IPOs da China dão novo impulso a Hong Kong após ano conturbado

Centro financeiro asiático recebeu mais de 120 novas listagens até agora

Laura He, do CNN Business, em Hong Kong
14 de dezembro de 2020 às 05:00
Bolsas asiáticas: é provável que Hong Kong termine o ano como um dos principais mercados mundiais de ofertas públicas
Foto: Aly Song/Reuters

A bolsa de valores de Hong Kong sofreu um grande golpe no mês passado, quando a tão esperada oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) do Ant Group foi suspensa. Mas é provável que a cidade ainda termine o ano como um dos principais mercados mundiais de ofertas públicas, graças às empresas chinesas que aumentam o caixa local.

Neste ano, o centro financeiro asiático recebeu mais de 120 novas listagens até agora, de acordo com dados compilados pela Dealogic. A empresa de pesquisa disse que essas listagens levantaram um combinado de US$ 47 bilhões até terça-feira (8), a terceira maior pontuação do mundo, atrás apenas da Bolsa de Valores de Nova York e da Nasdaq. Também é um salto de 17% em relação ao total de 2019.

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O mais recente vencedor nessa onda de altas em Hong Kong é a JD Health, uma unidade de saúde online de propriedade da empresa chinesa de e-commerce JD.com (JD). As ações da empresa dispararam 56% no primeiro dia de negociações na terça-feira (8). A empresa levantou pelo menos US$ 3,5 bilhões, tornando-se o maior IPO da cidade neste ano.

O sucesso no mercado é uma boa notícia para Hong Kong, que vem lidando com crescentes dúvidas sobre seu futuro como um centro de negócios mundial à medida que a China reforça seu controle sobre a cidade.

A imagem da cidade foi prejudicada no ano passado por meses de protestos pró-democracia. Neste ano, além da pandemia de Covid-19, a confiança empresarial foi abalada quando Pequim impôs uma controversa lei de segurança nacional a Hong Kong, que críticos advertiram que prejudicaria as liberdades democráticas há muito desfrutadas pelos residentes da cidade. O controle do governo chinês sobre Hong Kong também é uma preocupação para as empresas, que estabeleceram operações na cidade em grande parte devido a sua abertura para investimentos estrangeiros e a seu sistema legal independente.

Nesta semana, o secretário financeiro de Hong Kong, Paul Chan, reconheceu que os investidores internacionais têm demonstrado preocupações com o futuro da cidade. Mas ele também disse que o governo tem trabalhado para reforçar a confiança na cidade, e pretende trabalhar com as agências reguladoras para promover Hong Kong a investidores internacionais.

No geral, "a confiança dos investidores estrangeiros manteve-se bem em Hong Kong", disse Chan na segunda-feira (7) durante uma reunião legislativa. Ele acrescentou que o status da cidade como um centro financeiro é "tão estável quanto o Monte Tai", fazendo referência a uma das montanhas mais famosas da China.

Chan acrescentou que a cidade registrou uma entrada líquida de quase US$ 50 bilhões em capital desde abril.

Analistas do banco francês Natixis apontaram em uma pesquisa recente que grande parte desse dinheiro se deve a "grandes pressões por IPOs de empresas da China continental".

Houve uma enxurrada de ofertas públicas chinesas neste ano, em especial de empresas que já comercializam no exterior, mas querem raízes mais fortes próximas de casa. Muitas empresas chinesas que operam em Wall Street, incluindo a Alibaba (BABA), a NetEase (NTES) e a JD.com, têm realizado ofertas secundárias em Hong Kong à medida que as tensões entre Washington e Pequim aumentam.

Tanto a NetEase quanto a JD.com, por exemplo, deixaram claro nos arquivos do início deste ano que acham que os Estados Unidos estão se tornando mais hostis em relação a empresas chinesas, enquanto reguladores e legisladores analisam novas regras que levariam a uma supervisão mais rigorosa.

Essas preocupações parecem estar se concretizando. Na semana passada, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou um projeto de lei que impediria empresas que se recusam a abrir seus livros aos reguladores contábeis dos EUA de negociar em bolsas de valores norte-americanas. A legislação obteve apoio unânime no Senado no início deste ano, o que significa que só precisa da assinatura do presidente Donald Trump para se tornar lei.

Hong Kong, por sua vez, tem feito mudanças que poderiam atrair mais empresas de tecnologia chinesas. A Hang Seng Indexes, principal compiladora de índices da cidade, lançou um índice de tecnologia semelhante ao Nasdaq para rastrear as maiores empresas de tecnologia que operam na cidade.

A compiladora de índices também alterou as regras em maio, para permitir que as empresas que escolheram Hong Kong para sua listagem secundária aparecessem no índice Hang Seng de referência da cidade, uma decisão que abriu caminho para o índice adicionar o Alibaba e a Xiaomi como constituintes em setembro.

No entanto, ainda existem riscos para Hong Kong.

Analistas da Société Générale observaram nesta semana que as ações chinesas estão enfrentando ventos contrários por causa das sanções dos EUA sobre suas empresas, que poderiam cortá-las de tecnologias-chave ou reduzir investimentos.

Por exemplo, a fabricante chinesa de chips SMIC (SMICY), que opera em Hong Kong e Xangai, foi adicionada na semana passada a uma lista do Departamento de Defesa dos EUA que proíbe investimentos de norte-americanos.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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