Brasil zera taxa de etanol dos EUA se a do açúcar cair, diz secretário

Secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura diz que não dá para falar de reciprocidade 'apenas em setores que interessam a um dos lados'

Estadão Conteúdo
15 de agosto de 2020 às 10:13
Brasil aceitaria zerar taxa de importação sobre o etanol dos EUA se Donald Trump fizer o mesmo com o açucar produzido aqui e vendido aos norte-americanos
Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar retaliar o Brasil pela cobrança de tarifa de importação sobre o etanol norte-americano, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, disse ao Estadão/Broadcast que o Brasil aceita zerar a taxa se os EUA fizerem o mesmo com o açúcar brasileiro.

"Não podemos falar de reciprocidade apenas em setores que interessam a um dos lados. Nesse sentido, o Brasil está disposto a conceder tarifa zero para a importação de etanol dos EUA, desde que eles estejam dispostos a conceder o mesmo tratamento para o açúcar brasileiro, ambos produtos derivados da cana", afirmou Ribeiro.

As negociações entre técnicos brasileiros e norte-americanos em torno dos derivados de cana-de-açúcar se intensificaram porque, no fim deste mês, acaba o prazo negociado entre os dois países para que os EUA possam vender etanol sem tarifa para o Brasil até o limite de 750 milhões de litros por ano. Fora da cota, a tarifa é de 20%.

Assista e leia também:

Trump ameaça retaliar Brasil por conta de tarifas do etanol
Indústria do etanol vê oportunidade para crescer com nova gasolina mais cara

Antes, vigorava uma cota de 600 milhões litros por ano. Essa cota foi aumentada no ano passado, como um aceno do governo Jair Bolsonaro a seu aliado no hemisfério norte. A expectativa era de que os EUA também favorecessem a importação do açúcar brasileiro, o que não ocorreu.

De acordo com uma fonte do Ministério da Economia, que também participa das negociações com os norte-americanos, conseguir a liberalização do açúcar seria o melhor cenário possível, já que aumentaria a liberalização comercial entre os dois países. 

Mas há lobbies contrários nos dois países, por isso ainda estão sendo discutidas outras opções: a manutenção da cota original de 600 milhões de litros; prorrogação da cota ampliada de 750 milhões de litros ou uma nova ampliação da cota. A decisão final ficará nas mãos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Pelo lado brasileiro, há uma rejeição muito grande a acabar com os 20% cobrados sobre o etanol norte-americano sem contrapartida, principalmente entre parlamentares nordestinos. É pelos portos da região que o produto entra no Brasil, competindo com o etanol produzido na região.

Mudança em algum momento

Trump fez a declaração na segunda-feira ao responder se havia pedido ao embaixador dos EUA no Brasil, Todd Chapman, para fazer a articulação com o governo brasileiro para reduzir as tarifas impostas ao etanol. 

O americano disse que "não discutiu muito" o tema, mas "provavelmente em algum momento" fará isso. "Não queremos as pessoas impondo tarifa a nós, embora eu tenha uma relação muito boa com o presidente Bolsonaro", disse Trump.

Assista e leia também:

Deputados dos EUA cobram explicações de embaixador por suposto lobby por etanol
Decisão sobre importação de etanol americano caberá a Bolsonaro

Chapman tem sido pressionado por parlamentares democratas americanos a respeito do tema, já que a mudança na cota do etanol pode ser explorada politicamente por Trump com os agricultores americanos do Meio-Oeste, base do eleitorado republicano.

Em uma manifestação após críticas de deputados democratas, o embaixador informou que em nenhum momento solicitou a autoridades brasileiras que tomassem medidas em apoio a Trump.

Mas enquanto os brasileiros veem etanol e açúcar como um produto derivado da cana, nos EUA, são dois lobbies distintos, já que lá o açúcar é feito de beterraba e o etanol, do milho. E, em um ano de eleição para a presidência dos Estados Unidos, o chamado cinturão do milho (corn belt) e a necessidade de agradar seus eleitores podem ter peso decisivo nas negociações com o Brasil.

Clique aqui para acessar a página do CNN Business no Facebook