Pão de Açúcar não sabe o que é crise – mas Carrefour é o 'queridinho' da vez


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
30 de julho de 2020 às 12:22 | Atualizado 30 de julho de 2020 às 16:48

Nem a queda do lucro do Grupo Pão de Açúcar (GPA) desanimou os investidores. Muito pelo contrário. Os resultados do varejista só comprovaram o bom momento do varejo alimentício, que já estava em alta com o balanço divulgado pelo Carrefour: os supermercados e atacarejos sentiram poucos efeitos da pandemia da Covid-19.

O primeiro motivo é óbvio: por serem serviços essenciais, o funcionamento dos estabelecimentos não teve qualquer tipo de interrupção. Em alguns casos, inclusive, viraram uma das poucas opções para as pessoas conseguirem sair de casa durante a pandemia – a ida ao supermercado se tornou uma espécie de programa de família.

Prova disso é que as receitas subiram acima da expectativa dos analistas – 58% na comparação anual, a R$ 20,8 bilhões. Contando apenas a operação brasileira, excluindo o grupo colombiano Almacenes Éxito, adquirido pelo GPA no fim de 2019, o montante ficou em R$ 15,5 bilhões, 18,6% acima do registrado no segundo trimestre do ano passado.

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Mas há pontos de atenção (e uma concorrência forte). Na visão do Bradesco, apesar dos resultados bons do GPA, o Carrefour ainda se destacou mais no segundo trimentre. “O resultado particularmente forte e inesperado do Carrefour tira parte do brilho do GPA”, disseram, em relatório, os analistas Richard Cathcart e Victor Gaspar do Bradesco BBI.

E um dos pontos que ofuscaram o brilho do GPA para os analistas são justamente as vendas digitais. Não que elas foram ruins. Ao contrário. O crescimento foi de 272% no período, com a inauguração de dois novos mini centros de distribuição para dar conta da demanda. Atualmente, as vendas por aplicativos ou pelo site das marcas da empresa já representam 5,6% do faturamento do grupo. Na bandeira Pão de Açúcar o percentual é ainda maior: 15,3%.

O problema é exatamente esse: a grande participação da bandeira Pão de Açúcar nessa fatia, e a ausência de Extra, Compre Bem e Assaí da conta. Nas estimativas dos analistas, as outras marcas não chegam a ter 1% do faturamento – e um grande problema de concorrência, já que o Carrefour apresentou 8% de vendas vindas dos canais digitais.

Mas o Assaí, que é a grande estrela da companhia, também sofreu com uma redução dos ganhos, apesar da alta das vendas.

 "Observamos uma redução da margem bruta do Assaí, ao contrário do que aconteceu com o Atacadão", diz Henrique Esteter, analista da Guide. "Então, o mercado esperava mais do resultado."

Mesmo assim, ambos enxergam que as ações podem chegar a R$ 102, uma valorização de quase 35% em um horizonte de 12 meses.

O banco BTG Pactual também enxerga uma valorização do papel para um valor de até R$ 99. “A empresa também se beneficia do aumento de tráfego das lojas devido a maiores gastos com alimentos para serem preparados em casa e o aumento da inflação de alimentos no país”, disseram os analistas Luiz Guanais e Gabriel Savi, do BTG Pactual.

Ações em queda

Mesmo com os resultados fortes, o GPA tem a maior queda do Ibovespa na manhã desta quinta-feira. As ações estão caindo 4%, enquanto as ações do Carrefour sobem 1,5% – outro sinal de que o Carrefour é o queridinho atual do mercado. Qual o motivo para isso? Segundo Pedro Galdi, analista da corretora Mirae, o momento do mercado de ações não está ajudando.

“Todas as bolsas de valores estão caindo lá fora por vários motivos: temor de uma segunda onda, quedas fortes nas economias americana, mexicana e alemã”, diz Galdi. “Vejo como um momento de realização. A Mirae, no entanto, é menos otimista quanto a valorização das ações: o preço alvo é de R$ 91.

Outras questões que deixaram alguns analistas um pouco ressabiados foram a redução das margem. A margem bruta do GPA Brasil, por exemplo, caiu 0,9 pontos percentuais, para 20.7%.

"O resultado do GPA foi 'ok', mas o do Carrefour foi 'uau'", diz Daniela Bretthauer, analista de varejo da casa de análise Eleven Financial.

O GPA mostra que a despeito da maior parte dos setores da economia, o setor varejista não enxerga crise agora e nem no horizonte. Mas o Pão de Açúcar, pelo menos por enquanto, vê um concorrente ser mais cobiçado no mercado de ações.

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