Gestora levanta US$ 230 milhões com SPAC na Nasdaq e quer investir no Brasil

Abertura ocorre num momento em que o interesse pelo tema aumenta no país, apesar de ainda não haver legislação que permita a criação do instrumento por aqui

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
25 de maio de 2021 às 04:30
Nasdaq
Foto: Marcelo Favalli/CNN

A Valor Capital Group, empresa de investimentos que busca oportunidades de negócios entre EUA e Brasil, anunciou no início de maio que o seu SPAC, batizado de Valor Latitude Acquisition, levantou US$ 200 milhões em abertura de capital na Nasdaq (mais US$ 30 milhões em lote adicional) e pretende investir em empresas no Brasil.

No alvo, estão companhias com tecnologia como base do modelo de negócio, mas que podem operar em vários segmentos —fintechs, healthtechs, edtechs, companhias voltadas para o e-commerce. Ou seja, em linha com o perfil de investimento do grupo, que já aportou em negócios como Stone, Gympass e Loft por aqui.

"Para nós foi uma questão de oportunidade. A Valor está no Brasil há mais de 10 anos, já fizemos investimentos iniciais em várias empresas que hoje estão gigantes. O case do SPAC vem justamente dessa dinamicidade do mercado brasileiro", diz Mario Mello, presidente da Latitude Acquisition.

"Todas as tendências globais estão fortes no Brasil, mas aqui ainda temos concentração de mercado em algumas áreas, ineficiências em alguns processos. Quando olhamos para estes fatores e para empresas em consolidação, aquelas que estão próximas de se tornar unicórnios ou em estágio pré-IPO, há muitas opções."

Traduzindo, os SPACs são companhias "de fachada", com poucos ou nenhum ativo operacional. Os gestores por trás do processo, chamados de sponsors, abrem capital apenas para levantar dinheiro de investidores e utilizar estes recursos para comprar ou investir em empresas já existentes.

Por isso, o processo é chamado pelo mercado de "cheque em branco". É a figura do sponsor, através do "road show", que atrai os investidores, em geral qualificados. Depois disso, eles têm dois anos para investir em alguma companhia, ou a empresa é desfeita, e o dinheiro, devolvido aos investidores.

"Conversamos com mais de 2.000 investidores para concluir o processo. O dia do IPO foi especial para nós e para o mercado brasileiro, já que conseguimos fazer a captação em um momento em que havia mais de 350 SPACs esperando o mercado melhorar para abrir seu capital", diz. 

"Em relação à companhia em que vamos investir, ainda não podemos adiantar muitos detalhes, mas há diretrizes básicas. Não existe um tamanho ideal, buscamos empresas que tenham receita clara, potencial de rentabilidade, e TAM (Total Available Market ou Mercado Total) grande."

SPACs em alta

Mas por que o SPACs têm crescido agora, já que o instrumento existe há anos? Já são mais de 350 IPOs em 2021, contra 248 em 2020 e 59 em 2019, segundo dados da SPAC Research. Em parte, por conta de dois suspeitos de costume: liquidez no mercado e taxas de juros em níveis historicamente baixos.

Além da conjuntura ajudar, uma das principais críticas à modalidade também tem sido superada. O mercado reverberava que a modalidade só servia para empresas sem capacidade para realizar IPOs lucrativos, o que está mudando após estreias bem-sucedidas de empresas como a Virgin Galactic, de Richard Branson, e a gigante dos jogos DraftKings.

Nessa linha, a startup Grab, uma espécie de Uber de Singapura, anunciou em abril que se fundiria com um SPAC apoiado pela Altimeter Capital. No fim das contas, o negócio abriu caminho para que a empresa fosse listada em Nova York e avaliou o negócio em cerca de US$ 39,6 bilhões. Foi o maior negócio da categoria até hoje, segundo a Dealogic.

"Acreditamos que o SPAC tem algumas vantagens em relação ao IPO e várias empresas já estão discutindo a possibilidade internamente. O Airbnb, que preferiu seguir pelo método tradicional, é um exemplo de empresa que os investidores perderam a chance de aportar anteriormente", diz Melo.

SPACs no Brasil

Ainda não é possível, neste momento, abrir uma SPAC no Brasil. Mas a CVM criou uma consulta pública, num momento em que o interesse pelo tema aumenta, para avaliar a viabilidade de oferecer a modalidade no mercado nacional. O período para envio de sugestões vai até julho. 

Para Guilherme Stuart, sócio da boutique RGS Partners, o processo pode ser benéfico. "Estamos vendo vários cancelamentos de IPOs por questões macroeconômicas, por exemplo. As SPACs podem ajudar nisso, já que ficam menos sujeitas a balanços de humor do mercado", diz.