“Só faz sentido meta de desmatamento se der para prever o resultado”, diz ex-BC

Mourão recebeu sugestão de criação de sistema parecido com meta de inflação na área ambiental

Thais Herédia
Por Thais Herédia, CNN  
10 de julho de 2020 às 21:59
Incêndio em área da floresta amazônica na região de Porto Velho (Rondônia)
Foto: Bruno Kelly - 10.set.2019/Reuters

Na reunião dos CEOs com Hamilton Mourão para tratar da política ambiental do governo, o vice-presidente ouviu uma sugestão inusitada, segundo relatou a analista da CNN, Raquel Landim. O governo poderia adotar metas de redução do desmatamento com um modelo parecido com o sistema de metas para inflação gerido pelo Banco Central.

“Eu nunca tinha pensado nisso, mas acho que faz sentido”, disse à coluna Sérgio Werlang, ex-diretor do BC, conhecido como “pai” do Sistema de Metas para Inflação adotado em 1999. O modelo determina que o governo defina o objetivo para o resultado do IPCA anual com dois anos de antecedência. A partir dessa decisão, o Comitê de Política Monetária (Copom) calibra a taxa de juros básica da economia.

Para controlar o desmatamento nas florestas brasileiras seria preciso algo diferente, mas sob o mesmo princípio, ou seja, que haja causa e efeito e que seja possível prever resultados.

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“Você só pode colocar metas se tiver como prever o resultado das ações. Pelo que eu entendo é possível de fato colocar uma meta para o desmatamento. Existe uma forma de fazer causa e efeito na questão ambiental, por exemplo, entre a fiscalização e a redução do desmatamento. Se aumentar fiscalização ‘x%’, diminui ‘x%’o desmatamento. Mas certamente há outras”, explica o ex-BC.

Sérgio Werlang avalia que a imagem do Brasil está sim arranhada com a piora do controle das queimadas e das ações ilegais nos biomas. Ele lembra que o país havia conquistado um lugar de destaque e respeito no mundo pelos resultados da política ambiental dos anos recentes.

“O país era o exemplo na administração ambiental e agora, por conta própria, deu um tiro no pé. Jogamos fora anos de investimento na imagem fazendo coisas concretas, não foi só marketing. Perder a imagem é rápido, reverter é mais caro, leva mais tempo. Essa ideia recente de que tem que desmatar para fazer negócio tem que ser combatida dando dinheiro para não fazer o negócio que destrói a floresta. Isso conta a favor do governo, se ele entender isso”, analisa Sérgio Werlang.

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