Ibovespa fecha em queda de 1,8% após demissão de Teich do Ministério da Saúde

Logo após início do pregão, índice passou a se recuperar; investidores mantém indicadores do dia no radar

Do CNN Business*
15 de maio de 2020 às 10:25 | Atualizado 15 de maio de 2020 às 18:12
Funcionário caminha pelos corredores da B3
Foto: Leonardo Benassatto/Reuters

A bolsa brasileira, B3, fechou em queda nesta sexta-feira (15), após oscilar mais cedo, com investidores de olho na turbulência política e em uma bateria de resultados corporativos. Durante toda a semana, os mercados estiveram voláteis por desdobramentos relacionados à pandemia do novo coronavírus.

O pedido de demissão de Nelson Teich do cargo de ministro da Saúde, menos de um mês após assumir o cargo no lugar de Luiz Henrique Mandetta, adicionou ainda mais volatilidade ao mercado.

O Ibovespa, principal índice da B3, encerrou o pregão em baixa de 1,84%, a 77.556 pontos. 

Para a economista Zeina Latif, a saída de Teich evidenciou que existe um problema de gestão na Saúde. E, se o governo não tiver uma estratégia bem-definida para essa área, será impossível que o Brasil relaxe o isolamento de maneira segura para que a atividade econômica retorne.

“A saída do ministro é só a ponta do iceberg, pois sem clareza na gestão fica difícil até discutir os impactos econômicos”, diz.

Já André Perfeito, economista-chefe da Necton, avaliou que a demissão abre uma nova frente na crise política atual.

“E uma crise que chega no momento mais agudo da pandemia, sem um presidente para cuidar disso. É muito sério o que aconteceu."

O mercado reagiu ainda ao prejuízo comunicado na véspera pela Petrobras e à queda do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do primeiro trimestre, divulgado pelo Banco Central (BC) nesta manhã. 

Diante de uma baixa contábil causada pela revisão das premissas de longo prazo para o petróleo Brent, a Petrobras registrou um prejuízo líquido de R$ 48,5 bilhões no primeiro trimestre.

O IBC-Br, considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), despencou 5,9% em março contra o mês anterior. Na série com ajuste sazonal, que compensa períodos diferentes, o valor é o menor para o mês desde 2009. Em relação a março de 2019, a queda foi de 1,52%.

"Evidentemente, o indicador reflete a primeira parte da retração da economia em consequência das medidas de isolamento social implementadas desde meados de março. Esperamos continuidade do movimento na próxima leitura", afirmou Felipe Sichel, estrategista-chefe do Modalmais.

Guerra comercial entre EUA e China

No cenário internacional, o governo Trump avançou nesta sexta-feira no bloqueio de envios de semicondutores de fabricantes de chips globais para a chinesa Huawei.

"A extensão do banimento da empresa chinesa de telecomunicações Huawei de operar nos EUA até 2021 adicionou sentimento de aversão a risco no mercado americano", destacou a equipe da Elite Investimentos, em relatório a clientes.

Lá fora

No exterior, o dia foi de valorização para os preços do petróleo.

As ações europeias também encerraram, mas registraram as piores perdas semanais desde meados de março, com o aumento das tensões entre Estados Unidos e China e as preocupações de que uma desaceleração econômica global possa durar mais do que se temia.

O índice pan-europeu STOXX 600 terminou com alta de 0,5%, com as mineradoras valorizando-se depois que dados mostraram que a produção industrial chinesa avançou mais do que o esperado em abril.

Em Wall Street, os três principais índices fecharam em alta após oscilarem entre ganhos e perdas, com  investidores preocupados com as relações comerciais entre EUA e China e com dados econômicos mais fracos do que o esperado no país. 

As vendas no varejo e a produção industrial dos EUA mostraram quedas recordes em abril devido às orientações de isolamento social por causa do vírus.

O índice Dow Jones subiu 0,25%, enquanto o S&P 500 ganhou 0,39%, a 2.864 pontos. Já o índice de tecnologia Nasdaq avançou 0,79%. No entanto, na semana o S&P 500 caiu 2,3%, a maior queda semanal desde a semana finda em 20 de março. O Dow cedeu 2,7%, enquanto o Nasdaq recuou 1,2% -- maiores quedas semanais desde a semana encerrada em 3 de abril.

