Com IGP-M nas alturas, FGV quer criar novo índice para reajuste do aluguel

A alta da inflação deve se manter até o país conseguir sair da pandemia, diz André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
04 de abril de 2021 às 05:00 | Atualizado 05 de abril de 2021 às 11:51

Na última terça-feira (30), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou que o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) subiu 2,94% em março. Com este resultado, o índice acumula alta de 8,26% no ano e de 31,10% em 12 meses. 

A título de comparação, em março de 2020, o índice havia subido 1,24% e acumulava alta de 6,81% em 12 meses. Isso mostra, como tem sido amplamente repercutido, o quão forte está sendo a pressão sobre os preços no último ano.

“Todos os índices componentes do IGP-M registraram aceleração", diz André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV. "Trata-se do maior valor para março desde o início do Plano Real."

Trata-se de um resultado alarmante para todos, mas que afeta diretamente alguns grupos específicos --como as pessoas que pagam aluguel, já que o índice é utilizado para reajustar contratos do gênero.

Pensando nisso, a reportagem do CNN Brasil Business conversou com Braz sobre o momento atual dos preços no país, distorções em setores específicos e prognósticos para o restante de 2021. Confira abaixo:

Como avaliam o resultado do IGP-M de março?

O resultado do IGP-M em março veio muito influenciado pelo reajuste da gasolina e do diesel, tanto no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que corresponde a 60% da cesta, como no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que reúne outros 30%.

Além disso, o IPA também mostra uma aceleração forte nas commodities, agrícolas e industriais, de mais de 70% em um ano. As matérias-primas nem tanto, mas bens intermediários e finais, sim.

O indicador já acumula alta de mais de 30% em 12 meses. Acredita em uma desaceleração ainda este ano?

Eu acredito que o indicador tem potencial para continuar avançando como está pelo menos até o final do primeiro semestre. Uma possível desaceleração só será possível na segunda parte do ano.

A Covid-19 está determinando a aceleração e a desaceleração da demanda por petróleo e, com várias economias reabrindo, vamos ter aumento da demanda e, consequentemente, de preços.

O viés é de alta porque o mundo inteiro está pelo menos um passo à nossa frente e vai retomar as atividades mais cedo. E esse desafio não fica só nos combustíveis, mas também na indústria química, nos defensivos agrícolas.

André Braz, FGV, IBRE
André Braz, da FGV
Foto: FGV/Divulgação
O IPCA, apesar de não ter saltado tanto em números absolutos, também está pressionado. Acredita que vai ficar no teto da meta?

É bem provável que a gente feche 2021 próximo do teto inflacionário. Minhas previsões mostram que o IPCA deve continuar avançando até junho, chegando até cerca de 7% em 12 meses, mas tende a desacelerar depois disso e acabar o ano por volta de 5,1%.

Mas isso vai depender muito do aumento da dívida pública e da prorrogação dos efeitos da Covid-19. O governo deu informações truncadas para a população no último ano, o que atrapalhou muito na gestão da pandemia.

Temos grandes cidades do Sudeste antecipando feriados, quando já devíamos estar pensando em uma retomada forte. Enquanto a gente viver este dilema, vamos continuar alimentando a inflação.

Pior que isso, a iniciativa privada não vai investir com tantas incertezas e o governo não tem dinheiro para estimular este movimento. Então, enquanto vemos as previsões de inflação aumentarem, também vemos as previsões para o PIB diminuírem.

O consumo das famílias voltou aos níveis de 2015 e 2016. A volta do auxílio emergencial pode ajudar nisso?

Os mais pobres sentiram uma inflação muito maior, de cerca de 20%. Só os mais ricos é que experienciaram este aumento de 4,5%. Não considero que a volta do auxílio vai resolver muita coisa.

Muitas pessoas de classe mais alta conseguiram manter empregos e salários durante a pandemia, mas e os prestadores de serviço? Que casa a diarista vai limpar? Que carro o guardador vai manobrar? O voucher não vai substituir esse buraco.

Voltando ao IGP-M, um dos setores mais afetados pelo movimento do índice foi o imobiliário, com alguns contratos sendo até modificados para o IPCA. Como avalia a questão?

O IGP-M não foi criado com o propósito de servir de referência para contratos imobiliários, mas foi adotado pelo setor. De todo modo, a gente percebe que a variação no valor dos aluguéis está em 3%, cerca de 10% do IGP-M. Ou seja, o índice é citado, mas é pouco utilizado de fato.

Nossa ideia é, portanto, criar um indicador específico para o mercado imobiliário. Consideramos que o IPCA também não é ideal para este propósito, já que não avalia a remuneração.

Agora, estamos buscando contato com imobiliárias de todo o Brasil para estabelecer parcerias e conseguir ter acesso a um fluxo constante de dados sobre preços de aluguel em contrato. 

A ideia é que tenhamos um índice nacional e dados específicos sobre as maiores cidades do país, mas ainda não temos data para apresentar o projeto.