trabalhando com o Sebrae e esse é o potencial de perda que nós teremos. Só que elas sã0o empresas pulverizadas e o maior ponto para a Caixa, como nós estamos em 5.500 municípios no Brasil inteiro, a nossa força é menos a capital do Rio de Janeiro, a capital de São Paulo e Belo Horizonte, e muito mais as cidades como Bom Jesus do Piauí, Oeiras. Então esta é a nossa capilaridade. Se nós tivermos uma perda maior, será neste 1% da carteira que perfeitamente não pode nos dar a garantia que empresas maiores podem.

Daniel Adjuto: O grande interesse hoje, principalmente dos trabalhadores informais, é justamente saber como eles vão poder ter acesso aqueles R$ 200 do "coronavoucher". Como a Caixa está se organizando para fazer esse pagamento dos R$ 200 já que a circulação, as agências estão fechadas. Como isso vai se dar?

Pedro Guimarães: A Caixa tem essa papel social. Nós pagamos mais de 60 milhões de brasileiros nos últimos três meses do ano passado do FGTS. Nós já estamos discutindo, isso foi uma ideia do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, e eu estava presente nessa discussão. Amanhã de manhã nós teremos uma reunião de três vice-presidentes da Caixa e com secretários do ministro Paulo Guedes para operacionalizar não só essa questão desse voucher, mas outras medidas porque nós precisamos realizar a parte operacional. Precisa ser muitas vezes um PL, uma medida provisória. Então enquanto esta não for formatada oficialmente nós da Caixa já vamos nos preparando. Só para dar um exemplo... Nos dez primeiros dias de cada mês, a Caixa paga 13 milhões de pessoas do Bolsa Família. Nós queremos equilibrar porque teremos ao redor 40 milhões de brasileiros recebendo seja o bolsa família, seja o voucher ou a última medida que o ministro Paulo Guedes acabou de anunciar. E, em tempos de coronavírus, nós temos uma enorme preocupação com os brasileiros e funcionários da Caixa e precisamos evitar ao máximo a aglomeração. Um outro ponto importante é que nós temos 26 mil pontos de venda, que são mais pontos de venda que outros bancos juntos, e por causa disso nós temos essa participação e estamos à dispor da população brasileira.