Mundo vive ‘anestesia monetária’, diz gestor de fundos

Analogia de especialista compara cenário em que o dinheiro disponível para os mercados deixassem investidores 'paralisados' frente ao horror da pandemia

Thais Herédia
Por Thais Herédia, CNN  
08 de junho de 2020 às 19:40 | Atualizado 08 de junho de 2020 às 23:19

Se você olhar só para o que está acontecendo no mercado financeiro no mundo todo vai achar que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus já acabou. As bolsas de valores nos Estados Unidos praticamente zeraram as perdas, a moeda americana derrete diante dos emergentes e a empolgação com a reabertura da atividade econômica nos países desenvolvidos só aumenta. 

O Brasil pega carona na corrida dos investidores e vai recuperando as perdas agonizantes registradas assim que a pandemia desligou a economia por aqui. A bolsa de valores, B3, teve um sétimo pregão seguido de alta e já sobe mais de 11% em junho – mas continua perdendo 15,5% no ano. O dólar começou a despencar há uma semana e nesta segunda voltou ao patamar de antes do primeiro sinal de pânico do coronavírus, cotado a R$ 4,85 – mas segue sendo a moeda com pior desempenho entre seus pares no ano. 

“Isso não tem nada a ver com Brasil, com percepção de que o pandemia acabou ou de que a crise econômica foi vencida. O mundo vive em uma anestesia monetária, ou um momento GG – Gasto e Grana. Grana com a absoluta expansão monetária dos Bancos Centrais que baixam os juros ou emitem moeda. Gastos fiscais nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial, que vão elevar o déficit público dos Estados Unidos a 25% do PIB. Essas duas coisas elevam os níveis de preço dos ativos financeiros”, disse à coluna um dos gestores mais respeitados do mercado nacional, que pediu anonimato. 

A analogia com a anestesia encaixa diante do cenário de centenas de milhares de mortos, vitimas da Covid-19, e milhões de infectados pelo coronavírus no planeta. É como se a quantidade de dinheiro disponível para os mercados deixassem investidores anestesiados diante do horror da pandemia. É uma ação pragmática, baseada exclusivamente na tentativa de recuperar perdas trilionárias desde o início do ano e na capacidade dos negócios sobreviverem à pandemia. 

“Muita gente não acreditava que isso iria acontecer. Olhando para os riscos, os preços dos ativos deveriam ser outros. Aquela preocupação com a quantidade de moeda emitida, de gastos fiscais, de que isso poderia provocar inflação não mudou, o que mudou foi o perfil dessa inflação. Não estamos vendo alta nos preços de bens e sim, uma inflação de ativos financeiros, provocada pela excessiva oferta de capital no mundo”, afirma o economista em conversa com o CNN Brasi Business

Se ainda há riscos, como mensurá-los? 

No caso do Brasil, não há um plano unificado entre os entes federativos ou mesmo entre o setor público e o privado. A reabertura da economia está começando antes que esteja claro que o número de casos fatais da Covid-19 tenha recuado, ou que a força do contágio tenha diminuído. Em muitos estados melhorou a condição de atendimento nos hospitais, agora mais equipados com material recém chegado.
 
Ao mesmo tempo, as projeções para a queda do PIB este ano seguem piorando. No relatório Focus produzido pelo BC, a média dos analistas de mercado financeiro indica uma recessão de 6,48% em 2020. O Banco Mundial, em seu relatório global, também reduziu sua expectativa para economia brasileira, prevendo agora um PIB negativo de 8% este ano. 

A organização internacional chama de “recessão global severa” o impacto provocado pela pandemia, com milhões de pessoas sendo empurradas à pobreza extrema e uma alta violenta do desemprego. Ainda que alguns países consigam a chamada recuperação em V, ou seja, com a atividade econômica voltando rapidamente ao patamar pré-crise, a realidade vai se impor à estatística. 

“O risco de depressão está sendo minorado pelos mercados porque está parecendo que o custo desta expansão de gastos e emissão de moeda para os países centrais será  absorvido. Isso quer dizer que muitos investidores entendem que é possível que os EUA consigam administrar este déficit de 25% sobre o PIB e possam lidar com a crise econômica com mais segurança”, explica o gestor que falou com a coluna. 

E o Brasil? O que leva os investidores a essa euforia toda? 

“O Brasil que está virando um paria do mundo. A realidade vai se impor aqui. Está todo mundo anestesiado por essa quantidade de dinheiro no mundo. De alguma forma, a gente conseguiu minorar alguns dos efeitos da pandemia no mercado. Só depois vamos olhar e saber se poderíamos ter ido tão longe ou não. Muita gente diz também que o mercado está dando aval ao Jair Bolsonaro. Isto é coisa de torcedor, não de investidor. Aval com uma das piores bolsas de valores do mundo? Com a moeda com pior desempenho no mundo? Acho que não”, disse.