Contratados na pandemia nunca estiveram com colegas; novidade deve mudar mercado

Com vírus, novos funcionários começaram a trabalhar sem nunca ter no escritório. Crise "forçou" home office no país e deve transformar processos em empresas

Luísa Melo, do CNN Brasil Busines, em São Paulo
09 de maio de 2020 às 06:53 | Atualizado 11 de maio de 2020 às 15:24
Com  coronavírus, 83% dos profissionais estão fazendo home office; para 41% deles a possibilidade não existia antes da crise
Foto: Bench Accounting/Unsplash

As medidas de isolamento contra o novo coronavírus forçaram empresas no Brasil a digitalizar processos e desenharam um cenário inédito: novos funcionários estão começando a trabalhar sem nunca terem ido ao escritório, nem encontrado os chefes, colegas e até mesmo subordinados. As novidades vieram para ficar, segundo especialistas, e devem aumentar as possibilidades de recrutar profissionais fora do país, além de ampliar a adesão ao home office.

A catarinense Beatriz Santini, 25, é uma dessas pessoas. Ela começou o novo emprego na desenvolvedora de software Mercos, de Joinville, no dia 6 abril e só conhece os outros 11 integrantes da equipe por vídeo. Com sua chefe direta, se encontrou apenas uma vez, durante o processo seletivo, ocorrido antes de a crise da COVID-19 estourar no país. 

A especialista em marketing pediu demissão do antigo trabalho dias antes de a quarentena ser decretada no estado e diz que sentiu medo de que sua contratação acabasse cancelada.

"Eu tinha a palavra deles, mas minha carteira ainda não estava assinada. Mas deu tudo certo e eles cumpriram com o prometido. A parte ruim foi que acabei me despedindo dos meus ex-colegas à distância", conta. 

A especialista em marketing Beatriz Santini começou a trabalhar no meio da pandemia e nunca viu os colegas pessoalmente
Foto: Arquivo pessoal

O único contato físico que Beatriz teve com a empresa desde então foi para buscar os equipamentos necessários para trabalhar de casa. "Eles me ofereceram computador, modem de internet, cadeira e até um auxílio para pagar a conta de energia", afirma. 

Mas nem todas as empresas que se viram obrigadas a implementar o trabalho remoto da noite para o dia estavam preparadas para dar esse suporte. Muitas não tinham nem mesmo estrutura adequada para fornecer e os trabalhadores não tiveram outra opção senão usar os próprios recursos, ou mesmo levar o desktop da firma para casa.

Pesquisa da consultoria Robert Half mostrou que 41% dos profissionais que estavam trabalhando de casa no fim de março não tinham essa opção antes da crise. O estudo ouviu 240 pessoas. 

"É o que chamamos de estágio 2 do home office, o da improvisação, quando as companhias transferem o ambiente físico para o online sem olhar para as necessidades do trabalhador", aponta Amélia Caetano, consultora do Instituto Trabalho Portátil, especializado no assunto. O nível 1 é o da inércia, ou seja, quando a organização nem pensa na possibilidade de que as pessoas trabalhem fora do escritório.

Para ela, pós-pandemia, os negócios devem caminhar para o terceiro patamar, o da transformação cultural – quando passam a enxergar o trabalho remoto como uma realidade possível e começam a reavaliar tecnologias e a treinar gestores e funcionários para adotá-lo. Depois desse, ainda há outros dois estágios: o da transformação organizacional e o da implementação completa.

Amélia diz que o instituto tem sido procurado por empresas interessadas em consultoria para aprender a aplicar o home office de maneira mais eficiente, mas com previsão de iniciar os projetos só depois que passar a crise e as incerteza diminuírem.

É importante destacar, porém, que nem todas as atividades podem ser desempenhadas remotamente e que as contratações durante a pandemia não são uma realidade generalizada. Grande parte das empresas, especialmente de pequeno porte, está demitindo e com dificuldades de pagar as contas. Os dados mais recentes do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o desemprego no país cresceu em março, mês parcialmente impactado pelo isolamento social e fechamento do comércio. A taxa subiu para 12,2%, atingindo 12,9 milhões de pessoas. 

Já os números que medem a abertura de vagas no mercado formal, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), não foram divulgados sequer para janeiro e fevereiro porque, com a pandemia, as empresas não estão conseguindo repassar as informações para o Ministério do Trabalho.

Contato faz falta

A integração de Beatriz, feita totalmente no ambiente virtual, foi uma novidade tanto para ela quanto para a companhia em que trabalha, a Mercos. Durante cinco dias, com horário marcado, ela foi apresentada em vídeo às pessoas com quem teria de falar e também à cultura e aos valores da empresa. "Foi uma imersão."

A jovem diz que o teletrabalho funciona bem, mas afirma sentir falta da interação com os colegas. A sensação é compartilhada por Raphael Bozza, 31, que assumiu uma posição de consultor interno de RH no Nubank no último dia 20. 

Bozza mora em Dubai há dois anos e começou o processo seletivo para a vaga no fim de 2019. Voltaria para o Brasil para começar o trabalho no Nubank, mas a pandemia fez os planos serem adiados.

Ele tem dois subordinados diretos, que só conhece pela internet. "Mesmo remoto já me sinto parte, apesar de ainda não conhecer 100% das ferramentas da empresa", afirma. O consultor avalia que o processo de integração cuidadoso ajudou nessa adaptação e que a comunicação com o time flui online, mas que o contato pessoal ajuda a "ler" melhor o ambiente de trabalho.

