SpaceX e Nasa: saiba tudo sobre o envio de astronautas ao espaço após 10 anos

A decolagem foi originalmente programada para sábado (14) à noite, mas por causa do mau tempo, a viagem foi adiada, a princípio, para o próximo domingo (15)

Jackie Wattles, do CNN Business
14 de novembro de 2020 às 17:22
Nave Crew Dragon, da SpaceX: quatro astronautas serão enviados para o espaço em novembro
Foto: SpaceX/Divulgação

Quatro astronautas estão programados para entrar em órbita a bordo de uma cápsula da Crew Dragon da SpaceX neste fim de semana. A NASA espera que a expedição seja a primeira de anos de viagens de rotina da SpaceX para manter a Estação Espacial Internacional (ISS) totalmente equipada.

A decolagem foi originalmente programada para sábado (14) à noite, mas o administrador da NASA Jim Bridenstine disse na tarde de sexta-feira (13) que os ventos fortes no Centro Espacial Kennedy da Flórida, o local de lançamento, levaram a SpaceX e a NASA a adiar sua meta de lançamento para domingo às 19h27, horário do leste dos EUA (21h27 no Brasil).

Foi a SpaceX que pediu para adiar o lançamento, de acordo com um porta-voz da NASA.

A notícia veio logo após o CEO da SpaceX, Elon Musk, escrever no Twitter que teve febre e tosse por alguns dias e recebeu resultados de teste positivos e negativos para Covid-19.

Ainda não está claro se ele tem o vírus, mas Bridenstine disse a repórteres na sexta-feira que, de acordo com as diretrizes da NASA, Musk precisaria se autoisolar e a SpaceX precisaria fazer rastreamento de contrato para determinar quem pode ter sido exposto caso Elon Musk tenha o vírus.

Durante uma coletiva de imprensa na sexta-feira à noite, funcionários da SpaceX e da NASA confirmaram que ninguém envolvido no lançamento está em risco de exposição. Os astronautas já estão em quarentena rigorosa há duas semanas, de acordo com Norm Knight, vice-gerente da Diretoria de Operações de Voo da NASA.

Elon Musk, presidente da SpaceX e Tesla: o homem por trás das empresas bilionárias
Foto: Hannibal Hanschke/Reuters

Três astronautas da NASA (Michael Hopkins, Victor Glover e Shannon Walker) serão acompanhados por Soichi Noguchi, um astronauta da agência espacial do Japão, JAXA, na viagem. Manter o horário de lançamento no domingo vai depender das condições climáticas. 

No entanto, as chances de ventos favoráveis no domingo parecem ser ainda mais baixas do que no sábado, de acordo com a última previsão da 45ª Space Wing dos militares, a equipe da Força Espacial dos Estados Unidos oficialmente encarregada de considerar o clima adequado para o lançamento.

 A última previsão do Space Wing mostrou que havia 70% de chance de boas condições no sábado, e só 60% no domingo.

Outro dia de lançamento está reservado para quarta-feira, 18 de novembro.

O lançamento seguirá a missão histórica de maio, ocasião em que a Crew Dragon da SpaceX voou pela primeira vez com astronautas. Foi a primeira missão com astronautas em órbita a bordo de uma espaçonave privada e a primeira vez em que astronautas foram lançados de solo norte-americano em quase uma década. 

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A missão foi considerada apenas uma "demonstração” e foi pilotada por dois astronautas veteranos da NASA e ex-pilotos de teste militares. 

Tudo saiu sem problemas, e a NASA acaba de certificar oficialmente a Crew Dragon como uma espaçonave “classificada como humana”, o que significa que foi oficialmente considerada segura para transportar pessoas ao espaço, o que só aconteceu ao término das revisões finais nessa semana.

A missão deste fim de semana, batizada de Crew-1, vai realmente dar o pontapé inicial no programa. Os quatro astronautas não são todos pilotos de teste. 

Eles têm históricos variados (do mundo acadêmico à engenharia robótica) e estão preparados para se tornarem residentes em tempo integral uma vez a bordo da estação espacial, de onde conduzirão pesquisas e farão reparos completos e de manutenção no antigo laboratório em órbita – a ISS já completou 20 anos.

O que é a Crew Dragon?

Trata-se de uma cápsula em forma de gota que mede cerca de quatro metros de diâmetro e é equipada com sete assentos e controles touchscreen.

A SpaceX passou uma década desenvolvendo e testando a espaçonave, que não deve ser confundida com outros produtos da empresa, como o Starship, o foguete experimental para Marte da SpaceX, ou a espaçonave para carga Dragon, que tem transportado remessas de suprimentos de e para a estação espacial há anos.

A Crew Dragon e os astronautas entrarão em órbita no topo de um foguete SpaceX Falcon 9, e os astronautas embarcarão no veículo no dia do lançamento usando um “braço de acesso da tripulação” aéreo. 

