Balanço da Smiles aponta que pior do setor aéreo pode já ter passado


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
29 de julho de 2020 às 19:44
Avião da Gol

Avião da Gol decola do aeroporto de Congonhas, em São Paulo: o pior já passou para a Smiles

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Os resultados do segundo trimestre da companhia de fidelidade Smiles, divulgados no fim da noite da terça-feira (28), comprovam meses de lamúria entre abril e junho para o setor de companhias aéreas e viagens.

Por outro lado, dão os primeiros sinais de que o pior momento no mundo do turismo pode já ter passado, com as emissões de novos bilhetes tendo quase dobrado ao fim de junho em relação ao pior momento, em abril.  

A Smiles é o braço de programa de fidelidade controlado pela Gol, e é a primeira grande do setor a apresentar os resultados do segundo trimestre no Brasil. A própria Gol deve divulgar seu balanço na sexta-feira (31), mesma data da rede de agências de viagens CVC, enquanto a Azul apresenta os números em 13 de agosto. As concorrentes Latam e Avianca não têm ações listadas na bolsa brasileira. 

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Mais do que em qualquer outro período, a temporada de balanços referente ao segundo trimestre de 2020 era aguardada com grande expectativa por investidores e analistas, já que ela dará a completa noção de como as companhias atravessaram estes que foram os piores meses da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.   

No Brasil, a maior parte dos estados passaram a fechar suas atividades em meados de março. E nenhum outro setor sofreu tanto com o congelamento das atividades e da circulação de pessoas no mundo quanto o de viagens. E a Smiles é prova disso.

O lucro, que já tinha minguado a R$ 56 milhões no primeiro trimestre, virou um prejuízo de R$ 400 mil (no 2o trimestre de 2019, era de R$ 155,7 milhões).

A receita líquida da Smiles, que tinha sido de R$ 171 milhões no primeiro trimestre, despencou 67% no segundo, para R$ 56 milhões – quer dizer, a receita inteira deste trimestre ficou igual ao que era o lucro nos três meses anteriores.

Em comparação ao mesmo trimestre em 2019 (R$ 278 milhões), a queda na receita é de 80%.

“A variação é majoritariamente explicada pelos efeitos da Covid-19, com restrições impostas ao setor de viagem e turismo”, escreveu a companhia em seu relatório. “As receitas de resgates foram reduzidas em 80%, em decorrência do cancelamento de viagens (passagens aéreas, hotéis, aluguel de carros etc.).” 

Não só as compras de novas passagens caíram, como também uma importante fonte de receita da companhia foi impactada pelas políticas extraordinárias da pandemia: as milhas que as pessoas acumulam e não usam, porque expiram. É o chamado “breakage”.  

 A Smiles prorrogou a validade das milhas de todos os clientes por 12 meses nos meses de crise. Do outro lado, o acúmulo de novas milhas também despencou com as pessoas comprando bem menos voos e outros produtos. O resultado é que a receita com a diferença entre o que entra o que sai de pontos, o breakage, despencou 57% do primeiro para o segundo trimestre (para R$ 36,4 milhões). 

Sinais de recuperação  

As boas notícias ficaram escondidas nos números gerais. Apesar das quedas agudas vistas quando considerado todo o trimestre, a Smiles aponta melhoras substanciais entre um mês e outro, bem como nos números prévios de julho.  

“A receita líquida entre abril e junho mostra claramente uma recuperação”, escreveu a companhia. “Nesse período, as emissões de bilhetes cresceram 95% e os cancelamentos caíram 45%. Ao final do trimestre, já alcançamos cerca de 50% das emissões de bilhetes comparativamente ao mesmo período de 2019.” 

Em julho, a receita com venda de bilhetes chegou a 57% da média de julho do ano passado - no segundo trimestre, esse proporção tinha sido de apenas 22% na comparação com os mesmos meses em 2019.

A receita com milhas resgatas, como proporção da receita realizada nos mesmos períodos do ano passado, saltou de 13% no segundo trimestre para 46% na prévia de julho.   

“Os números de julho sugerem uma recuperação ainda mais forte no terceiro trimestre”, escreveram os analistas do Bradesco BBI em relatório aos clientes. “Isto, combinado com a redução nos custos com passagens aéreas, pode resultar em um crescimento maior da rentabilidade nos próximos trimestres.”

Os investidores da Smiles tiveram um dia dúbio – depois de terem caído 1,85% durante a manhã, o preço dos papéis se recuperou e encerrou o pregão em alta de 1,75%. Basta saber se a Gol seguirá rota parecida.

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