"Ter uma conversa informal no café ajuda a entender que uma pessoa não está em um bom dia, por exemplo. Mas acho que isso impacta a todos, não só a quem está no processo de integração", afirma.

O consultor interno de RH do Nubank, Raphael Bozza, está em Dubai e começou a trabalhar na empresa no meio da crise
Foto: Arquivo pessoal

O Nubank contratou 155 pessoas desde o dia 12 de março. Na fintech, todos os funcionários já trabalham com notebooks, que puderam ser levados para casa, e o home office já é permitido em algumas áreas. Para quem pediu, a empresa também forneceu cadeiras ergonômicas: cerca de mil foram enviadas – de um universo de 2,7 mil empregados.

O gerente de tecnologia Alexandre Rocco, 39, é outro que começou a trabalhar no banco digital já durante a crise do novo coronavírus. Ele diz que sempre teve curiosidade de conhecer o escritório principal da empresa, em São Paulo, que fica no caminho do seu emprego anterior, mas até agora não teve essa oportunidade.

"Nunca pisei lá na sede", diz. Todo o processo de admissão foi feito virtualmente e os seis profissionais que ele comanda também foram apresentados online. "Em outros lugares em que trabalhei já tinha tido contato remoto com pessoas de times diferentes, mas nunca com subordinados diretos", afirma.

Rocco faz questão de manter o contato por vídeo, e não apenas por texto, com cada um dos funcionários pelo menos uma vez por semana. "Ajuda no tom, você consegue estabelecer uma conversa mais empática, mais legal", diz.

O engenheiro Fernando Zacheu, 26, que começou no dia 1º de abril a trabalhar na área de fusões e aquisições da empresa chilena de educação Vitamina, em São Paulo, também foi admitido remotamente. Ele acha que as reuniões em vídeo são uma solução eficiente, mas diz sentir falta do contato cara a cara para tirar pequenas dúvidas de funcionário iniciante.

"Presencialmente, em 1 minutinho já resolve, mas remoto demanda uma chamada", afirma.

Não é exatamente home office

Trabalhar de casa no meio de uma pandemia não é fazer home office em sua essência, pondera Ricardo Basaglia, diretor-geral das firmas de recrutamento e consultoria Michael Page e Page Personnel.

"O que a gente conheceu aqui não é home office. As pessoas estão trabalhando e, muitas vezes, ao mesmo tempo cuidando dos filhos ou pais. Estão preocupadas com a saúde, não têm convívio social e o trabalho é uma fuga", diz.

Dos ouvidos na pesquisa da Robert Half, 47% disseram estar mais produtivos remotamente e 36% afirmam entregar tanto quanto se estivessem no escritório. Ainda assim, 19% apontaram a presença de familiares em casa como um dificultador para o trabalho.

Para Basaglia, toda crise gera transformação nas empresas, porque quando os recursos ficam limitados, as ineficiências aparecem — e começam a ser eliminadas. E a necessidade de evitar o contato físico por conta do novo coronavírus trouxe à tona não só a possibilidade do trabalho remoto, mas também oportunidades de otimizar processos de recrutamento, admissão e integração.

De maneira forçada, muitos gestores perceberam que o tempo perdido no deslocamento para uma entrevista pode ser evitado, assim como burocracias para entregar documentos e outros problemas simples como reservar uma sala de reunião disputada, por exemplo.

"Acredito que a crise está tirando as companhias do piloto automático. Na minha opinião é um processo irreversível, porque à medida que elas veem vantagens, não voltam atrás", afirma Basaglia.

De acordo com dados da Telework Research Network cedidos pelo Instituto Trabalho Portátil, o trabalho remoto possibilita até 20% de redução nos custos imobiliários e pode diminuir o absenteísmo em até 25%. 

E se depender da vontade dos trabalhadores, algumas mudanças de fato devem acontecer. Mais da metade (54%) das pessoas que aderiram ao home office por conta da pandemia disseram que pedirão aos chefes para continuar trabalhando de casa após a crise, segundo estudo da Fundação Dom Cabral, realizado em parceria com a consultoria Grant Thornton. O levantamento ouviu 705 profissionais de 18 estados e foi divulgado no início deste mês.

Mercado global de talentos

Esse mergulho no mundo virtual deve, inclusive, abrir o leque de possibilidades para as empresas contratarem trabalhadores de lugares distantes de onde elas ficam, até mesmo do exterior.

"Da mesma forma com que aumentam as possibilidades de contratação, também se cria uma competição maior no mercado", diz Basaglia, da Michael Page e Page Personnel.

Foi o que aconteceu no Nubank, que tem dificuldade de encontrar mão de obra qualificada no Brasil para áreas de engenharia e tecnologia. Desde a crise da COVID-19, a fintech admitiu não só o Raphael, lá de Dubai, mas também gente de Hong Kong e dos Estados Unidos.

"Com toda a incerteza ao nosso redor, essa também é uma oportunidade única para alcançar a  comunidade global de talentos", diz Os Fuentes, vice-presidente e líder global para a área de recrutamento do banco digital. "Percebemos cada vez mais interesse de líderes globais em se juntarem à nossa empresa. Continuar contratando neste momento é garantir que estamos olhando tanto para o presente quanto para o futuro do Nubank."