O impacto da pandemia na economia é menor do que o esperado, diz Honorato


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
05 de agosto de 2020 às 08:55

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, está otimista. Pelo menos, mais otimista que a média. Não por acaso, o banco revisou o tamanho do rombo que a economia brasileira terá neste ano: ele deve ser menos profundo do que parecia ser no início da pandemia. Em vez de termos uma retração do PIB de 5,9%, a baixa será de “apenas” 4,5%. Para o ano que vem, teremos uma recuperação mais robusta, mas ainda nem perto de recuperarmos o patamar atual: alta de 3,5%.

Isso, é claro, se as coisas caminharem do jeito que parecem estar caminhando. O próprio Honorato acredita que ele, e todos os seus pares, precisam admitir que existia um elemento de medo maior do que a realidade mostrou – apesar de o Brasil estar perto de registrar 100 mil mortes causadas pela Covid-19.

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“Nós economistas, de uma maneira geral, temos que ter a humildade de admitir que não sabíamos o tamanho da pandemia e o impacto que ela teria na economia”, diz ele em entrevista ao Economia Pós-Pandemia, do CNN Brasil Business. “O que estamos notando no Brasil e no mundo é que os dados econômicos estão vindo melhor do que o esperado.”

Ele cita como exemplo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados no fim de julho, mas referentes ao mês anterior. Enquanto muitos esperavam uma destruição de mais de 200 mil vagas com carteira assinada, uma surpresa positiva: foram cerca de 11 mil desligamentos.

Isso não quer dizer, no entanto, que não há problemas bem grandes à frente da economia brasileira. Na visão do Bradesco, a taxa de desemprego do Brasil deve alcançar 15% no fim deste ano. Além disso, também há a questão da queda de renda das famílias, que, por agora, foi compensada em parte pela distribuição de bilhões de reais por meio do auxílio emergencial.

Porém ele já tem data para acabar, apesar de o governo ainda tentar desenhar o seu Renda Brasil, que substituiria todos os programas sociais ligados ao Planalto, como o Bolsa Família.

Só que para tudo isso acontecer é necessário dinheiro. E muito. O problema é que o governo está se endividando cada vez mais e a previsão do Bradesco é que a dívida chegue ao equivalente a 100% do PIB em 2020. É um patamar visto como aceitável para economias desenvolvidas, mas muito alto para os emergentes, como é o caso do Brasil.

“Existe uma tolerância maior com a dívida em todo o mundo e é algo que todos os países estão herdando durante a pandemia. Mas tem uma hora em que os investidores começam a perguntar sobre a solvência fiscal daquele país”, diz Honorato.

Até quando vai a paciência?

Esse ambiente de leniência pode deixar de existir em um momento próximo, o que gera problemas em cascata. O primeiro deles seria um aumento da taxa de juros de longo prazo, o que desestimula investimentos mais intensos, como em projetos de infraestrutura – setor que Honorato acredita que pode ser o motor da retomada. Consequentemente, a economia deixa de crescer, o investimento estrangeiro pode não vir, há depreciação do real e mais problemas para o governo resolver.

Por isso, para o economista-chefe do Bradesco, é fundamental que a agenda de reformas seja acelerada. Não só a reforma tributária, apesar de sua importância, mas outras como a administrativa e os marcos legais de setores como os de óleo & gás, ferrovias, entre outros.

E só dessa maneira o otimismo visto no mercado de ações passará para a economia real. Caso as reformas não passem – e Honorato destaca o ambiente reformista dentro do Congresso e do governo –, o mercado vai começar a sentir. Mesmo assim, até agora, a alta é justificável. Em um ambiente de juros baixos, muitos brasileiros estão começando a se aventurar na renda variável. Para completar, há uma injeção de liquidez de governos de todo o mundo e muito desse dinheiro está indo para as bolsas, como a brasileira, que é uma das que possuem mais liquidez entre os emergentes.

“Quando você compara o portfólio da família brasileira (com o de mercados desenvolvidos), a alocação em bolsa é muito baixa, de 5 a 6 vezes menor. E se as reformas avançarem, também teremos mais valorização dos ativos, como os da bolsa”, diz Honorato.

Confira a entrevista de Honorato para o Economia Pós-Pandemia na íntegra no vídeo acima.

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