Aluguel de carros cai e Movida aposta em vendas de automóveis pela internet


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
29 de maio de 2020 às 07:35

Sem viagens e com a circulação de pessoas reduzida, o mercado de aluguel de veículos é outro que vem sofrendo durante a pandemia. Prova disso é que, na última sexta-feira (22), a gigante do setor Hertz pediu proteção contra falência nos Estados Unidos. Por aqui, também houve queda na demanda e no faturamento.

No momento mais agudo da crise, as ações das três gigantes do setor, Localiza, Movida e Unidas, chegaram a cair 60% entre o final de fevereiro e meados de março. Agora começam a se reerguer mas ainda estão longe dos números pré-crise. Apesar disso, Renato Franklin, CEO da Movida, garante em entrevista ao CNN Brasil Business que o mercado local se comporta de maneira diferente.

“Aqui as empresas da área possuem um portfólio mais completo. É certo que houve queda nas viagens e no aluguel corporativo nos aeroportos, mas também tocamos aluguel mensal e planos de assinatura, enquanto que em outros países isso é comandado por bancos e corretoras”, explica. Segundo dados preliminares de abril divulgados pela companhia, houve 26,4% de queda no número de aluguel de veículos em comparação com o primeiro trimestre de 2020.

O setor de gestão de frotas, por outro lado, caiu menos, a 2,5%, enquanto a venda de veículos seminovos, outra área importante de receita para as empresas, reduziu 25,7%. Apesar disso, Franklin acredita que isso adiantou uma transformação digital na Movida. “Era algo para o futuro que conseguimos colocar no ar no final de março e deu ótimos resultados em abril. Já vendemos 3,5 mil carros em jornada 100% digital, entregando na casa do cliente”, argumenta.

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Para os motoristas de aplicativo, que utilizam planos de assinatura e ensaiaram um movimento de devolução de carros em massa, a Movida criou planos em que os clientes só pagam o que utilizarem.

“Para esse segmento, pensamos em modalidades pay-per-use, ou seja, o motorista só paga a quilometragem que usar. Se o carro ficar parado na garagem, paga uma taxa bem pequena”, explica. Locadoras de menor porte chegam a cobrar R$ 10 por semana, com limite de utilização de 50 quilômetros.

Apontando para o futuro, Franklin vê a companhia com governança sólida para suportar a crise e enxerga nichos de atuação para atuar durante o período.

“Somos a empresa menos alavancada do setor, com caixa de mais de R$ 1 bilhão. Fizemos um lançamento de caixa conservador em abril porque imaginamos que vamos ter queda na rentabilidade no curto prazo”, diz. “As viagens, quando voltarem, vão ser primeiro de curta distância e carro. E, como, somente 3% das pessoas habilitadas no Brasil já alugaram carro, o mercado tem muito para crescer.”

Resultados do primeiro trimestre

A Movida teve, no primeiro trimestre de 2020, receita líquida de R$ 1 bilhão, uma alta de 19,6% em comparação aos resultados do mesmo período do ano passado. A alta foi acima da média das suas duas principais concorrentes, Localiza e Unidas. Esses números, no entanto, mascaram uma realidade que a empresa e todo o setor estão enfrentando desde meados de março.

Prova disso é a parcial que a companhia comandada por Franklin soltou no mês de abril. Apesar de serem números ainda não auditados, a companhia viu uma redução de 35% no setor de serviços (que contempla tanto o aluguel de carros quanto a terceirização de frotas) e 27% na venda de seminovas.

Outros números da concorrência também chamam a atenção dos investidores. A Localiza passou de uma taxa de utilização de 78,2% dos seus carros disponíveis para aluguel para 53%, ou seja, quase metade dos carros ficaram parados. Resultado parecido ao da Unidas, que viu a taxa cair de 76,8% para 55,9%.

Analista de investimento da Mirae Asset, Pedro Galdi considera que o setor pode demorar um pouco mais para observar uma retomada, já que parte dos seus negócios estão atrelados ao setor aéreo. Apesar disso, considera ser uma boa aposta para o longo prazo. "O setor funciona com duas torneiras. Quando o aluguel não está bom, a venda de seminovos ajuda", diz.

"Também poderemos observar, depois da pandemia, uma mudança no perfil de consumo. Não sabemos se as pessoas vão continuar comprando carro. Transporte público também é arriscado. A partir disso, o aluguel de carros pode se tornar uma opção", completa.

Relatórios de bancos veem a Movida em boa posição para superar a pandemia por conta do crescimento na venda de veículos online e o caixa confortável de R$ 1,1 bilhão.

O mercado, no entanto, não está dos mais amigáveis. Nos Estados Unidos, por exemplo, a locadora Hertz, uma das gigantes do segmento, já pediu proteção contra falência. O risco, portanto, continua sendo o tempo que a pandemia do novo coronavírus continuará afetando o setor – e o bolso dos seus consumidores. 

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