Com retração econômica, contas externas do Brasil têm menor déficit em 13 anos

Os investimentos estrangeiros diretos no país despencaram mais de 50% sobre 2019, somando US$ 34,167 bilhões

Isabel Versiani, da Reuters
27 de janeiro de 2021 às 14:03
Gasto de dinheiro
Foto: Jp Valery / Unsplash

Com a demanda doméstica por bens e serviços importados abalada em ano marcado pela pandemia do coronavírus, o Brasil fechou 2020 com déficit em suas transações correntes de US$ 12,517 bilhões, acima do projetado pelo Banco Central, mas ainda assim o menor rombo desde 2007.

Por outro lado, também refletindo a forte retração econômica doméstica e global, os investimentos estrangeiros diretos no país despencaram mais de 50% sobre 2019, somando US$ 34,167 bilhões --menor ingresso desde 2009.

Dados divulgados nesta quarta-feira pelo BC mostram que o rombo externo do ano, que correspondeu a 0,87% do PIB, caiu 75% sobre 2019. A queda foi puxada por uma redução dos déficits na conta de serviços (-43%) e no volume de lucros remetidos ao exterior por empresas (-46%). Também contribuiu para a melhora do saldo um crescimento de 1% do superávit comercial, refletindo queda das importações superior à retração vista nas exportações.

 "A razão econômica para isso é evidente para todos, a pandemia global de coronavírus causou uma recessão no país", disse o diretor do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, ao comentar os dados.

Apenas as despesas dos brasileiros com viagens internacionais caíram US$ 12,2 bilhões em 2020, prejudicadas também pelo câmbio desvalorizado, e somaram US$ 5,4 bilhões.

O BC previa déficit em transações correntes de US$ 7 bilhões para o ano. Para 2021, quando a expectativa é de crescimento do PIB, a estimativa da autarquia é que o rombo externo aumente, chegando a US$ 19 bilhões.

Investimentos

Se os investimentos estrangeiros diretos no país caíram de forma expressiva no ano da pandemia, o impacto sobre os investimentos brasileiros no exterior foi ainda maior. Em 2020, esses fluxos líquidos foram negativos em US$ 16,419 bilhões, representando um desinvestimento.

O dado se compara a um investimento líquido de US$ 22,8 bilhões em 2019.

Segundo Rocha, do total de US$ 20,2 bilhões que regressaram ao Brasil em investimentos, cerca de 75% foram do setor financeiro, em movimento que ele associou às mudanças nas regras tributárias do "overhedge", que entraram em vigor neste ano, reduzindo o volume de proteção que as instituições precisam manter para fazer frente a sua exposição cambial.

"Com a mudança regulatória, as instituições acharam que o seu perfil de negócios, de investimento, poderia ser outro", disse Rocha. "Esse valor que retorna pode representar um ingresso no mercado de câmbio ou pode ser neutralizado se a instituição casar os seus fluxos com algum outro."

No ano, US$ 8,499 bilhões em investimento em carteira deixaram o país. Em 2019, a saída havia sido de US$ 6,693 bilhões.

Dezembro

No último mês de 2020, o país registrou o primeiro déficit em transações correntes após oito meses seguidos de superávit, de US$ 5,393 bilhões.

O dado foi afetado por uma operação programada de nacionalização de plataformas de petróleo, em adequação a mudanças no programa Repetro, que dá benefícios tributários ao setor de petróleo e gás. Essa nacionalização, computada como uma importação, foi no valor de US$ 5,1 bilhões em dezembro.

O resultado do mês veio melhor que o déficit de US$ 5,7 bilhões esperado por analistas em pesquisa da Reuters.

Por sua vez, os investimentos diretos no país (IDP) alcançaram US$ 739 milhões no mês, bem abaixo da expectativa do mercado, de US$ 3 bilhões.

Para o mês de janeiro, o BC projetou déficit em transações correntes de US$ 8 bilhões e IDP de US$ 2,8 bilhões. Até o dia 22 deste mês, o fluxo cambial ficou positivo em US$ 3,367 bilhões, disse ainda o BC.