Boa Vista tem R$ 1 bi para ir às compras e quer digitalizar a 'limpeza de nome'

Aquisições começaram pela plataforma de negociação de dívidas online Acordo Certo

Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de dezembro de 2020 às 05:00
Boa Vista e Acordo Certo
À direita, Dirceu Gardel, CEO da Boa Vista, ao lado de Dilson Sá, presidente da Acordo Certo
Foto: Divulgação 

O brasileiro continua bastante endividado. Em novembro, de acordo com dados da Confidereação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismos (CNC), o percentual da população que possuía alguma dívida ficou em 66%.

O número até que apresentou uma queda pequena (de 0,6 ponto percentual) e voltou aos patamares pré-pandemia – mas ainda se trata de uma oportunidade e tanto para as empresas especializadas em cobranças.

A Boa Vista (BOAS3) é uma delas. A empresa, aliás, aposta bastante no crescimento. Não por acaso, decidiu abrir capital em 2020 para acelerar essa alta. No fim de setembro, a companhia fez a sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na B3 (B3SA3) e captou R$ 2,7 bilhões, sendo R$ 1,3 bilhão destinado somente para aquisições. A ordem agora, portanto, é ir às compras. 

Mais de 95% do valor levantado no IPO serão destinados a aquisições de concorrentes e complementares, disse o presidente da empresa, Dirceu Gardel, em entrevista ao CNN Brasil Business. A primeira dessas compras foi da Acordo Certo, plataforma online de negociação de dívidas.

O motivo da escolha? “Complementar nossa estratégia de negócios. Eles sabem fazer algo que a gente não sabe: atender pessoa física, de forma digital e humanizada”, explica Gardel. Com uma operação volta a credores, a interação da Boa Vista com devedores até agora era tratada de forma pragmática. 

Em 2020, a situação da inadimplência se agravou ainda mais no país e atingiu quase 70% das famílias brasileiras em agosto, conforme informou o CNC. O dado preocupante aumentou o mercado da Acordo Certo, que sempre teve como foco o atendimento de pessoas físicas, e chamou a atenção da Boa Vista.

“As grandes empresas de cobrança sempre perseguiram o endividado com uma abordagem truculenta e até com ameaças. A gente entendeu que isso trouxe um impacto social gigante e quis criar uma abordagem 100% digital, que possa estender a mão a esse endividado”, conta Dilson Sá, CEO da startup criada em 2016.

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Cobranças na porta de casa, ligações insistentes e SMS diários pressionando os endividados, práticas comuns de grandes bancos e instituições financeiras, não combinam com a estratégia da Acordo Certo. O objetivo da startup é oferecer soluções, sejam elas grandes descontos ou parcelamentos mais espaçados, sem assediar o devedor que, neste caso, é também o cliente.

Com o uso de inteligência artificial, a startup realiza análises mais precisas de crédito para encontrar esses consumidores em potencial. Aliás, a construção e triagem de grandes bancos de dados, em larga escala, é um ponto forte da Acordo Certo — e outra prioridade da Boa Vista nos investimentos derivados do IPO. 

“Um pedaço bem menor dessa arrecadação vai para crescimento orgânico da nossa área de analytics, porque entendemos como parte fundamental da nossa estratégia essa nossa base de dados, a busca pela melhor informação, extração do dado com maior valor agregado pro mercado”, diz Gardel, da Boa Vista.

A principal razão para isso é o objetivo de expansão do portfólio de produtos antifraude da empresa. Especialmente agora, com a chegada do Pix e o início da implementação do open banking no Brasil. 

Neste outubro, bancos registraram aumento de 80% nas tentativas de ataques de phishing (roubo de dados por e-mail) e uma alta de 70% na fraude do “falso funcionário”, conforme informou a Febraban. A Boa Vista está de olho na oportunidade e quer proteger tanto empresas quanto pessoas físicas de golpes como estes.

Mais endividados

“A pandemia foi muito positiva para a Acordo Certo. Infelizmente, para a humanidade, uma tragédia. Mas houve aceleração nas duas pontas: aumentamos a recepção de carteiras de credores, que precisam cobrar digitalmente, e também cresceu o número de inadimplentes”, diz Sá.

Com as portas fechadas, devido às restrições à circulação de pessoas, o varejo e outros estabelecimentos precisaram encontrar novas formas de cobrar seus devedores. E um aplicativo que resolve tudo à distância, parece ser a solução perfeita.

“Impressionante como essa transição foi rápida. Acreditamos que, mesmo depois que a pandemia for controlada, credores e endividados devem continuar a optar pelas facilidades do nosso serviço”, completa o CEO da Acordo Certo.

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Já para a Boa Vista, houve uma queda no volume de carteiras de negativações e débitos. De acordo com Gardel, isso se deve aos esforços do governos e do Banco Central (BC) para incentivar o crédito e a renegociação de dívidas direto entre as partes. Mas a conta deve chegar em breve, acredita o presidente.

“Existe uma inadimplência represada e o próprio BC sabe disso. Esse débito vai se apresentar no começo do segundo trimestre do ano que vem, nós projetamos.”

Cadastro positivo

Por outro lado, a pandemia acelerou a adoção de produtos que trabalham com dados do cadastro positivo, conta o CEO da Boa Vista. No momento em que o relacionamento com clientes passou a ser 100% digital e à distância, o varejo e os demais fornecedores de crédito precisaram começar a ser ainda mais assertivos em suas taxas e ofertas.

Desde que o sistema de entrada no cadastro positivo mudou de “opt-in” para “opt-out” — ou seja, agora, o consumidor precisa informar se NÃO quiser ter suas informações compartilhadas — milhões a mais de brasileiros passaram a entrar no banco de dados de bancos e instituições financeiras, que comemoram.

“O mercado tem recebido muito bem essa mudança, porque a análise de crédito e a assertividade de ofertas tem aumentado muito com esse sistema”, diz Gardel.

Mas 12 meses após a transição, executivos da área ainda esperam a entrada de mais consumidores em suas bases, com a aderência da galinha dos ovos de ouro quando o assunto são dados: as companhias telefônicas.

“O que veio de informação foi de bancos, consórcios, empresas reguladas. A gente tem trabalhado para que as telecoms e outros players compartilhem seus dados. A previsão era de que isso acontecesse em outubro e, lamentavelmente, não conseguimos. A gente agora está esperando essa entrada para janeiro ou fevereiro”, conta o CEO da Boa Vista.

O que se espera é que, com a chegada de telecoms, cerca de 20 milhões de novos CPFs entrem no sistema do cadastro positivo. São pessoas com renda, mas ‘desbancarizadas’. “Essa será a maior democratização desse sistema”, espera Gardel.