Veja os 10 fundos previdenciários que menos (e mais) renderam nos últimos anos


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
19 de junho de 2020 às 07:54 | Atualizado 19 de junho de 2020 às 12:36
Agência do INSS em Biritiba Mirim (SP)

Agência do INSS em Biritiba Mirim (SP). Taxas de administração pressionam rendimento de fundos 

Foto: Divulgação INSS - 9.set.2017

O cenário de juro básico na mínima histórica de 2,25%, aliado a taxas de administração elevadas têm causado um efeito perverso na rentabilidade de fundos previdenciários. Isso ocorre porque diversos operadores cobram valores similares ao atual patamar da taxa Selic, o que "corrói" a rentabilidade desses investimentos, sobretudo os de renda fixa. Na prática, o retorno, mesmo mais seguro, pode ser até menor do que o de investimentos considerados mais clássicos. 

Com a reforma da Previdência, aprovada no ano passado, houve um aumento das opções desses produtos. Afinal, quem pretendia se aposentar mais cedo, precisou mudar de planos. A questão, no entanto, é que nem sempre as opções oferecidas pelas instituições financeiras são as mais estratégicas.

Segundo levantamento da Magnetis, compartilhado com exclusividade com o CNN Brasil Business, há dez fundos de Previdência que consistentemente renderam abaixo do Certificado de Deposito Interbancário (CDI) – um parâmetro que indica boa ou má performance. 

"Se os fundos em questão não superam o CDI, não fazem nem o básico", diz Daniel Jannuzzi, economista da Magnetis. "Neste caso, a taxa de administração, ou valor pago ao cotista para fazer a gestão, é um detratator à rentabilidade. Muitos deles são antigos, com taxas do tempo em que a Selic estava a dois dígitos, o que não condiz com os tempos atuais", justifica. 

E nem os grandes bancos escapam. No ranking dos menos rentáveis da Magnetis, seis são do Bradesco, dois da BrasilPrev, um do Itaú e um do Santander. Juntos somam R$ 34 bilhões de patrimônio líquido, com taxas de administração oscilam entre 0,65% e 2% ao ano, com 1% de mediana, e 1,3% de média.

Na avaliação da fintech foram considerados fundos de renda fixa com patrimônio acima de R$ 1 bilhão, mínimo de 1080 dias de histórico e Programa Gerador de Benefício Livre (PGBL) e Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). Ambos são planos que, após um período de acumulação de recursos, proporcionam uma renda mensal (podendo ser vitatícia ou não) ou através de pagamento único. O primeiro tem característica de seguro de pessoa (como seguro de vida), enquanto o segundo é um plano de previdência complementar.

Na frente oposta, dos fundos de grandes bancos que tiveram os melhores rendimentos, sete são do BrasilPrev, e outros três são do Bradesco, Santander e Itaú, um de cada. Esta seleção, por sua vez, representa R$ 70 bilhões de patrimônio líquido, taxas de administração que oscila entre 0,70% e 2,40% ao ano, com mediana de 1,10%, e média de 1,19%.

Os fundos que ficaram no topo seguem uma estratégia de índice de preços (o IMA-B, que acompanha títulos atrelados à inflação, por exemplo), e alguns são exclusivos para segmentos de maior renda.

Na avaliação da Magnetis, apesar de terem rendimentos maiores, esses fundos seguem estratégias passivas, ou seja, sem uma gestão tão pró-ativa de seus gestores, e condicionada à variação de índices de preços.

Além disso, reforça a cobrança de taxas de administração relativamente altas. “Os bancos não têm muitos incentivos para reduzir essas taxas, que são parte relevante para acúmulo de capital”, acrescenta Jannuzzi.

Na esteira da crise do novo coronavírus, a captação líquida da indústria de fundos previdenciários ficou em R$ 4,6 bilhões entre janeiro e abril deste ano – contra R$ 11,6 bilhões em 2019 e R$ 13,7 bilhões em 2018. Por outro lado, o número de participantes da modalidade permanece estável há anos: 13,3 milhões de pessoas ou 6% da população. Diante desse cenário – e a fim de engajar consumidores – agentes do mercado buscam estimular novos investimentos, como mostrou reportagem do CNN Brasil Business.  

Planejamento é a chave 

A escolha de produtos de investimento na área da previdência deve fazer parte de uma estratégia maior, coerente com o perfil de risco do investidor, e, preferencialmente, com um horizonte de longo prazo, já que se trata de um patrimônio a ser usado na aposentadoria. De acordo com planejadores financeiros, planejamento é regra de ouro, e o cuidado deve ser redobrado. 

"Isso para não cair em investimentos muito simples, que uma pessoa poderia fazer sem assessoramento. Há o risco de pagar uma taxa elevada a um gestor, desnecessariamente", atenta Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb.

Segundo ele, o diferencial são os atrativos incentivos tributários da modalidade pelo horizonte mais largo, mais do que por se tratar de um tipo de investimento peculiar. "Há diversas opções, como fundos de previdência que investem em ações e câmbio, que são bem arriscados, ou títulos públicos e renda fixa, mais conservadores", acrescenta.  

Grande benefício da modalidade, o Imposto de Renda incide apenas no momento do resgate ou recebimento da renda nas duas categorias. Com os fundos de previdência se aproximando dos tradicionais em rentabilidade, isso passa inclusive a ser mais uma munição para as instituições venderem o produto.

Para os investidores insatisfeitos com o rendimento do seu fundo, e que queiram migrar, Maristela Gorayb, planejadora financeira da Planejar, lembra da opção da portabilidade, ou seja, de mudar de tipo de fundo ou empresa. Em um cenário de aversão ao risco, e com mais investidores receosos, ela acrescenta que existe um nível baixo de educação para investir no país. 

"As pessoas tendem a ficar mais conservadoras ainda. Agora, para ganhar algum dinheiro com previdência, é preciso começar a entender o contexto, e conceitos como volatilidade, para se sentir mais seguro ou segura, e ir para produtos com mais risco", diz.

Com a palavra: os bancos

Em nota, o BrasilPrev afirmou que os fundos classificados com melhores rendimentos são estratégias de renda fixa aderentes ao atual cenário de juros baixos, com alocação em títulos pré-fixados, atrelados à inflação de longo prazo, e títulos privados, sendo o Fix Estratégia 2035 sob o conceito ‘data-alvo’ e o BB Prev atrelado ao produto Tradicional (não comercializado).

Já a estratégia “Clássico”, mencionada na tabela das piores rentabilidade, a BrasilPrev disse que trata-se de um fundo de renda fixa puramente pós-fixado, com baixíssima volatilidade. A companhia reforça que trabalha diariamente em um processo consultivo de oferta dos planos e orienta os clientes a construírem uma carteira de previdência diversificada alinhada ao perfil, momento de vida e objetivos de longo prazo de cada um.”

Também em nota, a Santander Asset Management informou que o fundo Santander Prev FIX FIC Renda Fixa Crédito Privado não é mais comercializado. Com relação ao fundo Santander Prev NTN-B-B 2023 III FIC Renda Fixa, a gestora disse que oferece ainda outros produtos nesta categoria, com diferentes vencimentos e níveis de risco. "Atualmente, a oferta de fundos previdência conta com produtos competitivos nas diversas classes de ativos, que atendem aos diferentes perfis dos investidores", disse.

Procurados, Bradesco e Itaú não responderam até o fechamento desta reportagem.

*Com colaboração de Matheus Prado

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