Com a democratização dos BDRs, compare opções para investir no exterior


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
18 de agosto de 2020 às 09:57 | Atualizado 18 de agosto de 2020 às 10:09
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo

Painel na bolsa de valores de São Paulo (03.abr.2019)

Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A CVM decidiu flexibilizar suas normas e autorizar que investidores comuns, chamados pelo mercado de ‘varejo’, pudessem investir em BDRs. E, partindo do princípio que estes títulos representam ações de empresas listadas em bolsas de outros países, entende-se que a ideia por trás da medida é expandir o acesso dos brasileiros ao mercado acionário internacional.

Mas qual o valor dessa mudança na prática? Para parte do mercado, a resolução terá pouco impacto. Economista e sócio-fundador da Nord Research, Renato Breia afirmou em conteúdo enviado aos clientes da casa de análise que a mudança, “tratada como golaço pelas corretoras e pela B3”, pode ter ocorrido tarde demais.

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“Essa era uma notícia para ser comemorada se tivesse saído há uns 2, 3 anos”, disse. “Nos últimos anos as corretoras americanas facilitaram muito o acesso de investidores brasileiros. O processo de abertura de conta foi simplificado, a aprovação se dá em poucas horas e algumas oferecem suporte em português.”

Ainda assim, a procura pelas BDRs tem aumentado entre os investidores brasileiros. Segundo dados da Economática, o mercado de BDRs movimentou em 2020 uma média por dia US$ 11,9 milhões, valor 190% superior ao de 2019. O maior volume em dólares anterior foi no ano de 2018 com US$ 6,13 milhões em média por dia.

Em amostras mensais no ano de 2020, o volume no mês de agosto até o dia 12 foi de US$ 13,6 milhões, valor que cai pelo segundo mês consecutivo. O melhor mês foi em março de 2020 com US$ 15,5 milhões por dia.

BDRs e o potencial de mercado

Nessa linha, a Avenue Securities foi fundada em 2018 pelo ex-CEO da Clear, Roberto Lee. A companhia é baseada em Miami, tem operação de câmbio no Brasil e já se aproxima dos 140 mil clientes. O gestor até afirma que o movimento é “positivo para o mercado porque amplia a cobertura sobre ativos internacionais”, mas entende que os BDRs têm seus problemas, a começar pelos custos.

Em relação aos dividendos, por exemplo, muitos papéis da classe cobram 5% de taxa de corretagem para repassar os ganhos ao investidor. Há também, segundo documento cedido pela empresa ao CNN Brasil Business, uma barreira imposta pelos valores mínimos de investimento.  

“Um exemplo clássico é o da BDR da Amazon. AMZN34 está cotado em R$8.441,25 para um único BDR. Como os BDRs são negociados em lotes de 10 recibos, seria necessário desembolsar R$ 84.412,50 para investir”, diz o texto. É possível comprar o recibo de unitária, de forma fracionada, mas o valor do papel não se altera.

O argumento de Lee é que o investidor pode comprar os papéis diretamente, sem intermediação e ruídos. “As ações listadas em bolsas norte-americanas são caras, mas é possível comprar de forma fracionada, investindo qualquer valor”, diz. “Isso permite uma maior diversificação da carteira.”

As taxas da Avenue, por exemplo, são graduais: quanto maior a operação, maior a cobrança. US$ 1 para operações de até US$ 100; US$ 1,50 para transações de até R$ 1.000; US$ 4,30 para ordens de até US$ 2.000; e US$ 8,60 para valores superiores. 

Novos ETFs

A mudança na legislação para BDRs pode ter criado, por outro lado, espaço para ampliação de um outro mercado, o de ETFs. Estes títulos, tradicionais nos Estados Unidos e, em boa parte, trazidos para cá pela BlackRock, replicam índices como o brasileiro Ibovespa ou o americano S&P 500, agrupando uma série de ações em um papel só. Ou seja, se o IBOV se valorizou 3,4% no dia, o BOVA11, ETF do índice, terá resultado parecido.

Agora, com a democratização das BDRs, Carlos Takahashi, presidente da BlackRock, acredita que a empresa pode passar a oferecer produtos não relacionados ao Brasil.

“O custo para estruturar um ETF localmente é maior do que o necessário para estabelecer um BDR. Como já temos diversos fundos de índice criados lá fora, é mais eficiente trazê-los através dos BDRs”, diz. “Agora precisamos realizar conversas com os emissores dos certificados para avaliar a possibilidade.”

Para Cacá, como o gestor é conhecido, o próximo passo decidir quais tipos de ativo importar para o mercado brasileiro, a exemplo dos fundos de ESG (governança ambiental, social e corporativa). “É preciso discutir as tendências de mercado e definir o que vamos trazer”, explica. “Existem, por exemplo, muitos índices globais com exposição a empresas asiáticas, europeias.”

Fundos internacionais

Outra possibilidade que se abre com a atualização no mercado de BDRs é uma mudança de legislação dos fundos internacionais. Atualmente, só os investidores qualificados – com verba superior a R$ 1 milhão –, podem investir em produtos da modalidade 100% lastreados no exterior. 

Sobram, para o investidor comum, os fundos apelidados de 80-20, que contam com 80% de ativos nacionais e 20% de produtos estrangeiros. Francine Balbina, analista de investimentos globais da Spiti, afirma que existe uma questão educacional a ser superada, além da regulatória.

“O varejo não conseguia comprar nem ETFs há três anos, então considero que estamos caminhando para uma abertura maior”, diz. “Do outro lado, percebe-se um movimento de gestoras estrangeiras captando recursos no país. Já avançamos, inclusive em fundos temáticos. É possível citar o exemplo da Axa IM, que trouxe um fundo de robótica, outro de economia digital.”

Stefano Catinella, responsável pela área de distribuição da Itaú Asset, também acredita numa maior acessibilidade para o setor, acompanhada de uma maior exposição a outros países. Pensando nisso, a empresa lançou 15 produtos para atender a crescente demanda do público.

“Entre as novidades, lançamos um fundo multimercado com dois terços de exposição a produtos internacionais e tem sido um sucesso”, diz. “Isso mostra que os clientes estão entendendo melhor o mercado.”

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