CEOs estão abrindo mão de seus salários durante a crise do coronavírus; por quê?


Clare Duffy, do CNN Business
28 de março de 2020 às 08:45
pátio aeroporto

Aviões das companhias aéreas Gol, Latam e Azul estacionados no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro (12.jan.2017)

Foto: Nacho Doce/Reuters

Os efeitos da pandemia de coronavírus atingiram em cheio as grandes companhias nas últimas semanas —o que fez com que o setor pedisse ajuda dos cofres públicos e tomasse medidas drásticas para reduzir custos. Entre as atitudes adotadas por algumas empresas está o corte de salários de executivos do alto escalão, como, por exemplos, os CEOs.

Isoladamente, a medida não deve gerar um impacto significativo no caixa das empresas nem garantir o emprego dos funcionários de cargos mais baixos no quadro organizacional. Mas a atitude manda um recado importante.

"Muito disso é simbólico", disse Itay Goldstein, professor de finanças da Universidade da Pensilvânia. "Quando entramos em uma crise como a que estamos enfrentando agora —que é um momento difícil para a economia e para os trabalhadores, as pessoas estão perdendo seus empregos, e ninguém sabe o que esperar— acho que o fato de os CEOs declararem: 'Vamos desistir do nosso salário', é um jeito de mostrar que eles compartilham dessa dor".

As companhias aéreas e empresas de viagens, justamente as mais afetadas no início da pandemia, foram as primeiras a tomar essa medida, incluindo Delta (DAL), Alasca (ALK), United Airlines (UAL) e outras, que anunciaram o corte dos salários dos CEOs e reduziram a remuneração de outros executivos.

Uma das maiores redes de hotéis do mundo, a Marriott afirmou, na semana passada, que o CEO Arne Sorenson não será mais pago pelo resto do ano, e que o restante da equipe executiva terá um corte de 50% nos salários. Na mesma ocasião, a companhia divulgou que poderia demitir dezenas de milhares de funcionários em seus hotéis, desde camareiras até gerentes.

Enquanto isso, a plataforma de viagens Booking Holdings anunciou nesta segunda-feira (20) que seu CEO, Glen Fogel, assim como os diretores das outros três ramos da empresa, renunciariam a seu salário. Os membros do conselho da Booking também abriram mão da remuneração.

Na quarta-feira (25), a Dick's Sporting Goods também anunciou que seu CEO Ed Stack e a presidente Lauren Hobart renunciarão a seus salários, com exceção dos benefícios oferecidos pela empresa. O salário dos demais diretores vão ter cortes de 50%.

Outras empresas, incluindo Ford, GE e Lyft adotaram medidas semelhantes.

"Cada dólar, euro ou bhat conta para garantir que a gente possa continuar a liderar a travessia dessa crise", disse Fogel, da Booking, em uma carta aos funcionários veiculada nesta segunda-feira (23). "Todos os funcionários tem a responsabilidade de contribuir com os esforços de redução de custos e ser o mais eficiente possível ".

Um gesto simbólico

Em companhias dessa grandeza, entretanto, o salário dos CEOs e executivos do alto escalão, mesmo que somem milhões de dólares, são insignificantes perto do caixa da empresa –certamente não são suficientes para manter a operação em um período de crise, disse Goldstein. Muitas dessas empresas estão tomando também outras medidas, como mudar a agenda da operação e cortar gastos desnecessários.

Entretanto, a pressão sob executivos dos cargos mais altos para que tomem uma atitude pode estar particularmente alta nesse momento.

A quantidade de dinheiro que executivos do alto escalão das grandes corporações ganham em relação a outros trabalhadores tem sido debatida desde a crise de 2008, quando autoridades do governo americano obrigaram as companhias a divulgar esses valores. E a discrepância continuou aumentando nos últimos anos. Até Abigail Disney, neta do co-fundador da empresa, Roy Disney, criticou o enorme montante que o CEO da marca recebe, entre salário e outras remunerações.

Em 2018, o CEO da Delta, Ed Bastian's, por exemplo, ganhou 184 vezes o valor da remuneração média de todos os outros funcionários da companhia, de acordo com o relatório mais recente divulgado.

O coronavírus atingiu as empresas justamente no momento em que a bonificação anual dos executivos e trabalhadores estava sendo calculada, o que torna particularmente sensível a decisão sobre as demissões, conforme explica Eric Talley, professor-reitor da faculdade de Direito da Universidade de Columbia.

Mesmo que historicamente a postura dos CEOs de abrir mão de seus salários não faça muita diferença em termos de salvar o caixa das empresas, os trabalhadores ainda esperam ver esse tipo de atitude.

"É mais sobre adotar um tom apropriado no topo", disse Talley. "Houve empresas que se saíram muito bem em 2019 e, de repente, deram de cara com um muro. Ao mesmo tempo em que demitiam vários funcionários, estavam se autopremiando (milhões em pagamento de bônus). Simplesmente não pega bem.”

O jeito como é feito importa

O efeito do gesto pode estar nos detalhes. Algumas companhias afirmaram que os CEOs estavam abrindo mão do salário-base, enquanto outras anunciaram que seus diretores deixariam de receber toda a remuneração. O salário-base geralmente é apenas uma pequena parte do que os cargos de confiança recebem. A maior parte da remuneração normalmente é composta por participação nos lucros, benefícios e outros bônus.

A United Airlines, por exemplo, disse que seu CEO Oscar Munoz e o presidente Scott Kirby vão "renunciar a 100% de seus respectivos salários-base até 30 de junho", de acordo com um comunicado divulgado no dia de 10 de março. Mas em 2018, de acordo com a declaração de pagamentos mais recente da United, o salário-base de Munoz representava apenas 9% de sua remuneração total —ou 1,25 milhão dos quase 10,5 milhões que ele recebeu naquele ano. O salário base de Kirby representava 16% de seu pagamento.

As compensações e bonificações baseadas em desempenho também devem sofrer uma redução num momento em que as ações das empresas estão em baixa, devido aos efeitos do coronavírus no mercado financeiro.

Mesmo que o corte dos salários de executivos não represente uma economia significativa de recursos a ponto de garantir que as empresas não demitam em meio à crise, o fato de enviar uma forte mensagem de solidariedade aos funcionários pode ser fundamental para a imagem das empresas quando iniciar a fase de recuperação, explica Talley.

"É uma mensagem que acho que muitos funcionários querem ouvir", disse o professor. "Muitos desses funcionários são confiáveis e qualificados, são bons funcionários. Portanto, essas empresas se antecipam, pensando: 'Queremos estar em posição de recontratar esses funcionários quando a economia começar a girar novamente. É mais ou menos por aí."