Churrasco bomba na pandemia e cresce busca por carnes, acessórios e restaurantes

Churrasco é o queridinho da gastronomia contemporânea, apesar da queda do poder aquisitivo do brasileiro e do aumento do preço da carne bovina

Paty Moraes Nobre, colaboração para o CNN Brasil Business, em São Paulo
17 de janeiro de 2021 às 05:00
Churrasco
Foto: Andrik Langfield/Unsplash

Na contramão da crise, os números do churrasco no Brasil explodem: pesquisas no Google atingem níveis jamais registrados, houve crescimento nas vendas e muito investimento no segmento, que deve seguir superaquecido até 2022.

A falta de opção de lazer fora de casa, além da vontade de diversão reprimida nos dias de isolamento social, potencializou a recreação doméstica, o delivery e a busca por restaurantes especializados. 

De acordo com o agrônomo e consultor Roberto Barcellos, o churrasco é o queridinho da gastronomia contemporânea, apesar da queda do poder aquisitivo do brasileiro e do aumento do preço da carne bovina --que subiu 19,2% em 2020, segundo o IBGE.

"Precisamos separar a carne do dia a dia da carne do churrasco. O nicho do churrasco tem um poder aquisitivo maior", afirma Barcellos. Ele cita como exemplo o surgimento de verdadeiras grifes de carne in natura, que chegam a ultrapassar R$ 350 o quilo.

No entanto, um fenômeno isolado aproxima preços dos cortes de brasa aos da mesa no varejo, o que também contribui para o cenário positivo da prática. "No mercado, sempre tem uma carninha boa de churrasco que está quase no preço da carne moída. Encontro picanha, ancho e maminha abaixo de R$ 50/kg. Considerando o 'boi ralado' (gíria para carne moída) a R$ 38/kg, no caso do patinho, não resisto", conta o engenheiro civil Bruno Machado, de Brasília.

Alta nas vendas de carne e novos produtos

Dados exclusivos enviados pela Marfrig mostram aumento de 30% nas vendas dos cortes premium para o churrasco no país em 2020. O investimento em marketing dobrou em relação a 2019, com a contratação do cantor Michel Teló, da webcelebridade internacional SaltBae, ativação de marca na final da Champions League e em emissoras de TV fechada. O frigorífico ainda lançou a Montana Steakhouse, uma marca focada em churrasco e celebração. 

A Minerva Foods afirma que, por um tempo, em 2020, o consumidor migrou para cortes mais baratos. Porém, a partir do terceiro trimestre, houve crescimento na demanda por carnes especiais, de churrasco. De olho nisso, a empresa expandiu o portfólio lançando diversos cortes com osso nas linhas Estância 92 e Minerva Angus, como t-bone, assado de tira e costela janela, por exemplo. 

O ano também foi de alta nas vendas para o clube de churrasco World Steak, que monta caixas com produtos específicos para o preparo em casa. "Crescemos 50% de janeiro a dezembro e percebemos um aumento gradativo e rápido a partir do início da pandemia. E 2021 promete", diz Arnaldo Neto, proprietário da empresa.

As vendas mais que dobraram para a Intermezzo Carnes, que porciona carnes para restaurantes e atende o consumidor final via delivery e na loja física em São Paulo. "A venda para pessoa física aumentou muito, mais de 100%", diz Darcio Lazzarini, diretor de Operações. 

Busca por churrasqueiras e acessórios 

As carnes são as protagonistas, mas as churrasqueiras, segundo dados exclusivos do Google, foram a grande vedete no site de buscas.

A Tramontina, marca que investe forte no segmento do churrasco há mais de seis anos, lucrou com esse movimento. Segundo Marcos Grespan, diretor comercial, a submarca de churrasco registrou um crescimento de 26% nas vendas no mercado interno no período. Para este ano, projeta um crescimento de mais de 20%. Por isso, é a área que recebe o maior investimento de marketing. 

"O churrasco é uma instituição com identidade própria. Podemos afirmar que não exportamos apenas produtos para churrasco, mas, sim, a própria cultura do churrasco brasileiro", afirma Grespan. 

Quem também aproveitou a onda foi a Kings Barbecue, fabricante de pit, equipamento para defumação de carnes no estilo do churrasco americano. Segundo o sócio-proprietário Ricardo Durante Lopes, as linhas domésticas de churrasqueiras, tanto para o churrasco americano quanto para a nossa tradicional grelha, dispararam.

Máximo Ikeda, diretor comercial da Giragrill, concorda. “Foi um ano muito bom, acima das expectativas. Tivemos um boom, de junho a novembro, que a gente nunca viu, e ficamos 35% acima de 2019 em peças vendidas”, diz Máximo, que destaca um ticket médio de R$ 1.200 nas compras.

Bebidas e molhos tentam aproveitar 

De olho nesse cenário, marcas de bebidas e insumos tentaram pegar carona no sucesso do churrasco.

Com o slogan "Seu BBQ merece um Jack", a comunicação do uísque Jack Daniel's por aqui foi adaptada para evitar qualquer tipo de incentivo a aglomerações entre consumidores, mas não deixou de evidenciar o churrasco. "E planejamos continuar explorando essa relação entre Jack e churrasco este ano", diz Caio Almeida, gerente no Brasil.

Para Alexandre Bratt, CEO da importadora de vinhos Grand Cru, a empresa também busca abordar a harmonização com a carne, o hambúrguer e o churrasco. A empresa viu o e-commerce vender 2,5 vezes mais do que no pré-pandemia e o clube de assinatura pular de 3.000 para 10 mil assinantes.

A marca norte-americana de molho de pimenta Tabasco buscou reforçar a relação com o universo das carnes com lives no Instagram e chefs ensinando receitas e preparos rápidos. "E a carne foi protagonista em vários desses episódios. Também apoiamos eventos focados nesse universo, que é o principal do segmento atualmente. Para 2021, vamos manter a carne como um de nossos focos, expandindo nossas ações para além das regiões Sul e Sudeste do país", afirma Heidi Heidi McCollum, diretora de Vendas da empresa no Brasil.

Inauguração em plena pandemia

Para Daniel Lee, renomado profissional do ramo da carne, que inaugurou há um ano o primeiro restaurante próprio, o Bark & Crust, na capital paulista, os projetos seguem ambiciosos: após investir quase R$ 2 milhões na operação, que comporta açougue, bar, loja, padaria e restaurante, o plano é investir mais R$ 600 mil este ano em duas dark kitchens, com espaços para preparação de churrasco e hambúrgueres para atender apenas delivery.

O empresário Felipe Aversa, sócio-proprietário do festival Churrascada, evento que reúne milhares de entusiastas do churrasco desde 2015, viu a festa ser cancelada, mas, mesmo assim, não deixou de apostar na paixão pelo churrasco. Em agosto passado, inaugurou o restaurante Fazenda Churrascada, na região sul de São Paulo. Ali emprega 160 funcionários, atende 15 mil clientes por mês desde a abertura, em plena pandemia, e abriga o primeiro açougue boutique da marca premium 481 (inicialmente, e-commerce), que registrou um crescimento de 300% nas vendas em 2020.

"Construímos o projeto em cima de todos os protocolos. Já abrimos com distanciamento social, num lugar a céu aberto, ventilado, arborizado e com conforto. Com a vacina, estamos otimistas com, inclusive, com a volta da realização do festival Churrascada em agosto deste ano", diz.