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Depois que o foguete disparar a Crew Dragon para a atmosfera superior, a nave se separará e disparará seus próprios propulsores para começar a manobrar em direção à estação espacial.

A cápsula da Crew Dragon é totalmente autônoma, e assim os astronautas precisam apenas monitorar os sistemas e manter contato com o controle da missão, a menos que algo dê errado.

De acordo com Hopkins, os astronautas da Crew-1 nomearam sua nave Crew Dragon de “Resilience” em reconhecimento à “pandemia global, dificuldades econômicas e agitação civil” que fizeram de 2020 um ano particularmente desafiador.

“Sentimos que é uma conexão com todos vocês, com todos. Esperamos que isso traga um sorriso ao seu rosto e que forneça algo positivo para sua vida”, disse Hopkins sobre o uso da palavra resiliência durante uma coletiva de imprensa recente.

Por que “Crew-1”?

Esta é considerada a primeira missão totalmente operacional da nave Crew Dragon.

De agora em diante, todas as missões que a SpaceX realizar em nome da NASA terão nomes de “Crew” (“Tripulação”): a missão Crew-2, a próxima a decolar após a Crew-1, está programada para voar no primeiro semestre de 2021. 

Em ambas as missões, os astronautas irão para a estação espacial para se juntar a uma “Expedição” oficial da ISS. Expedição é o termo usado para identificar tripulações de astronautas que atuam como membros da equipe em tempo integral na estação espacial.

Embora a NASA tenha supervisionado o desenvolvimento da Crew Dragon na última década e fornecido uma grande parte do financiamento, a SpaceX ainda será proprietária e operará a nave espacial. 

Tecnicamente, a NASA é o cliente da SpaceX para esta missão, embora as duas organizações trabalhem lado a lado no lançamento e no controle da missão. A NASA estimou que está pagando à SpaceX cerca de US$ 58 milhões por assento.

Mas a SpaceX não precisa vender assentos apenas para a NASA ou outros astronautas treinados profissionalmente. A agência espacial disse que a SpaceX será capaz de vender assentos em missões futuras para turistas, pesquisadores privados ou qualquer pessoa que possa pagar por um assento.

Uma empresa sediada em Houston chamada Axiom está planejando uma missão com quatro cidadãos comuns a bordo de uma Crew Dragon da SpaceX. Batizada de AX-1, a missão deverá decolar no próximo ano, mas maiores detalhes ainda não foram divulgados.

Quem vai para o espaço?

Victor Glover

Glover, 44, vai pilotar esta missão.

Nascido em Pomona, Califórnia, Glover é bacharel em engenharia pela Cal Poly e possui três mestrados em vários programas de engenharia.

Glover serviu em vários esquadrões militares nos Estados Unidos e no Japão na década de 2000 e completou o treinamento de piloto de teste na Força Aérea. Quando foi selecionado para o corpo de astronautas da NASA em 2013, ele trabalhava para um senador norte-americano não identificado como consultor legislativo.

Embora tenha passado cerca de 3.000 horas pilotando mais de 40 tipos de aeronaves, Glover só irá ao espaço agora, a bordo da missão SpaceX Crew-1.

E sua inclusão nesta missão terá seu próprio significado histórico. Embora mais de uma dúzia de negros norte-americanos tenham viajado para o espaço desde que Guion Bluford se tornou o primeiro a fazê-lo em 1983, Glover será o primeiro a se tornar membro da tripulação em tempo integral na ISS.

Shannon Walker

Walker, 55, será um dos dois especialistas da missão na Crew-1, encarregado de monitorar os sistemas de bordo da Crew Dragon durante o voo e manter os outros membros da tripulação dentro do cronograma.

Ela possui bacharelado e mestrado em física, bem como doutorado em física, todos pela Universidade Rice. No final dos anos 1980, Walker ingressou na Rockwell Space Operations, onde trabalhou em estreita colaboração com a NASA e apoiou sete missões do Ônibus Espacial do centro de controle de missão em Houston. 

Mais tarde, ela entrou no programa ISS da NASA, trabalhando em projetos para vários componentes robóticos, antes de passar um ano com a Roscosmos, a agência espacial russa, em Moscou, onde ajudou a coordenar com vários parceiros internacionais. Já de volta à NASA em Houston em 2004, quando foi selecionada para o treinamento de astronautas.

Walker já fez uma missão no espaço: em 2010, ela serviu como piloto a bordo de uma missão russa Soyuz para a ISS, onde passou 161 dias antes de retornar à Terra.

Michael Hopkins

Hopkins, 51, servirá como comandante da missão Crew-1, o que lhe dará praticamente as mesmas funções que os capitães têm em navios marítimos.

