Desde o Plano Real, bolsa rendeu 2.524% – metade do CDI, mas o dobro da poupança


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
20 de julho de 2020 às 14:05
Notas de dinheiro
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Quem tivesse investido R$ 1.000 em uma aplicação de renda fixa no primeiro dia do Plano Real, em 1º de julho de 1994, teria hoje nas mãos perto de R$ 60 mil. Esse retorno representa o dobro de quem colocasse os mesmos R$ 1.000 na bolsa de valores durante o mesmo período..

O acúmulo dessa pequena fortuna vale para as aplicações que seguiram o CDI, taxa que anda colada aos juros básicos do país e que serve de referência a alguns principais investimentos da renda fixa, como títulos públicos, CDBs e fundos DI.

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Por outro lado, mesmo o Brasil tendo sido um dos campeões mundiais dos juros por boa parte desses anos, a poupança, o investimento preferido do brasileiro, saiu em desvantagem: o dinheiro que foi deixado nela nesse período perdeu tanto para outras aplicações de renda fixa quanto para o investimento em ações.

É o que mostra um levantamento feito pela consultoria Economatica a pedido do CNN Business, mostrando a evolução da rentabilidade das principais aplicações desde o início do plano que deu estabilidade à moeda brasileira, há 26 anos. 

O CDI é de longe o campeão do período. A rentabilidade acumulada dele desde o primeiro dia do Plano Real é de fenomenais 5.689%. Em outras palavras: o dinheiro foi multiplicado por 57.

É nada mais, nada menos do que um ganho médio de 17% ao ano, em um aumento bastante confortável acima da inflação desses anos, que foi de 760% no total. Isso significa que quem tivesse investido R$ 1.000 em julho de 1994 chegaria a julho de 2020 com R$ 57.888,90. 

O retorno do Ibovespa, o índice que reúne as principais empresas listadas na bolsa brasileira, foi pouco menos da metade disso: a alta acumulada foi de 2.524%, ou ganhos médios de 13,6% ao ano. Para quem entrou com R$ 1.000, significa ter saído com R$ 26.236 depois de 26 anos.

Na poupança, que, até 2012, tinha juros próprios fixos, o ganho acumulado no período foi de 1.227% (média de 10% ao ano). É um rendimento que devolveu R$ 13.248 para quem aplicou R$ 1.000 - metade dos ganhos na bolsa e menos de um quarto do pago pelo CDI. 

“Não é a bolsa que estava errada, é a nossa renda fixa que era generosa demais”, diz o economista Carlos Heitor Campani, professor de finanças do Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ). “Um mercado de ações que dá retorno de 13% ao ano é muito bom, mas os juros eram altos demais; é como comparar um rapaz que joga futebol bem para caramba com o Neymar.”

O ouro e o dólar, tradicionalmente usados como investimentos de segurança, foram os menos rentáveis do período, com altas acumuladas de 2.491% e 447%, respectivamente. A valorização alcançada com o dólar, inclusive, perdeu para a inflação.  

“País da renda fixa” ficou para trás

Campani, da UFRJ, explica que os retornos polpudos vistos nas remunerações do CDI no passado refletem a realidade econômica que o país tinha nos anos de 1990 e 2000, e que resultavam em taxas de juros estruturalmente altas. 

Até meados dos anos 2000, os juros básicos brasileiros eram superiores a 20% ao ano, e, nos anos de 1990, ainda depois do início do Plano Real, chegaram a passar dos 40%.

Hoje, porém, a situação dentro e fora do país é completamente diferente. Os juros ficaram mais baixos no mundo todo ao longo da última década e a taxa brasileira despencou para inimagináveis 2,25%. E é difícil encontrar algum economista que espere que esses juros voltem aos patamares generosos do passado tão cedo. 

Isso significa que, ao menos na próxima década, a possibilidade de a bolsa de valores sair como um investimento mais rentável do que a renda fixa, pela primeira vez, é bastante grande para o Brasil.  

“Os juros não vão ficar em 2% para sempre, mas é muito improvável que voltem a ser 10% ou 12%; eles devem se acomodar mais próximos de 4% ou 5%”, disse Campani. “Com isso, a pessoa que quiser ter uma rentabilidade maior vai ter que correr mais riscos e procurar ativos com maior potencial de ganhos.”

As rentabilidades vistas nos últimos cinco anos já se inverteram e dão uma amostra do que podem ser os próximos anos: desde o início de 2015, o CDI pagou 63% em juros, enquanto o Ibovespa subiu 90%. A poupança, no mesmo período, remunerou 38%.

Poupança tinha juros próprios

A razão para a poupança ter ficado para trás do restante da renda fixa é que, diferentemente das aplicações diretamente atreladas à taxa Selic ou ao CDI, a poupança tinha, até 2012, regras próprias de rendimento. Ela remunerava sempre 0,5% ao mês (6,17% ao ano), somada a uma outra taxa que também é definida pelo Banco Central, a TR (Taxa Referencial). 

A TR está zerada desde 2017, mas não foi sempre assim, e mesmo que sempre um pouco abaixo do CDI, ela já garanti à poupança rendimentos que hoje dão inveja: em 1994 e 1995, por exemplo, só a TR era de 2% a 3% ao mês. É mais, em apenas um mês, do que o que hoje a poupança paga em um ano inteiro (1,57%). No ano, o rendimento da poupança chegava a passar dos 20%, em meados dos anos 1990.

Ao longo dos anos a TR também despencou (até ficar em zero) e, a partir de 2012, a regra mudou. Sempre que a taxa Selic estiver acima de 8,5%, a remuneração da poupança segue como antes: 0,5% ao mês mais a TR. Sempre que a Selic cai para baixo dos 8,5%, como é o caso hoje, a poupança remunera 70% da Selic.

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