Remdesivir pode ser eficaz para Covid-19, mas comercialização será desafio

Há tanta incerteza sobre a trajetória da Covid-19 que será difícil determinar se o medicamento tem real potencial de negócios a longo prazo para a Gilead.

Clare Duffy do CNN Business, em Nova York
09 de maio de 2020 às 06:35
Amostras do medicamento remdesivir da Gilead Sciences em instalação da empresa na Califórnia
Foto: Gilead Sciences Inc- 11.mar.2020/Reuters

Em questão de semanas, o remdesivir passou de um tratamento arquivado e fracassado para hepatite C para o centro de um esforço nacional para tratar pacientes que sofrem da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, nos Estados Unidos.

A situação colocou a Gilead Sciences, a farmacêutica por trás do medicamento, no centro das atenções. As ações da empresa subiram quase 20% desde o início deste ano, e os investidores começaram a pensar nos possíveis retornos do remdesivir. Ao mesmo tempo, a novidade suscitou perguntas de parlamentares e ativistas sobre se (e quanto) uma empresa poderia lucrar com uma pandemia.

Ainda assim, especialistas alertam que é cedo demais para saber se o remdesivir será um medicamento eficaz para a Covid-19. Mesmo que seja, há tanta incerteza sobre a trajetória da Covid-19 que será difícil determinar se o medicamento tem real potencial de negócios a longo prazo para a Gilead.

O CEO da Gilead, Daniel O'Day, disse durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre da empresa que "é prematuro demais" dizer qual é o modelo de negócios do remdesivir.

“Nosso foco será garantir que apresentemos um modelo sustentável que nos permita fornecer remdesivir aos pacientes em todo o mundo, com a intenção de proporcionar disponibilidade e acessibilidade. Estamos analisando os dados clínicos, os cenários de demanda e as aprovações regulatórias”, explicou.

Especialistas dizem que é importante que a empresa encontre um equilíbrio entre precificar o medicamento de forma acessível e ganhar dinheiro suficiente pelo menos para recuperar o US$ 1 bilhão previstos para o desenvolvimento do remdesivir neste ano. O preço também pode ser importante para incentivar a Gilead e outras empresas farmacêuticas a continuar desenvolvendo tratamentos potencialmente essenciais.

“Eles precisam ter algum tipo de garantia de que recuperarão seus investimentos", opinou o analista da Piper Sandler, Tyler Van Buren.

Atualmente, não há tratamentos ou vacinas para a Covid-19 oficialmente aprovados pela FDA, a agência norte-americana responsável por alimentos e medicamentos. O novo coronavírus já infectou mais de 1,2 milhão de norte-americanos, deixando um rastro de mais de 73.500 mortes no país.

Um tratamento promissor para a Covid-19

No início deste mês, a FDA emitiu uma autorização de uso emergencial para o remdesivir no tratamento de pacientes de Covid-19 hospitalizados em estado grave, depois que um estudo do governo mostrou resultados preliminares positivos com o uso do medicamento. A autorização de uso emergencial é uma etapa regulatória inferior à aprovação total pela FDA.

No final de abril, o doutor Anthony Fauci anunciou que o estudo do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) mostrou que o remdesivir teve um "efeito claro, significativo e positivo na diminuição do tempo de recuperação" do coronavírus.

O estudo mostrou que os pacientes que tomaram remdesivir se recuperaram mais rapidamente do que os pacientes que não tomaram. O medicamento encurtou de 15 para 11 dias o tempo de recuperação dos pacientes com coronavírus e demonstrou uma queda no índice de óbitos, embora o número de casos relatados ainda seja insuficiente para provar que o remdesivir reduz a mortalidade com significância estatística.

A Gilead também anunciou os principais resultados de seu próprio estudo de Fase 3, avaliando o remdesivir administrado a pacientes com coronavírus em estado grave. Esse estudo apontou para o potencial sucesso de apenas um ciclo de tratamento de cinco dias, embora o estudo de Gilead não tenha grupo de controle, limitando as conclusões do experimento.

A Gilead doou seu suprimento atual de 1,5 milhão de doses do medicamento ao governo dos EUA para ser distribuído aos pacientes da Covid-19. O CEO da empresa, Daniel O'Day, revelou que a empresa está aumentando a produção desde janeiro e espera ter suprimento suficiente para tratar mais de um milhão de pacientes até o final do ano.

Nenhuma decisão sobre quanto será cobrado pelo medicamento após o esgotamento do suprimento doado foi tomada até agora.

“Dada a contínua incerteza na trajetória da pandemia e nos dados clínicos do remdesivir, é prematuro definir qual é o modelo de negócios correto para garantir um suprimento sustentável de longo prazo para as necessidades globais", afirmou o CFO Andrew Dickinson, acrescentando que a empresa planeja fornecer uma atualização na demonstração de resultados do segundo trimestre.

De acordo com Steven Seedhouse, analista da Raymond James, o medicamento poderia ser em teoria um "sucesso de público" para a empresa, mesmo que tivesse um preço moderado. Se a empresa atingir o tratamento esperado de um milhão de pacientes da Covid-19 até o final do ano e outro tanto em 2021, mesmo a um preço de várias centenas de dólares por tratamento, a Gilead poderia atingir perto de 1 bilhão de dólares em receita em um período relativamente curto.

No entanto, Seedhouse não acredita que empresa cobrará por esse trabalho. “Acho que seria um suicídio da imagem pública da empresa cobrar por esse medicamento", opinou o analista, especialmente porque, até o momento, nenhum estudo mostrou com rigor estatístico que o remdesivir reduz a mortalidade por Covid-19 – o estudo do NIAID ainda está coletando evidências sobre isso.