Nascido no Missouri, Hopkins tem mestrado e bacharelado em engenharia aeroespacial pela Universidade do Illinois (onde também foi capitão do time de futebol) e pela Universidade Stanford, respectivamente. Ele testou aeronaves pilotadas na Edwards Air Force Base, na Califórnia, por alguns anos, depois estudou ciência política na Itália antes de ir trabalhar como engenheiro no Pentágono. Hopkins se juntou ao corpo de astronautas da NASA em 2009.

Como Walker, Hopkins fez uma viagem anterior ao espaço: em 2013, ele voou a bordo de uma espaçonave russa Soyuz e passou quase seis meses a bordo da ISS, registrando 166 dias no espaço.

Soichi Noguchi

Noguchi, 55, será o primeiro astronauta da agência espacial japonesa JAXA, uma antiga aliada da NASA, a viajar a bordo da Crew Dragon. Ele servirá ao lado de Walker como especialista em missões durante a Crew-1.

Noguchi cresceu em Chigasaki, uma pequena cidade perto de Yokohama, e assistiu às primeiras missões do ônibus espacial na tv quando adolescente. É engenheiro aeronáutico e concluiu bacharelado, mestrado e doutorado pela Universidade de Tóquio. 

Ele estava trabalhando no desenvolvimento de componentes de naves espaciais no Japão antes de ser selecionado pelo governo japonês para o treinamento de astronautas em 1996. 

Noguchi passou dois anos treinando na NASA e na agência espacial russa Roscosmos, e desde então ele voou em duas missões para a ISS. A primeira, em 2005, foi uma missão do ônibus espacial da NASA. 

Em 2009, voou de volta à estação espacial em uma nave russa Soyuz. O japonês já registrou um total de 177 dias no espaço.

Todos os quatro astronautas da Crew-1 se juntarão à Expedição 64 ao lado da astronauta da NASA Kate Rubins e dos russos Sergey Ryzhikov e Sergey Kud-Sverchkov. Eles chegaram à estação espacial a bordo de uma espaçonave russa Soyuz no mês passado.

Por que isso é importante?

A NASA está aguardando ansiosamente essa missão há uma década.

Os Estados Unidos ficaram sem a capacidade de enviar seus próprios astronautas para o espaço depois que o programa do ônibus espacial foi aposentado em 2011. Durante anos, a espaçonave russa Soyuz foi o veículo que manteve a estação espacial equipada.

A SpaceX mudou isso com o voo tripulado inaugural do Crew Dragon há alguns meses, na missão de teste Demo-2, que levou os pilotos de teste Douglas Hurley e Robert Behnken para começar uma temporada de dois meses na ISS. Mas o objetivo principal dessa viagem era coletar dados sobre o desempenho da Crew Dragon.

Lançamento do foguete Falcoln 9 pela NASA e SpaceX: testes já foram realizados
Foto: Reprodução / CNN

A espaçonave que transportará Hopkins, Walker, Glover e Noguchi terá “muitas atualizações” com base no que a NASA e a SpaceX aprenderam naquele voo, de acordo com Steve Stich, da NASA. Os painéis solares da espaçonave, por exemplo, foram reforçados para torná-los mais duráveis.

Agora que a Crew Dragon foi oficialmente certificada como um veículo digno de transportar humanos, a NASA planeja vê-lo fazer várias viagens à ISS todos os anos, transportando novos grupos de astronautas – e talvez, um dia, cidadãos comuns.

Essas viagens frequentes manterão a ISS com uma equipe melhor do que tem sido na última década, e isso deve aumentar drasticamente a quantidade de pesquisas científicas que podem ser realizadas em órbita, de acordo com a NASA.

É seguro ir ao espaço durante a pandemia?

De acordo com a NASA, sim.

Os astronautas estão em quarentena estrita juntos, e precauções extras estão sendo tomadas para manter tudo limpo.

A NASA, a SpaceX e o pessoal militar precisarão se reunir em salas de controle para apoiar o lançamento e implementaram medidas de segurança adicionais para combater a propagação da Covid-19.

Uma coisa que a NASA não pode controlar, no entanto, é quantas pessoas se aglomeram nas praias próximas na Flórida para assistir ao lançamento do foguete.

Durante a última missão da Crew Dragon em maio, milhares de pessoas se aglomeraram em praias públicas para ter um vislumbre das chamas da decolagem. 

Logo depois, a Flórida teve um pico de Covid-19, embora não esteja claro quantos casos estavam ligados às multidões que assistiram ao lançamento do foguete. Mais de 17.200 pessoas morreram no estado com o vírus.

A taxa de infecção da Flórida desde então diminuiu drasticamente, mas os funcionários da NASA estão mais uma vez implorando aos moradores e turistas para ficarem em casa e assistirem o transmissão ao vivo de decolagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)