Dólar fecha praticamente estável após superar R$ 5,72 com turbulência política

Tentativa de Bolsonaro de acalmar os ruídos políticos acabou ofuscada pelo cenário de juros baixos, que pressionou a cotação durante boa parte do pregão

Do CNN Brasil Business, em São Paulo*
27 de abril de 2020 às 09:16 | Atualizado 27 de abril de 2020 às 17:48
Real é uma das moedas que mais se desvaloriza em relação ao dólar em 2020 
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

O dólar fechou perto da estabilidade em relação ao real nesta segunda-feira (27), bem longe das mínimas e também das máximas do dia, quando a cotação chegou a superar os R$ 5,72.

A moeda norte-americana terminou o dia com variação negativa de 0,07%, a R$ 5,6639 na venda. Na mínima, atingida ainda pela manhã, a cotação desceu a R$ 5,5370 (-2,31%). Na máxima, à tarde, foi a R$ 5,7270, alta de 1,04%.

Na B3 -- onde os negócios com dólar futuro se estendem até as 18h --, o contrato de primeiro vencimento DOLc1 tinha alta de 1,36%, a R$ 5,6620, às 17h09, após alcançar R$ 5,7285 na máxima, com o mercado ainda ainda sob estresse de tensões políticas.

O real esteve entre as moedas de pior desempenho nesta sessão e se mantém como a divisa que mais perde ante o dólar em abril e no acumulado de 2020.

Turbulência política

Nesta segunda-feira, em uma tentativa de demonstrar união dentro do governo, o presidente Jair Bolsonaro apareceu ao lado de ministros ao deixar o Palácio da Alvorada, e -- em meio a rumores sobre a possibilidade de o ministro da Economia, Paulo Guedes, deixar o cargo -- alinhou o discurso de sua administração e deixou claro que Guedes continua com a palavra final nos gastos federais.

Inicialmente, o posicionamento de Bolsonaro pressionou para baixo a divisa norte-americana, somando-se a um cenário otimista no exterior diante da expectativa de flexibilização das medidas de combate ao coronavírus nas principais economias do mundo.

Mais tarde, porém, a cotação passou a subir. "A volatilidade que a gente tem acompanhado nos últimos dias em relação ao cenário político permanece, e o diferencial de juros do Brasil em relação a outros países vai continuar afetando" o câmbio, disse à Reuters Denilson Alencastro, economista-chefe da Geral Asset.

O movimento desta sessão, segundo ele,  reflete "algo mais estrutural; não se trata propriamente do contexto de um dia".

Recentemente, os cortes da taxa Selic a mínimas históricas têm sido apontados por analistas como fator de pressão sobre o real, uma vez que reduzem rendimentos atrelados à taxa básica de juros, deixando o Brasil menos atraente para investidores estrangeiros quando comparados a pares emergentes com o mesmo nível de risco.

Esse cenário, associado à instabilidade política e às consequências econômicas da pandemia de coronavírus, já deixam o dólar em alta de mais de 40% sobre o real no ano de 2020.

Intervenção do BC

Na tentativa de corrigir possíveis movimentos exagerados no câmbio, o Banco Central tem marcado sua presença nos mercados, apesar do impacto limitado das medidas.

A autarquia realizou neste pregão leilão de venda de moeda à vista, em que vendeu 600 milhões de dólares, e vendeu o total da oferta de 10 mil contratos de swap tradicional 

Na sessão de sexta-feira (24), o dólar fechou em alta de 2,54%, cotado a R$ 5,668 na venda, renovando mais uma vez o seu recorde histórico nominal (que não leva em consideração a correção pela inflação), impulsionado pela saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça.

A semana passada foi a pior em 11 anos para a moeda brasileira.

*Com Reuters