BAT Brasil (ex-Souza Cruz) cresce em 2020, mas quer mudança para cigarro no país

Fabricante aguarda liberação de cigarros eletrônicos no Brasil, bem como alterações tributárias e repressão ao contrabando

Foto: BAT Brasil/Divulgação

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Depois de mais de 100 anos atuando no mercado nacional de tabaco, a Souza Cruz deixou de existir em 2020. Agora, a empresa atende pelo nome de BAT (British American Tobacco) Brasil, seguindo diretriz global da companhia que controla suas operações.

Do ponto de vista operacional, pouca coisa muda. Rótulos como Derby, Dunhill, Hollywood e Lucky Strike continuarão sendo produzidos e distribuídos pela marca para os seus cerca de 200 mil clientes no país.

O que muda, no entanto, é a mensagem que o grupo quer passar. Em entrevista ao CNN Brasil Business, o presidente da BAT Brasil, Jorge Irribarra, diz que o objetivo da companhia é apontar para um futuro melhor.

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Cigarros eletrônicos na mira

“Com os danos reconhecidos da ingestão de cigarros, estamos evoluindo globalmente para oferecer produtos com riscos reduzidos aos nossos clientes, como vaporizadores e aquecedores de tabaco”, diz. 

Apesar disso, essa transformação ainda sofre com barreiras governamentais por aqui. Cigarros eletrônicos e produtos do gênero são proibidos desde 2009 no Brasil, o que faz com que 100% do mercado seja ilegal.

Irribarra diz que a legislação é antiga e que a ciência já encontrou respostas para muitas das perguntas que existiam na década passada. Cita, ainda, países como EUA, Canadá e Inglaterra, que possuem legislação avançada sobre o tema.

À reportagem, a Anvisa –responsável pela proibição– disse que “o processo de revisão regulatória está em andamento e que qualquer alteração regulatória se baseará em evidências científicas robustas acerca do tema, evidências essas que consideram diversos aspectos relacionados aos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF)”.   

Crescimento em 2020

Enquanto isso não ocorre, a empresa segue o modelo centenário que já colheu muitos frutos. E 2020, inclusive, foi um ano positivo apesar da pandemia. A praça brasileira aumentou sua produção em 10% e suas vendas em 4%, superando 40 bilhões de unidades comercializadas.

Irribarra cita que a alta do dólar e o fechamento das fronteiras enfraqueceram, por ora, o contrabando, catapultando a produção nacional. As unidades brasileiras também precisaram aumentar sua capacidade para suprir a procura de países que tiveram suas fábricas fechadas durante a pandemia do novo coronavírus.

Mesmo com tudo isso, o grande legado do período turbulento, segundo aponta o gestor, foi o desenvolvimento dos sistemas digitais de vendas da companhia, já utilizados por cerca de um quarto dos clientes da marca (50 mil).

“Criamos soluções que ajudam os varejistas e integram informações para administração da carteira de produtos e de crédito”, afirma. “Assim, eles poderão, através de processos testados e melhorados, otimizar suas compras, ter acesso simplificado à faturação eletrônica.”

Apesar do saldo positivo, a cotação do dólar nas alturas deve impactar negativamente o resultado do quarto trimestre. “O Brasil sofre menos com o câmbio porque produz insumos, mas a cotação do início de 2020 foi muito diferente da cotação do final do ano, o que vai tirando competitividade e rentabilidade da empresa”, diz.

Contrabando e peso dos impostos 

Mas nada tira dinheiro da indústria legal de tabaco como a indústria ilegal de tabaco, segundo apontam as empresas do setor. O executivo afirma que o Estado também sofre, deixando de coletar R$ 11 bilhões anuais em impostos. 

No final de 2020, ganhou força em Brasília a tese do “imposto do pecado” –que incidiria sobre cigarros e bebidas alcoólicas, por exemplo– para bancar a Reforma Tributária. Bolsonaro disse ser contra a medida no início de 2020, mas não se manifestou desde a volta dos boatos. Não há detalhes sobre como isso incidiria sobre o tabaco.

Enquanto isso, vale a última mudança na estrutura tributária do setor, que aconteceu em 2016. Ali ficou estabelecida uma taxação que, entre tributos federais e estaduais, corresponde a, no mínimo, 70% do valor final do produto. E, da forma como foi estruturada, incide mais sobre os produtos mais baratos.

“Quando você analisa os produtos por preço, na franja mais baixa, os consumidores pagam mais de 80% de impostos. Ninguém quer que os impostos diminuam, mas é preciso fazer uma reformulação tributária”, diz Irribarra.

Ele também entende que há espaço para tentar mudar a faixa mínima de preço de R$ 5, estabelecida pela legislação. “O preço mínimo é uma boa ideia, mas exige um nível de controle do mercado ilegal que não existe”, afirma. 

A BAT até trouxe ao mercado nacional a marca Rothmans, que atinge preços mais populares, mas nada que se compare com os preços do contrabando. Para o CEO, não existe solução dentro das regras atuais.

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