Análise: Mau humor de Trump por derrota eleitoral deixa desempregados 'no limbo'

Presidente aproveita os últimos dias de mandato para 'se vingar' de quem não apoia sua contestação ao resultado das eleições e quem sofre é o povo americano

Análise de Kevin Liptak, da CNN
27 de dezembro de 2020 às 20:42
O atual presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca
Foto: Hannah McKay - 24.nov.2020 / Reuters 

O mau humor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está piorando— e o país está sofrendo por causa de sua raiva.

Furioso com os líderes republicanos do Senado, por reconhecerem a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais deste ano, Trump até agora rejeitou o pacote de estímulos fiscais, aprovado pelo Congresso americano, que visa conter os estragos econômicos causados pelo coronavírus. E com isso, o presidente pejudica milhões de cidadãos desempregados e constrange seus antigos aliados políticos.

Convencido que as grandes companhias por trás das redes sociais ajudaram a fraudar a eleição contra ele, Trump vetou o "National Defense Autorization Act", que é o projeto de lei que financia a estrutura militar do país, só porque não revogava as proteções de responsabilidade das big techs.

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Insistindo que seu próprio governo está trabalhando contra ele ao ignorar alegações de fraude eleitoral, Trump flerta com a possibilidade de desligamentos, enquanto aproveita férias de inverno no sul da Flórida e o país registra o mês mais fatal desde o início da pandemia — em dezembro, mais de 63.000 americanos morreram por causa Covid-19 até este domingo (27).

Ansioso para desqualificar as investigações sobre seu próprio comportamento e o de seus aliados, ele está usando de seus amplos poderes para eliminar as denúncias feitas pelo procurador Robert Mueller, minando o processo judicial.

Movido pelo ressentimento, Trump quer garantir que nenhuma mágoa fique impune antes de deixar o cargo. Ele está usando os dias que ainda tem como presidente para acertar as contas, mesmo que quem sofra as consequências nada tenha a ver com suas conspirações ou seu ego ferido.

Como Trump se recusou a sancionar o pacote de estímulo da Covid-19 — que seus próprios assessores ajudaram a redigir —, milhões de americanos que estão gastando o que resta do seu auxílio-desemprego ficam sem saber se ou quando receberão mais assistência.

Estima-se que 12 milhões de americanos que foram demitidos já receberam o último pagamento do benefício nesta semana, de acordo com a The Century Foundation. A legislação que Trump se recusa a assinar estenderia o número de parcelas de dois benefícios relacionados ao desemprego e aumentaria o auxílio semanal em US$ 300 até meados de março.

Neste fim de semana, Trump continuou a exigir que os cheques fossem aumentados de US$ 600 para US$ 2.000 — um valor que os democratas apóiam, mas que já não pode ser votado porque a correção no projeto foi feita um dia depois que o Congresso entrou em recesso, deixando os americanos desempregados "no limbo".

O fato de Trump não ter feito suas exigências com antecedência sugere que ele estava prestando pouca atenção em como a legislação estava caminhando no Congresso e que a comunicação com os republicanos no Senado piorou muito depois que eles reconheceram a vitória de Biden nas eleições.

"Não ficou claro se o presidente realmente estava prestando atenção ao projeto, porque havia muitas outras coisas acontecendo para ele", disse o deputado Don Beyer, um democrata da Virgínia, no "Newsroom" da CNN no sábado (26).

Essas "outras coisas" se concentraram principalmente em suas tentativas malsucedidas de derrubar a eleição, que ganharam pouca força. Os líderes republicanos do Senado, que inicialmente apoiaram os esforços de Trump para contestar os resultados da disputa eleitoral na Justiça, passaram a parabenizar Biden por sua vitória. Trump se enfureceu e saiu à procura de vingança.

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Sua recusa até agora em assinar o pacote de estímulo foi vista por alguns funcionários republicanos como uma forma de "dar o troco". Trump chamou o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, de "mesquinho", por não querer dar benefícios mais altos aos americanos, embora os próprios negociadores da Casa Branca propusessem cheques de US$ 600 durante as conversas iniciais.

No sábado, Trump atacou novamente McConnell. Em um post no Twitter, disse os republicanos do Senado "não fazem NADA" para ajudar a reforçar suas alegações (infundadas) de fraude eleitoral. Ele se referiu ao líder da maioria no Senado como "Mitch" e fez pouco para neutralizar a impressão de que sua fixação na eleição está obscurecendo qualquer tentativa real de governar.

