S&P 500 devolve as perdas de 2020 – mas volta a despencar após anúncio do Fed


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
12 de junho de 2020 às 12:02
NYSE

Telão mostra números da Bolsa de Nova York no dia 20 de março (20.mar.2020)

Foto: Lucas Jackson/File Photo/Reuters

78 dias. Este foi o tempo que o S&P 500, índice que engloba as 500 empresas mais importantes da NYSE e da NASDAQ, levou para zerar suas perdas no ano. No dia 23 de março, pico da crise impulsionada pela pandemia do novo coronavírus no mercado financeiro americano, a desvalorização do referencial ultrapassava os 30%; pouco mais de dois meses depois, no dia 8 de junho, já havia voltado à neutralidade. 

Melhor ainda respondeu o NASDAQ Composite, que acumulava ganhos de quase 12% no ano e foi responsável por grande parte desse “rali” do S&P. Isso porque o índice engloba as maiores empresas de tecnologia do país, incluindo o quinteto FAANG, composto por Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google, gigantes que viram suas ações e valor de mercado explodirem durante o período.

O problema é que há um descolamento considerável entre a economia real e o mercado financeiro. William Alves, estrategista-chefe da Avenue, corretora brasileira que atua no mercado americano, explica que a bolsa não anda necessariamente junto com a economia real e por isso pode haver um exagero nas atuais cotações. “O mercado financeiro antecipa exageradamente, pra cima e pra baixo, como a economia real vai se comportar”, explica.

O anúncio do Fed da última quarta-feira (10), reiterando a gravidade da crise e afirmando seu compromisso de manter os juros próximos a zero, serviu como uma chamada de atenção. “A bolsa ainda subiu um pouco depois do anúncio, mas agora está voltando. O mercado começa a assimilar que os resultados da economia são piores do que esperado e, se já subimos 40%, onde vamos agora?”, resume Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos.

Prova disso é que Wall Street respondeu, na quinta-feira (11), entregando as maiores perdas do mercado desde o dia 16 de março. Todos os 11 principais setores do S&P 500 caíram pelo menos 4%. Mais afetados, os setores de energia e financeiro sofreram as maiores quedas percentuais, caindo 9,5% e 8,2%, respectivamente.

"O discurso do Jerome Powell, do Fed, foi um choque de realidade sobre o real estado da economia", aponta Henrique Esteter, analista de investimentos da Guide. "Também cresceu o temor sobre uma possível segunda onda de infecções, parte disso por conta dos protestos desencadeados pela morte de George Floyd."

A verdade é que ainda cedo para dizer o limite dessa desvalorização, mas o movimento de correção afetou bolsas ao redor do mundo. Bolsas europeias tombaram na quinta mas já se recuperavam na sexta, seguindo o roteiro do mercado americano. O Brasil, que teve feriado na quinta, pode ter se safado de parte dos prejuízos. 

Empresas responsáveis pelo rali

A pedido do CNN Brasil Business, a Avenue Securities levantou as ações que mais cresceram no S&P 500 em 2020 (dados gerais e só entre as companhias com valor de mercado superior a US$ 200 bilhões). Em destaque, além das empresas de tecnologia, aparecem também companhias dos setores de saúde, varejo, financeiro e de telecomunicações. Confira abaixo:

Alguns fatores ajudam a explicar o movimento que impressionou investidores e instituições nos últimos dias, a começar pelo sentimento do próprio mercado. “Quando a curva de contágio do coronavírus começou a estabilizar e as pessoas entenderam que a crise não duraria para sempre, o S&P já começou a se recuperar”, explica Alves. 

Também acelerou o processo de recuperação do mercado a natureza da economia americana. “Enquanto a economia chinesa é voltada para a geração de emprego e a europeia para o bem estar social, a americana é orientada pelo lucro”, argumenta Alves. “Muita gente utilizou, inclusive, o auxílio emergencial que recebeu do governo para investir na bolsa.”

Do ponto de vista estatal, a rápida atuação do Fed, o BC americano, deu segurança para os investidores. “O Fed agiu rapidamente e de maneira fortíssima. Injetou muita liquidez no mercado e baixou a taxa de juros”, explica Cantreva. “Eles já tinham uma estratégia pronta, a mesma que foi utilizada com sucesso na crise de 2009. Só precisaram replicar.”

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Entre os líderes gerais, destaque para a Carrier, produtora de sistemas de ar condicionado, que subiu 103,8% no período; DexCom, empresa que desenvolve sistemas de monitoramento de glicose para o gerenciamento de diabetes, que obteve ganhos de 68,5% em 2020; e a Regeneron, companhia de biotecnologia que vem pesquisando possíveis curas para o novo coronavírus, que avançou 60,8%.

Há ainda “rostinhos conhecidos” da população brasileira na lista. Em sua grande maioria, empresas com foco em produtos e serviços e presença digital massiva. A gigante de pagamentos PayPal, que se valorizou 44,3%; O eBay, do setor de e-commerce, que teve valorização de 34,92% no ano; e a queridinha dos serviços de streaming, Netflix, que escalou 29,64% em 2020.

Quando o escopo muda para as Mega Caps, empresas com valor de mercado acima de US$ 200 bilhões, aparecem as FAANG e outras gigantes (veja abaixo). Aqui, especialistas entendem que pode haver certo exagero. “Amazon, Apple e Microsoft estão avaliadas em pelo menos US$ 1,3 trilhão cada. Acredito que se valorizaram demais, passou do ponto. É preciso ver o que vão conseguir entregar no longo prazo”, diz Cantreva.

“Apesar do número alto, são empresas muito estruturadas. A Microsoft, por exemplo, tem mais de US$ 100 bilhões de caixa”, pondera Alves sobre a procura exacerbada de papéis dessas empresas. “Enquanto a Hertz declarou falência e outras empresas pedem socorro para o governo, as FAANG podem ficar um ano fechadas que vão conseguir manter suas operações.”

Empresas Campeãs

Ao final da crise, algumas empresas devem despontar como “campeãs”, ou seja, se valorizam, ganham mídia e passam a ocupar fatia relevante do mercado. Muitos destes esforços estão concentrados, é claro, na área de saúde. E saúde, neste caso, lê-se empresas de biotecnologia e farmacêuticas que estão pesquisando curas para o novo coronavírus. Moderna, Novavax, Regeneron e até a gigante Pfizer estão no paréo. 

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Já no setor automotivo, a Nikola, empresa que fabrica caminhões elétricos movidos a células de combustível de hidrogênio e bateria, acabou de abrir seu capital e viu suas ações mais que dobrando nos últimos dias. Alves, da Avenue, prega cuidado. “Há exageros que acabam sendo corrigidos. A Nikola, chegando agora no mercado, já vale mais que a Ford e Fiat”, explica.

Para ele, os investidores buscaram inicialmente os ativos mais seguros (dólar, ouro); no auge da crise, partiram para empresas consolidadas (FAANG); quando a crise de saúde começou a passar, assumiram mais riscos (aviação, hotelaria, shoppings); e agora, com medo de ter ficado “fora da festa”, correm o risco de comprar papéis ruins (valorização gigantesca Hertz após pedido de falência).

Cantreva corrobora, mas diz esperar uma segunda leva de valorizações, dessa vez por parte das small caps das bolsas americanas. “O IJR, um ETF de small caps, está se desvalorizando mais de 11% no ano. Como elas ainda não tiveram o ressurgimento das grandes empresas, podem ser uma boa opção no longo prazo.”

*Com Reuters

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