Na China, os mercados acionários fecharam em queda, apesar da divulgação da notícia de que a produção industrial  cresceu 3,9% em abril em relação ao ano anterior, registrando o primeiro aumento do indicador em 2020.

O índice que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, recuou 0,32%, caindo 1,3% na comparação semanal, enquanto o índice de Xangai teve queda de 0,07%, com perda de 0,9% na semana.

Destaques da B3

Petrobras PN teve baixa de 1,44%, depois de ter chegado a subir 4,5% no começo da sessão, após reportar prejuízo histórico. Porém, analistas destacaram o bom desempenho operacional da companhia e a geração de caixa. Petrobras ON teve variação positiva de 0,06%. A companhia disse que já observa recuperação das vendas de gasolina e diesel no Brasil em maio, e que pode cortar mais custos.

Cyrela ON caiu 7,19%, após divulgar lucro líquido de 28 milhões de reais no primeiro trimestre, queda ante os 48 milhões de reais no mesmo período de 2019. Executivos da empresa disseram que a geração de caixa deve diminuir, embora ainda seguir positiva, e que só pagará dividendo mínimo obrigatório este ano.

Suzano ON recuou 5,28%, em meio ao prejuízo líquido de R$ 13,4 bilhões no primeiro trimestre, afetado pelo forte impacto da valorização do dólar na dívida em moeda estrangeira. O Ebitda ajustado, contudo, subiu 10%. Executivos da companhia afirmaram ver motivos estruturais para elevar preços de celulose nos EUA e Europa no fim deste trimestre, mas que a demanda por papel de imprimir e escrever segue em queda.

JBS ON perdeu 4,58%, após apresentar prejuízo de R$ 5,9 bilhões no primeiro trimestre, uma vez que a forte valorização do dólar atingiu em cheio a linha financeira da companhia, ofuscando o aumento da receita. Em teleconferência com analistas, a empresa disse que a demanda nos EUA, sua principal geradora de receita, está muito forte, com regiões reduzindo medidas de isolamento social.

CSN ON cedeu 6,08%, após prejuízo líquido de R$ 1,3 bilhão no primeiro trimestre, resultado que mostrou quedas nas vendas de aço e minério de ferro impactadas pelos efeitos da pandemia de coronavírus e chuvas do início do ano. A alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda subiu para 4,78 vezes. No setor de mineração e siderurgia, Vale ON perdeu 0,08%.

B3 ON valorizou-se 4,55%, com a volatilidade do mercado financeiro devido à crise do coronavírus turbinando as receitas do primeiro trimestre da companhia, que reafirmou meta de pagar até 150% do lucro aos acionistas em 2020.

Localiza ON subiu 3,11%, um dia após reportar aumento no lucro líquido do primeiro trimestre, para de 231 milhões de reais, desempenho que não registrou impacto completo do fechamento de lojas e restrições à circulação geradas pela epidemia de Covid-19 no final de março. Em teleconferência, a empresa disse que não deve fazer baixas contábeis para eventual aumento da depreciação de seus ativos.

Fleury ON fechou em baixa de 3,26%. A rede de clínicas de medicina diagnóstica teve queda no lucro do primeiro trimestre, acusando os primeiros efeitos do coronavírus.

Sabesp ON declinou 5,83%, após prejuízo líquido de 657,9 milhões de reais no primeiro trimestre, ante lucro de 647 milhões um ano antes, com aumento de despesas financeiras decorrente da valorização do dólar e aumento de provisões em meio à pandemia do Covid-19. Também no radar está o início das discussões de revisão tarifária.

Itaú Unibanco PN teve variação negativa de 4,08% e Bradesco PN caiu 4,31%, enquanto agentes financeiros continuam monitorando potenciais medidas contra o Covid-19 com efeitos potencialmente nocivos ao sistema financeiro. Banco do Brasil ON recuou 1,88%.

*Com informações da Reuters