Família na bolsa de valores: como montar carteira de investimento para os filhos


Manuela Tecchio, do CNN Business, em São Paulo
07 de maio de 2020 às 16:00 | Atualizado 08 de maio de 2020 às 08:49
Dia das Mães

Previdência está entre os principais investimentos escolhidos pelas mães para os filhos

Foto: Dakota Corbin/Unsplash

“Vai colocar uma blusa”, “escovou o dente?”, “não vai voltar tarde, hein?”. Parte do vocabulário de qualquer mãe, frases como essa demonstram que a preocupação com os filhos, em todos os aspectos da vida, começa cedo e não acaba mais. E com as finanças não é diferente. 

À medida em que mais mulheres assumem a chefia das famílias e ficam cada vez mais responsáveis pelo planejamento orçamentário dos lares — nos últimos 15 anos, o número de mulheres chefes de família aumentou 40%, segundo levantamento da Escola Nacional de Seguros —, as mães começam a se destacar em alguns mercados de investimento.

Caso dos produtos de previdência privada, por exemplo. Um levantamento da Brasilprev mostrou que as mães representam 45% dos responsáveis financeiros que adquiriram planos de previdência privada para uma criança ou um jovem. Esse percentual representa mais de 270 mil planos, que têm valor médio de contribuição de R$ 232.

Já a corretora Easynvest também observa um aumento nos "novos investidores." De acordo com a companhia, no início de maio deste ano, em meio à pandemia, o volume de clientes que estão abaixo dos 13 anos cresceu quase 60% quando comparado ao mesmo período de 2019. Para a empresa, o movimento é claro: cada vez mais, os pais estão preocupados com os futuros dos filhos — e já investindo para eles no longo prazo. 

Mas, como estruturar uma carteira de investimento pensando no futuro dos filhos? É válido fazer aportes desde a infância, ou melhor esperar a adolescência? Para entender como é possível ajudar o planeamento financeiro familiar — e dos filhos —, o CNN Brasil Business conversou com especialistas em finanças pessoais, como Carol Sandler, fundadora do site Finanças Femininas e mãe da Beatriz, de 6 anos; com Luciana Seabra, CEO da casa de análise de fundos Spiti; e Brenda Alves, gerente de compliance da Easynvest.

Entre as dicas das especialistas, aparecem desde a clássica previdência, passando por ativos bem conhecidos da renda fixa, como o Tesouro Direto e os CDBs, até as possibilidades mais inusitadas, como cartões de ouro físico. 

Previdência privada

Retorno consistente, benefícios fiscais e portabilidade fazem dos planos de previdência privada o “queridinho” das mães. Como os impostos são pagos sobre os rendimentos do investidor, a aplicação no nome dos filhos, no longo prazo, pode chegar a alcançar taxas de 0%, caso o resgate seja feito antes dos 18 anos, quando os filhos ainda não receberem salário.

“O clássico investimento que as mães fazem para os filhos é a previdência privada, porque tendo o prazo adequado, você tem vantagens fiscais”, diz Carol Sandler. Para ela, um dos planos mais comuns, o VGBL, vale muito a pena justamente por conta da possibilidade de escolher a tabela regressiva. Nesse sistema, a taxa do imposto de renda fica em apenas 10% depois de 10 anos de investimento, por exemplo. “Na prática, você está trocando 27% de imposto hoje por 10% lá na frente”, explica Luciana Seabra, CEO da Spiti.

Outra vantagem é a flexibilidade da aplicação. Neste tipo de investimento, há a possibilidade de ajustar a contribuição ao longo do tempo e, inclusive, de fazer uma portabilidade sem fazer o resgate, ou seja, trocar de aplicação no meio do caminho, para reduzir possíveis riscos ao longo do tempo.

Mas preste atenção neste conselho da CEO da Spiti: “Caso você opte por um plano de previdência, não compre um desses produtos que se dizem específicos para a criança, porque não tem diferença nenhuma. Geralmente, eles são mais caros e não muda nada.”

Fundos de ações

De acordo com Seabra, tanto as ações como os fundos podem ser uma boa oportunidade para diversificar a carteira e garantir uma rentabilidade um pouquinho maior. Os investimentos mínimos baixos de hoje em dia, segundo ela, são a principal razão para uma maior entrada das pessoas físicas neste mercado. 

Isso porque, no passado, era muito difícil recomendar a compra de fundos de ações, já que os mínimos eram muito altos. Hoje, é possível entrar em um fundo com aportando R$ 1.000 — e quem não puder investir essa quantia na entrada, pode acumular um valor no Tesouro Direto e, quando alcançar o mínimo necessário, entrar na bolsa de valores. 

O mais importante, segundo as especialistas, é manter o foco em uma carteira diversificada — principalmente porque essa estratégia protege o investidor das idas e vindas do mercado. "A crise nos mostrou que é preciso tomar bastante cuidado ao estruturar uma carteira de longo prazo. Os mercados estão muito voláteis e a gente não sabe quando isso vai passar", afirma Carol Sandler. "O mais importante ao investir em períodos de alta volatilidade é tentar ser um pouco mais conservador do que normalmente você seria.” 

Quem também segue essa filosofia é Brenda Alves, gerente de compliance da Easynvest. Além de comprar produtos de menor risco para a carteira das duas filhas, de 3 e 6 anos, ela procura variar os investimentos. “Hoje elas têm fundo imobiliário, um pouco de ações, multimercado. Eu tentei pulverizar bastante para aproveitar os picos do mercado mas também reduzir o risco”, conta.

O conselho de Alves é lembrar sempre que o dinheiro investido pelos filhos é deles. “Conheço pais que, em situação de emergência, vão lá e sacam. É importante escolher uma corretora na qual você consiga fazer essa segregação das contas e acompanhar cada uma.”

Ouro 

“Tem um investimento que eu acho pode ser um presente bonito, que é o ouro. Apesar de ser super polêmico, eu gosto muito da combinação de aplicações entre ele e a bolsa. Sempre falo para os meus clientes terem pelo menos de 5% a 7% em dos investimentos em ouro, porque ele cresce muito em momentos de estresse no mercado”, explica Seabra. 

Alguns fundos do metal hoje, especialmente os indexados em dólar, estão apresentando crescimento de mais de 50% ao ano. O ouro é conhecido por ser um ativo seguro, ao qual as pessoas se apegam em momentos de crise, justamente por seu valor historicamente construído e a demanda constante, que não pode ser suprida pela fabricação.

Quem quer dar um presente mais literal aos filhos, pode inclusive comprar cartões que levam pequenas quantidades de ouro, de empresas como a Ourominas. “É super lúdico, porque é físico mesmo. Além de ser uma reserva de valor, é um presente que vai nessa linha de ‘meu primeiro investimento’, tem um lado educativo”, diz Seabra. 

No site da empresa, o ticket mais barato, com um grama do metal na composição, custa pouco mais de R$ 323. Por lá, também é possível comprar as famosas barras de ouro “que valem mais do que dinheiro”. Outras empresas, como a Reserva Metais, oferecem moedas timbradas feitas com cerca de 30 gramas de ouro, com valores que passam dos R$ 9 mil.

Brenda Alves, gerente de compliance da EasyInvest, com as filhas

A gerente de compliance da Easynvest, Brenda Alves, com as filhas

Foto: Arquivo pessoal