CNI projeta desemprego em 14,6% em 2021, acima do de 2020, e alta de 3% no PIB

Para a Confederação da Indústria, efeitos da retomada no mercado de trabalho devem ser vistos somente no início do segundo semestre

Amanda Pupo, da Agência Estado
22 de março de 2021 às 16:10
Dinheiro
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Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

 

A proporção de desempregados poderá alcançar seu maior nível em 2021, com taxa de desocupação média de 14,6%, projeta a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em Informe Conjuntural divulgado nesta segunda-feira (22), a entidade considerou que, no cenário básico da economia, a recuperação da atividade começará em maio.

Os efeitos da retomada no mercado de trabalho, no entanto, devem ser defasados e se iniciar somente no início do segundo semestre.

 

Nesse cenário, parcela da população que estava fora do mercado de trabalho, seja por desalento, receio da pandemia, ou por ter recebido algum tipo de auxílio governamental, deverá voltar a procurar emprego.

"A taxa de desocupação deve crescer e registrar um novo recorde no segundo trimestre", disse a CNI. Dentro desse arranjo, o número de pessoas ocupadas será maior ao fim de 2021, na comparação com 2020, avaliou a entidade.

No entanto, com as pessoas voltando a procurar emprego, ou seja, com o crescimento da força de trabalho, a taxa de desocupação média de 2021 será de 14,6%, superior aos 13,5% observados na média de 2020, projetou a CNI.

No relatório, a entidade destacou que o emprego começou em alta no início do ano, conforme os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Contudo, o aumento de casos de covid e as medidas de isolamento social deverão provocar uma queda na atividade econômica e a interrupção das contratações.

PIB 2021 deve cresce 3% e indústria, 4,3%

Diante das incertezas sobre a evolução da pandemia e quais medidas econômicas serão adotadas, a CNI estimou três possíveis caminhos para o crescimento da atividade brasileira em 2021. No cenário base, o PIB terá alta de 3% e a indústria crescerá 4,3%, segundo o Informe.

Nesse ambiente, a CNI considera que as medidas restritivas adotadas em razão da covid-19 serão mais amplas e duradouras que no cenário otimista, que estima crescimento de 4,5% da economia.

A previsão de o PIB crescer 3% neste ano considera que a atividade econômica inicia uma recuperação em maio, depois de uma queda de 7,2% em março e abril.

"O efeito do aumento dos juros também se faz presente neste cenário, reduzindo o ritmo de crescimento na comparação com 2020. O PIB não deverá retornar ao patamar pré-pandemia antes do último trimestre de 2021", afirmou a CNI, destacando que a marca de 3% é um desempenho negativo, considerando que o efeito carregamento de 2021 é de 3,6%.

Nesse cenário, o crescimento do PIB industrial será puxado pela indústria de transformação, com alta de 5,7%. A indústria extrativa crescerá 2%, e a indústria de construção 4%. A interrupção do ciclo de recuperação econômica registrado no fim de 2020 pelo aumento de casos de covid-19 é ressaltado no relatório, assim como a adoção de novas medidas restritivas pelos governos estaduais.

"Trouxe muita incerteza, consolidando a perspectiva de nova retração econômica ao fim do primeiro semestre de 2021", alertou a entidade, para quem ainda não está "clara" a profundidade da queda da atividade, nem se haverá medidas de apoio às empresas. A CNI também destacou as incertezas quanto ao programa de vacinação.

"Espera-se que, à medida que a vacinação progrida e alcance a maioria da população de maior risco de internação, caia a pressão sobre o sistema de saúde e se permita novamente uma abertura gradual da economia", disse a entidade.

No cenário otimista de recuperação da economia, com projeção de alta de 4,5% do PIB, a CNI considera que as medidas já adotadas contra a covid serão suficientes para desafogar o sistema de saúde, seguidas de uma abertura que permita a "recuperação rápida" das atividades a partir de maio.

Nesse caso, a queda no acumulado de março a abril seria de 3,6%. Em termos otimistas, a entidade leva em conta ainda que a superação da segunda onda permitirá o avanço "relevante" de reformas para redução do custo Brasil e aumento da competitividade, como a tributária.

Diante desse contexto, o PIB Industrial poderá crescer 6,9%, puxado pela alta de 9,7% da indústria da transformação. "Essa agenda (de reformas estruturais) deverá ser perseguida ao mesmo tempo que se cuida dos problemas de curto prazo. Só assim o Brasil voltará a crescer a taxas superiores a 2% ao ano", disse o economista-chefe da CNI, Renato da Fonseca.

Já no cenário pessimista, a CNI considera que o PIB poderá ter um desempenho fraco em 2021, crescendo apenas 0,6%, com uma alta de 1,3% do PIB Industrial. Nesse caso, a entidade leva em conta que uma piora significativa da situação sanitária obrigará os entes públicos a endurecer as medidas de distanciamento social. Com isso, projeta-se uma retração de 11,8% da atividade em março e abril.

