Stellantis: CEO que turbinou Fiat quer tornar Peugeot e Citroën amadas no Brasil

Antonio Filosa, um dos líderes da recuperação da Fiat no Brasil, falou ao CNN Brasil Business sobre os planos para o crescimento das marcas francesas

Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo
13 de maio de 2021 às 04:30
Peugeot
Concessionária da Peugeot
Foto: Divulgação/Peugeot

A Stellantis não passou ilesa pela crise global causada pela Covid-19. A montadora sentiu o impacto da falta de semicondutores –peças importantes para carros cada vez mais tecnológicos– e mostrou em seu balanço que conseguiu produzir 11% a menos do que previu para o trimestre encerrado em março. Além disso, claro, a procura pelos veículos não é a mesma de alguns anos atrás. Mas a empresa recém-montada tem um desafio enorme além da Covid: melhorar o desempenho das marcas Peugeot e Citroën. 

No começo deste ano, FCA e PSA completaram a fusão que deu origem à Stellantis, uma empresa que tem sob seu guarda-chuva marcas poderosas como Fiat, Jeep, Alfa Romeo e as francesas Peugeot e Citroën. 

Desde abril de 2018, quem comanda a FCA na América do Sul é o italiano Antonio Filosa. Ele foi um dos líderes do movimento de modernização da Fiat, que conseguiu recuperar a boa fase e hoje tem mais de 20% do mercado brasileiro. 

Agora, o desafio parece um pouco maior: ele tem nas mãos Peugeot e Citroën, duas marcas que estão muito longe de seus melhores desempenhos no Brasil. 

Aqui vai um contexto do tamanho do buraco: a Citroën conseguiu engatar apenas um carro na lista dos 50 mais vendidos no Brasil em 2020. O C4 Cactus foi o 48° mais vendido do país. A Peugeot não teve modelo algum na lista. 

Enquanto isso, as primas ricas –já comandadas por Filosa há algum tempo– têm desempenho muito melhor: a Fiat colocou oito modelos no top 50 –quatro deles estão no top 10, com a Strada alcançando o quarto lugar em apenas quatro meses de vendas. A Jeep, que tem um portfólio menor, tem dois modelos na lista.

O desempenho das vendas é um poderoso indicador da percepção dos consumidores sobre a marca. Hoje, Peugeot e Citroën têm, juntas, menos de 2% de participação no mercado brasileiro. 

Mas não há como negar que há muito potencial guardado nessas francesas. Na Europa, o desempenho da Peugeot é muito diferente. A marca é a quarta maior daquele mercado, considerado o mais competitivo do mundo. Por lá, a francesa fica atrás apenas de Volkswagen, Renault e Ford em vendas.

Recuperação no estilo Fiat

Em entrevista ao CNN Brasil Business, Antonio Filosa disse que “não há razão alguma para não recuperar a paixão dos brasileiros pelas marcas Peugeot e Citroën”. Ele garantiu que as marcas vão crescer em participação de mercado no cenário nacional e demonstrou confiança na força dos produtos. 

O executivo disse que pretende usar o mesmo modelo de reformulação da retomada da Fiat, que saiu de 13% de market share, em 2018, para os atuais 21%. O primeiro passo é a atenção com produtos. “Precisamos identificar o que fazer com os próximos lançamentos e nos produtos que já temos para melhorar o nível de desejo”, conta Filosa. 

Na Fiat, o lançamento da Nova Strada deu muito certo. O carro foi lançado no segundo semestre do ano passado, mas, mesmo assim, foi um dos mais vendidos de 2020. Com os carros que já tinha em mãos, a Fiat apostou em novos modelos para estimular as vendas. Conseguiu fazer isto com o Argo Tracking, a versão offroad do hatch, que fez o modelo crescer 15% em vendas.

Antonio Filosa Stellantis Fiat
Antonio Filosa, CEO da Stellantis para a América do Sul
Foto: Divulgação/Stellantis

Depois de pensar nos produtos que podem melhorar na Peugeot e Citroën, a Stellantis deve reformular a marca, mais uma vez seguindo o modelo Fiat. “Ativamos um trabalho de reformulação de marca na Fiat onde questionamos muito nossas equipes sobre como reconectar a marca com seus apaixonados e sobre os valores que precisávamos passar em todos os canais”, conta Filosa. 

Todo o esforço para se reconectar com o consumidor levou a Fiat a adotar o slogan “A paixão move” e pensar em uma marca mais informal. A FCA também resgatou o Fiat Flag, as quatro barras que representam as letras do nome da montadora que remetem às cores da bandeira italiana. 

Olhando para todo o trabalho feito com a Fiat, Antonio Filosa garante: “Vamos reconectar Peugeot e Citroën a seus valores”. Ele, porém, alerta que este é um processo longo e precisa de tempo para ser executado. 

Pulando da parte conceitual para a parte prática do processo, o mercado ainda tem dúvidas de como se dará a integração das novas marcas. Fiat e Jeep, por exemplo, têm concessionárias no mesmo endereço, mas fazem questão de separar os ambientes. 

Sobre a possibilidade de um concessionário vender carros de todas as marcas do grupo presentes no Brasil, Filosa disse que ela é pequena e que não acredita que isto vá acontecer. Mas, por outro lado, deixou a porta aberta para aqueles que querem investir em todas as marcas. 

Eletrificação da frota

Os carros elétricos são o assunto do momento. É claro que não poderíamos deixar de falar sobre o tema com o líder da Stellantis na América do Sul. Por enquanto, a empresa não revela muitos detalhes sobre o investimento que faz nesse segmento e no lançamento de carros elétricos. Em julho, porém, o CEO global da Stellantis, Carlos Tavares, deve anunciar mais detalhes sobre a estratégia de eletrificação das marcas comandadas pela companhia. 

Por aqui, a estrela elétrica da empresa é o 500e, mas Filosa diz que ainda é o momento de testar e planejar os próximos passos. 

A eletrificação da frota deve se casar com outro investimento das montadoras: os planos de assinatura de carros. A Stellantis está nesse negócio com a Flua!, que oferece o uso de carros Fiat e Jeep mediante pagamento de uma mensalidade. 

Juntar eletrificação com assinatura pode ser uma boa para as montadoras, já que os carros elétricos têm vida útil maior, e as vendas podem cair depois que esta tecnologia estiver mais madura. As assinaturas representam receitas recorrentes, diferentemente das vendas, que acontecem apenas uma vez. 

O CEO da Stellantis na América do Sul disse que a indústria vai continuar com o modelo tradicional de produzir e vender carros, mas que vai agregar a isto as formas inovadoras de chegar ao consumidor. “O que o consumidor compra são quilômetros. Para uns, tanto faz a solução, e, para outros, é fundamental que seja elétrico porque combina comprar quilômetros com a possibilidade de não emitir poluentes”, afirma Filosa. 

A Flua! está em período de testes, mas apresenta bons resultados, segundo o italiano, com cada vez mais concessionárias buscando integrar a solução, e a demanda de clientes acima do esperado pela empresa. Em breve, carros da Peugeot e Citroën devem entrar no portfólio da empresa de assinatura de veículos. É mais uma forma de apoiar o resgate das marcas francesas.