Ações de exportadoras de commodities e elétricas sofreram menos na crise

Índice que reúne as empresas de produtos básicos tem queda de 18% no ano e, das elétricas, 23%; Ibovespa caiu 33% no mesmo período

Vista aérea do pátio de estocagem do complexo S11D, maior complexo minerador da Vale, no município de Canaã dos Carajás (PA)
Vista aérea do pátio de estocagem do complexo S11D, maior complexo minerador da Vale, no município de Canaã dos Carajás (PA) Foto: Ricardo Teles/Vale

Juliana Elias

do CNN Business, em São Paulo

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As incertezas e os impactos da pandemia de coronavírus na economia levaram as bolsas de valores do mundo todo a terem algumas das piores semanas de sua história nos últimos meses. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, teve em março seu pior mês em 22 anos. Abril e maio têm ensaiado alguma recuperação, mas a queda média acumulada desde o início do ano ainda está na casa dos 30%.

A sangria, entretanto, não é igual entre os setores. Há aqueles que, mesmo em queda, sofreram menos, seja porque tiveram tombos menores ou porque se recuperaram mais rápido depois. É o que mostra um levantamento feito pela consultoria Economatica a pedido do CNN Business, que verificou a variação acumulada de todos os índices setoriais listados na B3, a dona da bolsa de valores brasileira. 

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De todas as categorias, a que está sofrendo menos é a de exportadoras de produtos básicos, que, se perderam com a redução nos volumes vendidos em algum medida, ganharam muito em receita com a alta de mais de 40% do dólar. Elas estão reunidas no IMAT, índice de materiais básicos da B3: a queda dele no ano é de “apenas” 17,7%, ou praticamente a metade dos 32,9% perdidos pelo Ibovespa no mesmo período. 

O IMAT reúne 11 companhias de áreas como mineração, siderurgia, papel e celulose e petroquímica. Vale, Suzano, Gerdau, CSN e Braskem são algumas que estão na lista, que pode ser checada no site da B3.

Também se destaca no ranking o IEE, índice que reúne as companhias de energia elétrica: a queda dele em 2020 é de 22,9%, também razoavelmente abaixo do Ibovespa. Coelce, Cesp, Eletrobras, Light, Taesa e a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep) são algumas que estão na lista. 

Com negócios ligados a contratos públicos longos e um produto – energia – que dificilmente as pessoas deixam de consumir, o setor de energia é sempre um dos preferidos de analistas e gestores como opção de ações defensivas e resistentes aos altos e baixos dos ciclos econômicos.

Na outra, é o índice que reúne as empresas do mercado imobiliário, o IMOB, que tem as perdas mais amargas, com queda de 50% no ano. O IMOB reúne incorporadoras e administradoras de shoppings como MRV, Cyrela, Multiplan e BR Malls

O levantamento levou em consideração a rentabilidade acumulada em 2020, até o fechamento da última semana (15 de maio).

Além do Ibovespa, a B3 possui mais de 20 outros índices de referência que agrupam as empresas listadas de acordo com critérios como setor de atuação, tamanho ou os níveis de governança e de sustentabilidade. Todos os índices estão detalhados na página da B3.  

O Ibovespa, mais famoso deles, reúne as ações das 72 maiores empresas da bolsa. Juntas, elas respondem por cerca de 80% de todo volume de negócios diários do pregão, e por isso é este o principal índice de referência do mercado brasileiro.

Salto do dólar e empurrão do minério

A resposta para o bom desempenho das exportadoras é fácil: a disparada do dólar, que saiu de R$ 4 em janeiro para a faixa de R$ 5,70 a R$ 5,80 hoje, salto de mais de 40%.

“Há uma grande contribuição da Vale [para o resultado das empresas de materiais básicos]”, diz o analista-chefe da corretora Necton, Glauco Legat. “O dólar está alto e o preço do minério de ferro, principal produto dela, também está subindo, conforme a China retoma a atividade.”

Maior do grupo, a Vale tem sozinha 21% de peso no IMAT, o que faz com que o desempenho de suas ações puxe o resultado do índice. As ações da mineradora já quase voltaram ao patamar de antes da crise: elas entraram em 2020 valendo R$ 53,30 e custavam R$ 51,26 em 18 de maio, 3,8% menos. Desde o pior momento de março (chegaram a R$ 34), já subiram 50%.

“Nós já estamos favorecendo as exportadoras em nossa carteira; mineração, como a Vale, e frigoríficos, com a JBS e a Marfrig, estão nas nossas recomendações”, disse Legat.

Elétricas: fortes nas crises

No caso das companhias de energia elétrica, o que ajuda é o fato de estarem em um dos setores mais estáveis e previsíveis que há – e o fato de terem caído menos nesta crise confirma o por que de sempre estarem presentes como parte defensiva nas carteiras de corretoras e fundos.

Essa “segurança”, entretanto, é desigual entre os diferentes segmentos do setor de energia, dividido em geração (onde estão as donas de hidrelétricas e termelétricas), transmissão (responsáveis pelos linhões que ligam os parques geradores às cidades) e as distribuidoras, que são as concessionarias de eletricidade que atendem nossas nossas casas. 

“Nesta escala, as mais resilientes são as transmissoras, que não têm risco praticamente nenhum além dos custos e manutenção”, explica Legat, da Necton.

Elas trabalham com contratos de concessão longos, superiores a 20 anos, que têm remuneração fixa e reajustes periódicos, e o negócio muda independentemente de o país consumir mais ou menos energia. Taesa e a Transmissão Paulista (ou Cteep) são algumas das mais recomendadas pelas casas de análises, inclusive como tradicionais pagadoras de dividendos.

As geradoras, como a Cesp, vêm na sequência – elas também têm a segurança de contratos longos, mas ficam mais suscetíveis a intempéries como falta de chuva. Por fim, na ponta dos riscos, estão as distribuidoras, cuja receita está diretamente ligada à inadimplência e ao consumo maior ou menor dos clientes. Cemig, Light e Copel são algumas delas. 

No meio do caminho, estão grupos que possuem atividades em mais de uma área, como Eletrobras, CPFL ou EDP.

“As elétricas possuem papéis bastante defensivos e devem estar em qualquer carteira, mas não devem subir muito mais agora”, disse Legat. “O ideal é sempre ter um portfólio bastante diversificado, em número de empresas e também em setores, com ativos que não se correlacionem tanto uns com os outros.”

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