Em outro tweet, ele fez uma referência aos grandes protestos esperados em Washington, para 6 de janeiro, em torno da ratificação formal no Congresso da vitória eleitoral de Biden — um evento que Trump está convencido que pode ser interrompido com a ajuda dos conservadores e de seu vice-presidente.

O deputado Adam Kinzinger considera essa ideia "uma farsa". Neste domingo (27), o republicano de Illinois disse a Dana Bash da CNN que espera que, quando o Congresso se reunir para afirmar a vitória de Biden, "isso vai decepcionar as pessoas que acreditam que esta eleição foi roubada, que acham que esta data é uma oportunidade para mudar esse resultado."

Kinzinger disse ainda que se Trump queria que o auxílio fosse de US $ 2.000, ele deveria ter incluido esse valor no projeto que foi enviado ao Congresso e "negociar isso desde o início".

"Vamos discutir isso depois que o projeto de lei for assinado, porque, agora, estamos em um ponto em que as pessoas ficaram no escuro", continuou ele.

"Não entendo o que ele está tentando fazer, a menos que seja apenas para criar caos e mostrar poder, porque está chateado com a eleição. Do contrário, não entendo, porque esse questionamento está sendo feito. Muitas pessoas estão contando com isso. Nós trabalhamos duro. Deveríamos ter aprovado esse pacote muito antes. E agora, ficamos em apuros, depois que o próprio presidente negociou algo que ele agora diz que não quer. É surpreendente", disse.

Outros membros do partido do presidente também estão frustrados. "A razão pela qual isso surpreendeu a todos é porque pensamos que o presidente estava envolvido, quando na verdade ele estava 'dormindo no ponto' enquanto se desenrolavam as negociações", disse o deputado Denver Riggleman, um republicano da Virgínia que não voltaria ao Congresso, no sábado na CNN. "Isso é o que acontece quando você fica muito envolvido em uma eleição que já perdeu", disse ele.

Dividir a culpa

Trump parece menos focado nas dificuldades dos americanos do que em seus próprios problemas pessoais. Mesmo durante um feriado, em que o peso da pandemia acabou com a vontade dos americanos de comemorar, ele ficou em silêncio.

No sábado (26), o país atingiu uma marca sombria: um em cada 1.000 americanos morreu de Covid-19 desde a primeira infecção no país, no final de janeiro. E no domingo (27), o Dr. Anthony Fauci, o maior especialista em doenças infecciosas dos EUA, expressou preocupação com a possibilidade de a pandemia piorar nas próximas semanas.

"A razão pela qual estou preocupado, e meus colegas da saúde pública também, é que podemos prever perfeitamente um aumento sazonal dos casos, depois do Natal e do Ano Novo, e porque estamos entrando no final do outono e no início do inverno. É realmente muito preocupante", disse Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas à CNN. "Estamos realmente em um ponto muito crítico."

Mas o presidente passou o fim de semana reclamando no Twitter sobre as autoridades que se recusaram a apoiar seus esforços para derrubar o resultado das eleições presidenciais no tribunal — uma lista que agora abrange todos os três poderes do governo.

A Suprema Corte, que no início deste mês se recusou a ouvir o caso de Trump, "foi totalmente incompetente e fraca", declarou o presidente no Twitter, neste sábado (26). Ele reclamou que as agências de seu próprio governo "deveriam ter vergonha" por não aceitar suas exigências para investigar uma fraude generalizada, alertando-as de que "a história se lembrará".

Ele também continuou criticando os republicanos do Senado por não terem "avançado e lutado pela presidência, como os democratas fariam se tivessem realmente vencido".

E na madrugada de domingo (27) — cerca de meia hora após o término do período de seguro-desemprego para milhões de americanos — o presidente retuitou sua declaração em vídeo sobre o pacote de estímulos, publicada originalmente no Twitter na semana passada.

"Falando pela América!" ele escreveu junto com o primeiro vídeo e depois criticou o projeto em um comentário acima do segundo.

Em nenhum lugar Trump mencionou a perspectiva de uma paralisação do governo, que agora se estende inesperadamente durante o período de férias, depois que ele se recusou a assinar o plano de financiamento anexado ao pacote de auxílios do coronavírus.

Nesse vídeo que ele gravou rejeitando o pacote, na semana passada, Trump reclamou do plano de financiamento que é quase idêntico ao que ele propôs em seu orçamento neste ano. Quando questionado sobre esse fato nesta semana, em seu clube, Trump atribuiu os números — principalmente sobre ajuda externa — ao "deep state" ("estado profundo", em tradução livre), de acordo com uma fonte que acompanhou as conversas.