"A recuperação se iniciará em maio, mas apenas no final do mês. Como ocorreu em 2020, o consumo volta quase que imediatamente tão logo as medidas de isolamento social sejam suspensas. Logo, o ritmo da recuperação será mais intenso dos apresentados nos cenários base e otimista para poder reverter a queda inicial mais forte", afirmou a CNI, destacando que a agenda de reformas terá mais dificuldade de avançar nesses termos.

"A maior incerteza seria acompanhada de um cenário macroeconômico mais hostil, com taxas de câmbio, inflação e juros mais elevados. Apenas em 2022 a atividade retornará para o nível de atividade pré-pandemia, de fevereiro de 2020", avaliou.

Relação dívida bruta/PIB em 91,1%

A CNI projeta que a relação dívida bruta do setor público e PIB em 2021 deve alcançar o patamar de 91,1%, contra os 89% do PIB no ano passado. A estimativa é que o endividamento continue a subir, porém em ritmo mais moderado.

Caso o retorno de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao Tesouro Nacional não ocorresse, o endividamento público alcançaria 92,3% do PIB, pontuou a entidade.

Para a CNI, o cenário fiscal adverso vai dificultar a capacidade de o governo puxar a retomada da economia. Como o nível de despesas com a pandemia que se observou em 2020 não será igual neste ano, a contribuição do setor público para o crescimento será significativamente menor, avaliou a entidade.

A CNI afirmou que se o governo optar por elevar ainda mais o nível de despesas com esse fim, a sustentabilidade da dívida pública será colocada em jogo, o que aumentaria as desconfianças.

Para a entidade, apesar de incertezas, o Executivo sinaliza atualmente comprometimento com o processo de consolidação fiscal. Entre os indicativos está a aprovação da PEC Emergencial, que possibilitou uma nova rodada de auxílio vinculada a medidas de contenção de despesas.

"A CNI estima que as despesas relacionadas à pandemia fiquem em torno de R$ 84 bilhões, em 2021", projetou a entidade, que, por sua vez, não descarta futuras pressões por aumento de gastos sociais e socorro a empresas.

A CNI projeta também que as despesas primárias devem apresentar queda real de 22,5% na comparação com 2020, o que seria explicado fundamentalmente pela redução de despesas relacionadas à pandemia.

Os gastos com pessoal devem apresentar queda real de 2,3%, reflexo do congelamento de reajustes salariais e vedação às novas contratações de servidores. Já em relação às despesas previdenciárias, a CNI espera um crescimento real de 1,3% neste ano.

"A aceleração do INPC levou a um reajuste das despesas corrigidas por esse índice - salário mínimo e consequentemente, despesas previdenciárias - maior que o previsto inicialmente no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2021", apontou a entidade, que pontuou que esse ajuste pressiona as despesas sujeitas ao teto, o que vai gerar a necessidade de contingenciamento de R$ 1 bilhão nas despesas obrigatórias.

Por outro lado, a receita líquida deve apresentar crescimento real de 5% neste ano, em comparação a 2020. Segundo a CNI, isso se deve ao crescimento da atividade econômica e à base de comparação deprimida do ano passado.

Com esse cenário, de queda nas despesas e aumento de receitas, a entidade aponta para uma redução do déficit primário do governo central, que deverá encerrar 2021 em R$ 259,7 bilhões, acima da meta estabelecida na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021 (LDO).

Para os governos regionais, no entanto, a estimativa é de que o superávit primário seja reduzido, fechando o ano em R$ 200 milhões. Já as empresas estatais devem encerrar 2021 com déficit primário de R$ 3,9 bilhões.

Com isso, o setor público consolidado deve alcançar déficit de R$ 263,5 bilhões em 2021 (3,37% do PIB estimado pela CNI), contra déficit de R$ 702,9 bilhões em 2020 (9,48% do PIB). O resultado nominal do setor público consolidado deve ser deficitário em R$ 636,4 bilhões (8,14% do PIB estimado pela CNI), contra déficit de R$ 1.015,3 bilhões, em 2020 (13,69% do PIB).

Balança comercial Para a CNI, o setor externo vai contribuir positivamente para o crescimento do PIB em 2021 (estimado em 3% pela entidade no cenário base).

O resultado da balança comercial deve ser positivo em US$53,2 bilhões, segundo os dados do Ministério da Economia. Na comparação com 2020, o superávit comercial deve aumentar em US$2,3 bilhões.

A estimativa é de que as exportações aumentem para US$228 bilhões, um crescimento de 8,8% frente ao ano passado. Já as importações devem pular para US$175 bilhões, uma alta de 10,2%.