Real se valorizará com 'plano claro' para a situação fiscal do governo, diz UBS

O UBS projeta que o dólar terminará 2020 em R$ 4,95, descendo a R$ 4,60 ao final de 2021

José de Castro, da Reuters
10 de setembro de 2020 às 18:30
Notas de dólar: somente com plano para consolidação fiscal o real voltará a se fortalecer
Foto: Gary Cameron/Reuters

A continuidade do retorno de fluxos de portfólio ao Brasil é a "peça que falta no quebra-cabeça" que pode colocar o real em uma tendência de apreciação, avaliou o UBS em nota a clientes divulgada nesta quinta-feira, na qual o banco trouxe outros elementos já em curso favoráveis à moeda brasileira.

Para profissionais da instituição suíça, a volta desse dinheiro acontecerá no caso de o país apresentar nos próximos meses um "claro pano para consolidação fiscal de médio prazo", que seria sinalizado pela aprovação do Orçamento 2021.

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O UBS projeta que o dólar terminará 2020 em R$ 4,95, descendo a R$ 4,60 ao final de 2021. Essas estimativas embutem queda nominal da moeda de 6,8% até o fim deste ano e de 13,4% até o encerramento de 2021.

Os prognósticos mostram ainda expectativa de desvalorização de 7,1% do dólar ao longo de 2021, após disparada de 23,4% em 2020 comparando-se o número do UBS com a cotação de 30 de dezembro de 2019 da Refinitiv (R$ 4,0129).

O dólar era cotado nesta quinta em torno de R$ 5,31, disparando 32,3% em 2020, o que faz do real a moeda relevante de pior desempenho neste ano.

Para o UBS, "crescentes" riscos fiscais e saídas de recursos em carteira têm tido importante peso na magnitude da depreciação cambial em 2020 (de 24,4%).

Entre fevereiro e maio, o Brasil perdeu 34,992 bilhões de dólares em investimentos em carteira (renda fixa mais ações), conforme dados do Banco Central. Em junho e julho houve alguma recuperação, com superávit somado de 3,023 bilhões de dólares, mas ainda menos de 10% do montante perdido nos quatro meses anteriores.

Porém, os profissionais do UBS veem um "caminho para o real se estabilizar".

"Melhora na dinâmica das transações correntes, superávit no balanço de pagamentos perto de máximas históricas, impulso para reformas fiscais e recuperação do crescimento poderiam amenizar a saída de recursos de portfólio [...] e diminuir parte do desvio negativo recorde do real em relação a seu valor justo", disseram Tony Volpon, Roque Montero e Fabio Ramos em nota.

De acordo com o UBS, pelo modelo BEER de taxa de câmbio de equilíbrio --que leva em conta spreads de juros nominais, inflação, termos de troca e investimentos, por exemplo--, o real está 14% abaixo do valor justo, com z-score (desvio) negativo de 2,8.

Sem mais quedas de juros?

Para o UBS, o "provável" fim do ciclo de flexibilização monetária do Banco Central retira um vento contrário ao real. Porém, a moeda continuará tendo eventuais ganhos limitados por baixas taxas implícitas de juros – de 1% contra o dólar.

"O próximo evento-chave para os mercados será a situação do teto de gastos no próximo ano", disseram os profissionais, para quem o prêmio de risco embutido no câmbio indica que o mercado vê descumprimento da regra em 2021, mas que o noticiário sobre o Orçamento poderia pesar no câmbio já no curto prazo.

Nesse sentido, o UBS vê as eleições municipais de novembro como o "primeiro teste" do governo antes da eleição presidencial de 2022. "Um resultado negativo para o governo poderia lançar mais dúvidas sobre a agenda de reformas e elevar a volatilidade do mercado", afirmaram Volpon, Montero e Ramos.

Mas eles esperam que o Banco Central siga ativo no mercado de câmbio. Segundo os profissionais, o BC já atuou cerca de 20 vezes neste ano --com duas das últimas cinco intervenções em volumes superiores a 1 bilhão de dólares em momentos nos quais o dólar oscilava em torno de R$ 5,60 e a volatilidade estava perto de 22%.

"(Esperamos) que o BC acelere a atuação se o real depreciar de forma desordenada", disseram.

No estudo do UBS, o banco notou uma aparente perda de aderência entre o comportamento do real e do dólar nos mercados externos.

Pelos padrões anteriores, no atual patamar do índice do dólar, a moeda dos EUA deveria estar mais próxima de R$ 4. "Podemos estar vendo uma mudança estrutural nessa relação estatística historicamente forte, mas por ora estamos assumindo que ela se manifestará conforme o risco político-fiscal diminuir."

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