Também foi o "deep state" que Trump culpou pelas investigações sobre si mesmo e seus associados — esforços que ele agora está tentando minar.

O poder do perdão

Trump já perdoou quatro associados — incluindo o amigo Roger Stone e o ex-presidente da campanha Paul Manafort — que foram condenados pela investigação de Mueller. Trump diz que a ação é uma tentativa ilegal de deslegitimar sua presidência.

Na semana passada, Trump também concedeu perdão à condenação de quatro seguranças da Blackwater pelo massacre de civis no Iraque.

Esse movimento também parece uma tentativa de minar um sistema de justiça que Trump acredita ter falhado com ele. O dano, tanto para quem investigou e processou os casos, como para quem arriscou tudo para depor neles, é grande.

"É esmagador. Não há outra maneira de descrever", disse Andrew McCabe, o ex-vice-diretor do FBI que foi atacado por Trump, destacando o caso Blackwater em particular. "É a única maneira de descrever isso."

Ainda assim, na visão de Trump, ele é a vítima da corrupção e criminalidade generalizadas, uma postura que agora está conduzindo muitas de suas ações à medida que seu mandato se aproxima do fim.

Trump está reclamando incansavelmente da Seção 230, uma lei que isenta as empresas de mídias sociais da responsabilidade pelo que é postado em seus sites. Trump alegou que empresas como o Twitter fazem parte de uma "cabala democrata", por rotulamr seus tweets falsos como desinformação — inclusive isso aconteceu diversas vezes no sábado (26).

Durante uma partida de golfe com o senador Lindsey Graham no dia de Natal, Trump continuou a expressar sua insistência para que a Seção 230 fosse revogada.

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Na semana passada, o presidente vetou o projeto de lei conhecido como "National Defense Authorization Act (NDAA)", em parte, porque ele não cortou as proteções dadas às empresas de tecnologia. A medida marcou o que poderia ser a primeira anulação de veto de sua presidência, o que colocaria membros de seu próprio partido contra ele.

No entanto, se o NDAA não se tornar lei, quem vai sentir os efeitos não serão os republicanos desleais. Em vez disso, as tropas americanas e suas famílias vão ficar sem ajuste salarial, seguro de periculosidade e licença-maternidade, que estão incluídos na conta, bem como novos benefícios para veteranos do Vietnã expostos a armas químicas e projetos de construção em bases militares.

Assim como sua rejeição ao pacote de estímulo, o veto ao NDAA representa um teste de lealdade para os republicanos, que pelo menos por quatro anos não devem estar dispostos a romper com o líder de seu partido.

"Definitivamente haverá aqueles que votarão com o presidente. Muito disso tem a ver com sua base eleitoral, arrecadação de fundos, ou até mesmo ameaças. Acho que eles estão com um pouco de medo de se levantar e sair agora", disse Riggleman, um ex-oficial de inteligência da Força Aérea que perdeu a indicação do Partido Republicano em seu distrito este ano depois de celebrar um casamento entre pessoas do mesmo sexo.

“Muitos de nós estão sendo chamados de traidores, seja quem quer anular o veto sobre o NDAA ou deseja aprovar o pacote da Covid-19, ou então quem não concorda com absurdo ridículo do 'Stop the Steal' [projeto de Trump para contestar o resultado das eleições]”, disse Riggleman.

"Muito disso é baseado na loucura das teorias da conspiração e na desinformação; Acho que precisamos nos levantar e parar com esse absurdo o mais rápido possível. Está simplesmente fora de controle agora."
Kinzinger disse a Bash que a medida "foi vetada por razões absurdas", afirmando que a NDAA é "um grande projeto de lei".

"Esse projeto é algo que temos feito por 50 anos consecutivos. Foi vetado por motivos absurdos. Toda esta Seção 230, que não tem nada a ver com a defesa nacional ou o NDAA. Alguém acabou de falar no ouvido do presidente e o convenceu," disse ele.

"Não poderia justificar se votasse a favor desse projeto e depois votasse para sustentar o veto do presidente, em vez de anulá-lo. Não sei como você justifica isso, além de dizer: 'Eu só vou fazer o que o presidente quiser'. Este é um grande projeto de lei. Ajuda muito a fortalecer nossas defesas cibernéticas, que, como vimos, são extremamente vulneráveis. Como é possível sustentar o veto do presidente, depois que você votou a favor deste projeto? Eu apenas não entendo."

Chandelis Duster, da CNN, contribuiu para este artigo.