Governo ainda não confirma, mas recessão é cenário provável em 2020


André Jankavski do CNN Brasil Business
22 de março de 2020 às 07:29
Sérgio Moro, Paulo Guedes e Jair Bolsonaro usam máscaras em coletiva

Os ministros Sérgio Moro e Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro; Coronavírus deve fazer o Brasil voltar a recessão após três anos com a economia andando de lado

Foto: Carolina Antunes/Planalto/Divulgação

Menos de dez dias depois de reduzir a estimativa de crescimento do PIB de 2,4% para 2,1%, o governo federal parece ter caído na realidade. Na sexta-feira (20), o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu que a economia deve, no mínimo, andar de lado em 2020. A expansão de 0,02%, que significa na realidade uma estagnação, foi uma admissão de que a pandemia da COVID-19 era um problema maior do que o próprio Guedes e o presidente Jair Bolsonaro falavam.

Porém, até mesmo esse crescimento mínimo – ainda mais se levarmos em conta que o Brasil é um país emergente – pode ser visto como uma conta otimista. Diversos bancos e instituições começaram a retrair as suas previsões de crescimento para o PIB. O banco Itaú, por exemplo, já apontou que o Brasil caminha para uma recessão: redução de 0,7% da economia. Anteriormente, o banco ligado à família Setubal acreditava que o PIB teria um crescimento de 1,8%.

Antes dele, o banco suíço Credit Suisse acreditava que o Brasil iria ficar no 0% em 2020. Depois, os bancos americanos JP Morgan e Goldman Sachs passaram a prever um declínio de 1% e 0,9%, respectivamente. Porém, o economista Emerson Marçal, coordenador do Centro de Estudos em Macroeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas, acredita que o cenário pode ser ainda pior. E realizou uma simulação para provar o seu ponto.

No estudo, Marçal considerou dois eventos que impactaram fortemente a economia brasileira nos últimos anos e que podem ser comparados ao atual momento de pandemia. O primeiro deles foi a bolha imobiliária americana de 2008, que praticamente paralisou a economia mundial. Entre os mais afetados estavam as economias americana, europeia e chinesa, que são grandes parceiros comerciais do Brasil.

Por meio de um modelo de séries de tempo, o economista trouxe a valor presente o impacto daquele ano para 2020. Em suas contas, uma crise como a que ocorreu em 2008 faria o PIB do Brasil diminuir em 2,5% atualmente.

O prejuízo, no entanto, fica ainda maior. Porque, ao contrário do que aconteceu em 2008, o Brasil também está parado. Logo, a ideia de “marolinha” – a economia brasileira cresceu 5,1% em 2008 e retraiu 0,1% no ano seguinte – fica bem mais distante. Para fazer uma comparação com o efeito da paralisação do mercado interno, Marçal comparou os efeitos da greve dos caminhoneiros de 2018, que durou dez dias.

Dessa maneira, Marçal acreditaria que se algo similar ocorresse no país (com uma duração maior, como deve ser o caso do coronavírus), a economia brasileira andaria de lado. Em vez do crescimento esperado de 1,9%, que era a estimativa inicial do economista, haveria uma estagnação: 0%.

Então, como o movimento está para unir o pior do impacto das duas crises, Marçal estima que o PIB pode retrair 4,4% em 2020. “Pode ser meio alarmista falar isso, mas eu acredito que até essa previsão não seja pessimista, mas realista”, diz Marçal. E a crise do coronavírus ainda está só no início.