Também não está claro quanto tempo durará a demanda pelo medicamento, dada a corrida para o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. Outros analistas adotaram uma posição semelhante.

“A empresa deve ser elogiada por seus esforços em atender tão rapidamente a essa emergência de saúde pública", afirmou Cory Kasimov, analista do JPMorgan, em nota recente. "Mas ainda achamos improvável que isso resulte em fluxos de caixa tangíveis e de longo prazo", completou outro analista da JPMorgan, Cory Kasimov.

Lucro em meio a uma pandemia

Alguns legisladores e ativistas pediram ao Congresso dos EUA que intervenha para garantir que o remdesivir e outros tratamentos e vacinas potenciais da Covid-19 tenham preços acessíveis.

“Para vencer essa pandemia, é claro que precisamos de leis melhores que regulem as empresas farmacêuticas para garantir que todos – não importando de onde venham ou como sejam – possam pagar os tratamentos para a doença", disse Keith Ellison, procurador-geral do estado de Minnesota. “É por isso que estou pedindo ao Congresso que tome medidas rápidas para reprimir a exploração financeira da pandemia".

O grupo de advocacy Lower Drug Prices Now (Menores Preços dos Medicamentos Agora) está colhendo assinaturas para um abaixo-assinado que pede ao Congresso que inclua em um pacote de ajuda ao combate à pandemia "preços justos e razoáveis para todos os medicamentos ou vacinas contra o coronavírus desenvolvidos com fundos dos contribuintes". Especialistas do setor dizem que essa intervenção do Congresso seria incomum.

A Gilead já havia sido alvo de críticas por altos preços de seus medicamentos contra a hepatite C e o HIV .

No entanto, aumentar o custo do remdesivir, se ele for de fato eficaz no tratamento da Covid-19, pode ser profundamente prejudicial à imagem de Gilead, de acordo com Seedhouse. O analista da Raymond James acredita que preservar a reputação da empresa pode acabar sendo mais valioso do que recuperar o bilhão de dólares que ela planeja gastar este ano em desenvolvimento, pesquisa e fabricação no remdesivir.

“Trata-se de uma empresa que, de qualquer modo, gasta bilhões todos os anos em pesquisas e desenvolvimento que não dão certo", contou Seedhouse. “Será que vale mais a pena ser o garoto-propaganda de uma empresa responsável de biofarma que está fazendo a coisa certa? O sentimento e a percepção da empresa importam tanto quanto os lucros por ação (EPS) que eles produzem", acrescentou.

O CFO da Gilead, Dickinson, enfatizou que a empresa deseja manter o remdesivir "acessível e disponível para governos e pacientes em todo o mundo".

Modelos de precificação em potencial

Especialistas dizem que é importante iniciar a conversa sobre um preço justo para o remdesivir agora, antes que os suprimentos doados pela Gilead se esgotem enquanto não sai a aprovação oficial.

O Institute for Economic and Clinical Review (ICER), uma organização independente de pesquisa sem fins lucrativos que analisa e faz recomendações sobre preços justos de medicamentos, divulgou um relatório no início deste mês sobre os possíveis modelos de preços do remdesivir. Estão detalhados ali vários modelos em potencial de precificação, que, de acordo com a organização, serão atualizados à medida que mais dados estiverem disponíveis.

O primeiro modelo, uma abordagem de "recuperação de custos", leva em consideração o custo marginal da produção de doses adicionais de remdesivir e os de pesquisa e desenvolvimento aplicados pela empresa. A análise inicial define os custos de pesquisa e desenvolvimento da empresa em zero, porque o medicamento foi desenvolvido como tratamento contra a hepatite C, antes da pandemia de coronavírus.

Esse modelo estabelece o preço de um tratamento de dez dias de remdesivir para um paciente de Covid-19 em US$ 10.

O segundo utiliza uma análise baseada em "ano de vida ajustado pela qualidade" obtida pelo medicamento, um modelo frequentemente usado para determinar o preço de um medicamento que considera quanto ele pode prolongar e melhorar a qualidade de vida de uma pessoa.

Tal modelo sugere que o remdesivir seja precificado a partir de US$ 390 por dez dias de tratamento, se não apresentar benefícios de redução da mortalidade, e em US$ 4.460 por curso de tratamento se reduzir a mortalidade.

Segundo Van Buren, analista da Piper Sandler, mesmo esse preço mais alto (quase US$ 4.500, por dez dias de tratamento) é bastante acessível comparado a outros tipos semelhantes de medicamentos de intervenção de emergência que reduzem a mortalidade. Trata-se de "um dos preços mais razoáveis para uma droga com benefícios na mortalidade".

Na maioria das vezes, esse valor também não seria pago pelos pacientes, mas pelas seguradoras ou programas de seguro do governo.

O estudo do ICER não tem como objetivo estabelecer preços exatos para o remdesivir, uma decisão que dependerá da Gilead, como afirmou David Whitrap, vice-presidente de comunicações e divulgação do ICER.

“O que esperamos é iniciar uma conversa", disse Whitrap. “Acreditamos que, antes que haja um preço para este tratamento, é a hora de os EUA e a indústria farmacêutica pensarem em como queremos incentivar e recompensar esse tipo de terapia, ou qualquer tipo de terapia para a Covid-19, de forma a acelerar o desenvolvimento de medicamentos e também a disponibilidade e acessibilidade para os pacientes".