JPMorgan apresenta o cenário eleitoral de pesadelo para os mercados


Matt Egan, do CNN Business, em Nova York
22 de novembro de 2020 às 06:00
JP Morgan
Fachada do banco JP Morgan
Foto: Stephanie Keith/Foto de arquivo/Reuters

Grande parte dos investidores de Wall Street vê os esforços da campanha de Trump para reverter os resultados eleitorais como um show secundário desesperado destinado ao fracasso. Mas o JPMorgan está dizendo aos clientes que ainda há uma chance de que esse processo se torne um caos. Afinal, estamos em 2020.

Michael Cembalest, presidente de estratégia de mercado e investimento da JPMorgan Asset Management, alertou em um relatório na quarta-feira (18) do “risco remoto de uma história de terror norte-americana” e “caos constitucional”.

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Cembalest, que ajuda a supervisionar US$ 2,2 trilhões em ativos, citou a demissão da principal autoridade de segurança eleitoral dos EUA na terça-feira (17) pelo presidente Donald Trump, a decisão do procurador-geral William Barr de autorizar promotores a investigarem suposta fraude eleitoral e o drama sobre a certificação dos resultados eleitorais no maior condado de Michigan.

“Conclusão: MUITAS coisas pouco ortodoxas precisam acontecer para que Trump seja reeleito”, escreveu o estrategista do JPMorgan. “Mesmo assim, não estou descartando nada”.

O caos pós-eleitoral certamente abalaria os mercados, que odeiam a incerteza. A eleição mais tranquila do que esperado deu início a uma celebração em Wall Street, com o S&P 500 marcando sua maior alta pós-eleitoral desde 1932.

No entanto, se os investidores não souberem quem será o responsável pela maior economia do mundo, eles podem facilmente vender primeiro e fazer perguntas depois. 

“Os mercados podem reagir negativamente se os Estados Unidos, como nação com a moeda de reserva mundial, forem vistos trilhando um caminho rumo à ilegitimidade eleitoral devido a manobras pós-eleitorais dos partidos políticos”, escreveu Cembalest.

“Duelo de posses”

Para ter certeza, os especialistas jurídicos dizem que a tentativa de Trump de reverter o resultado da eleição é apenas isso, uma chance remota. Simplificando, o presidente está perdendo por muitos votos em muitos estados.

Como Cembalest observa, Trump precisaria “reverter ou impedir resultados em três estados” para evitar que Joe Biden alcance os 270 votos eleitorais exigidos pela Constituição. Como a CNN relatou, apesar de Trump ter feito alegações infundadas (que o Twitter sinalizou como falsas repetidamente), não há evidência da fraude generalizada necessária para anular os resultados.

"Relaxe. Biden será empossado em 20 de janeiro”, escreveu o especialista em legislação eleitoral constitucional do estado de Ohio, Edward Foley, em um artigo de opinião no “The Washington Post” na semana passada, que foi citado pela Cembalest.

Mesmo assim, o estrategista do JPMorgan expôs vários desdobramentos que poderiam lançar dúvidas sobre esse resultado, incluindo o fato de um ou mais estados apresentarem listas de eleitores diferentes. Essa disparidade nos quadros seria então resolvida em 6 de janeiro pelo novo Congresso, por meio de regras definidas na Lei da Contagem Eleitoral (ECA na sigla em inglês) de 1887.

De acordo com Cembalest, “o cenário de pesadelo para os mercados” seria se os republicanos do Senado declarassem a ECA inconstitucional, virassem três estados a favor de Trump para dar a ele os 270 votos eleitorais necessários e os democratas se recusassem a participar.

“Tudo isso cria a perspectiva de duelo de posses”, escreveu Cembalest, observando que este resultado foi “evitado por pouco” em 1876.

Outro risco apresentado pelo executivo é se Barr instruir os investigadores a “apreender ou custodiar registros eleitorais” para investigar a existência de fraude eleitoral, retardando o processo.

Dimon: “Temos um novo presidente”

Na maioria dos casos, os investidores parecem ignorar a guerra de Trump sobre os resultados das eleições.

Os mercados não vacilaram em resposta às manchetes sobre os muitos processos judiciais de sua campanha. Na verdade, Wall Street chegou a um acordo com o resultado da eleição antes mesmo de a CNN e outros meios de comunicação projetarem que Biden seria o vencedor.

Os investidores têm se concentrado amplamente em outros assuntos, incluindo a composição do Senado dos EUA, o progresso na busca pelo desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus para combater o agravamento da pandemia e as perspectivas de recuperação econômica.

Mesmo assim, alguns estão começando a mostrar preocupações sobre a transição do poder.

“Acho que estamos dando pouca atenção a isso”, disse o âncora da CNBC Jim Cramer na quarta-feira (18), enquanto expressava preocupação com uma transição pacífica para um novo governo.

Liz Ann Sonders, estrategista-chefe de investimentos da Charles Schwab, afirmou que, embora os especialistas de sua empresa não vejam muito risco de eleitores “desonestos”, “certamente ainda pode haver algum evento político imprevisível”.

Talvez atendendo aos avisos de Cembalest, o CEO do JPMorgan Jamie Dimon pediu repetidamente aos norte-americanos que respeitem o resultado da eleição.

“Precisamos de uma transição pacífica. Tivemos uma eleição. Temos um novo presidente”, Dimon falou na quarta-feira (18) durante a conferência virtual DealBook do “The New York Times”. “É preciso apoiar isso, goste ou não, porque ele é baseado em um sistema de fé e confiança”, continuou 

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)