Small caps caíram mais que o Ibovespa, mas podem se recuperar mais rápido

Para especialistas, momento exige atenção para investir tanto nas ações de empresas grandes quanto pequenas

Juliana Elias do CNN Business, em São Paulo
19 de maio de 2020 às 17:45

Foto: Jason Briscoe/Unplash

Depois de serem as estrelas de 2019, as chamadas “small caps” estão sofrendo neste ano em meio à crise deflagrada nos mercados pela explosão do novo coronavírus. Com a alta volatilidade e um horizonte borrado de incertezas, ainda vale apostar nessas empresas que, nas épocas de bonança, podem dar ótimos retornos?

“Small caps” é a expressão abreviada em inglês para as empresas de pequena capitalização: é o grupo que reúne as companhias de médio e pequeno porte da bolsa de valores, com valor de mercado menor do que o das “blue chips”, apelido das gigantes como Petrobras, Vale ou Itaú.

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Como as small caps têm negócios a princípio menos consolidados que o das grandes, elas têm também enorme potencial de crescimento, e é por isso que muita gente gosta delas. Foi o que aconteceu em 2019: o Ibovespa (IBOV), índice da B3 formado pelas 70 maiores companhias da bolsa de valores, subiu 31,6%. Já o índice que reúne as small caps (SMLL) saltou quase o dobro disso, 58,2%.

Em 2020, o jogo em parte se inverteu: o Ibovespa acumula queda de 32,9%, enquanto o Small Caps cai 41,23%, considerada a variação desde o início do ano até o fechamento da última semana (15 de maio).

Entre as empresas que compõem o índice de small caps da B3 estão grandes nomes, como a siderúrgica CSN, a fabricante de aeronaves Embraer, o frigorífico Marfrig e a varejista Via Varejo, e outros menos conhecidos, alguns exemplos são a empresa de logística JSL, a de engenharia Mills, a de tecnologia Valid e a seguradora Wiz.

Não há um recorte específico de preço, mas o valor de mercado do grosso delas costuma variar de R$ 300 milhões a R$ 2 bilhões de reais. A Via Varejo, a maior das menores, chegou a R$ 21 bilhões antes da crise. Para se ter uma ideia, a Petrobras, maior de todas, vale cerca de R$ 200 bilhões e batia os R$ 400 bilhões no ano passado. A lista completa das empresas que compõem o índice Small Caps pode ser vista no site da B3.

Em outras crises, small caps se recuperaram mais rápido 

As ações das empresas menores estão ligadas a negócios muitas vezes ainda em consolidação, além de terem menor procura e receberem um volume menor de dinheiro em negociações ao longo do dia. Essa baixa liquidez afasta de muitas delas os grandes investidores, que precisam movimentar valores altos em suas compras e vendas. Isso faz também com que as small caps tendam a ser mais voláteis, quer dizer, elas podem ter variações bruscas e tanto subir quanto cair com mais força do que as grandonas.

Todos esses fatores impõem cuidados extras na hora de escolher empresas de baixa capitalização para a carteira. Muitos analistas, entretanto, dizem que a regra é genérica e pode variar muito entre as ações. “Há muitos mitos que não são verdade sobre as small caps”, defende Werner Roger, sócio e gestor da Trígono Capital, que possui fundos especializados nas companhias de menor porte. 

Um levantamento feito pela Trígono mostrou que o índice Small Caps da bolsa brasileira não só deu historicamente retornos maiores do que o Ibovespa, como também foi menos volátil e se recuperou mais rápido das principais crises do passado. “É o contrário do que diz a teoria: as small caps deram mais retorno e com menor risco”, diz Roger.

Desde 2008 até aqui, aponta Roger, o Small Caps acumula uma alta de 87%, contra 19% do Ibovespa. Já a volatilidade média do primeiro, nesse mesmo período, foi de 25%, enquanto do Ibovespa foi 29%. A volatilidade é uma maneira de medir a instabilidade e imprevisibilidade de um ativo, e é a principal medida de risco usada no mercado – quanto maior a volatilidade, maior o risco.

O grupo das menores também se levantou de crises anteriores mais rápido do que as maiores: os números da Trígono mostram que, depois de a bolsa afundar na crise de 2008, o Small Caps levou 381 pregões para retomar o pico perdido, de abril de 2008. Já o Ibovespa levou 614 pregões para conseguir o mesmo. 

Em outro ciclo de queda em meio à crise internacional, iniciado em abril de 2010, o Small Caps voltou ao patamar inicial depois de 49 pregões, contra 122 para o Ibovespa. No “Joesley Day” – quando denúncias contra o então presidente Michel Temer derretaram a bolsa de valores em maio de 2018 –, o Small Caps estava de volta em 43 sessões, o que, para o Ibovespa, levou 58.

Vale investir nelas agora?

O entendimento dos especialistas é que a crise aberta pela pandemia colocou todas as empresas em atenção – pequenas e grandes. Isso significa que é necessário compreender bem seus riscos e forças, e mais vale se atentar às particularidades e fundamentos de cada uma do que às categorias ou setores em que se encaixam.   

“Algumas ‘large caps’ podem também trazer prejuízos ao investidor, e a menor liquidez das small caps não quer dizer que sejam ações de segunda linha no que diz respeito a seus resultados ou à qualidade de sua gestão”, disse Alexandre Marques Filho, analista da Elite Investimentos. 

“A melhor opção para o investidor agora é analisar os dados da empresa em que ele deseja investir, seja small cap ou blue chip, verificar quais estão sendo as consequências da Covid-19 em seus negócios, sua capacidade de se manter perene em um ambiente de negócios tão hostil e como sua administração está lidando com tudo isso. E ao realizar seus investimentos, ter parcimônia, diversificando os ativos”, continuou.

O banco ABC Brasil, a construtora Eztec, a companhia de transmissão de energia Taesa, a locadora de automóveis Unidas e a Via Varejo são as principais indicações atuais em small caps da Elite Investimentos, de acordo com as carteiras recomendadas da corretora para maio. 

Roger, da Trígono, diz que é um bom momento para acrescentar small caps no portfolio, mas “desde que com a ressalva de ter em vista um prazo maior, de dois a três anos no mínimo”. “Não adianta ter um horizonte de curto prazo e achar que daqui a 3 meses vai ter lucros. O mercado está em queda e isso ainda não acabou”, diz.

A aposta da Trígono é em empresas exportadoras, com parte significativa da receita em dólar e também com baixo endividamento, em especial na moeda estrangeira – “não adianta receber em dólar se vai pagar em dólar também”, de acordo com Roger. São negócios que têm a ganhar com a alta de mais de 40% que a moeda já acumulou neste ano ante o real. 

Entre as exportadoras "small", Roger menciona a catarinense Tupy, que fabrica equipamentos em ferro e peças automotivas, e a metalúrgica baiana Ferbasa, especializada em ferroligas. Ambas são nomes fortes de seu nicho, têm atualmente baixo endividamento e exportam a maior parte de sua produção. 

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