Após crítica de Guedes, ex-presidentes do IBGE defendem metodologia da PNAD

Sobre diferença com o Caged, Rabello de Castro entende que cadastro deveria receber tratamento estatístico no instituto

Carteira de Trabalho e Previdência Social
Carteira de Trabalho e Previdência Social Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Stéfano Salles, da CNN, no Rio de Janeiro

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Alvo de críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes, a metodologia de cálculo de desemprego da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi defendida por especialistas. Ex-presidentes do órgão procurados pela CNN apontam que os parâmetros utilizados pelo levantamento seguem um padrão internacional que se repete por todo o mundo.

Guedes disse na sexta-feira (30), durante o lançamento da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), no Rio de Janeiro, que o IBGE “está na idade da pedra lascada” e não reflete os números da economia real. O ministro enalteceu ainda o Cadastro Geral de Empregos e Desempregados (Caged), que seria mais eficaz, por receber dados de contratações e demissões diretamente das empresas envolvidas no processo, e criticou o fato de a pesquisa do IBGE ser feita por telefone.

Ex-presidente do instituto, Sérgio Besserman defende a PNAD e entende que ela segue os melhores parâmetros de pesquisas deste tipo feitas em todo o mundo. “Ela está atualizada e segue as normas estabelecidas pela Comissão Estatística das Nações Unidas. É a antiga Pesquisa Nacional do Emprego (PNAD), que agora está dentro da PNAD. Agora, é claro que é uma pesquisa que tem como melhorar: é só soltar mais dinheiro, para aumentar o universo amostral”, afirma.

A fala de Guedes ocorreu quando o IBGE anunciou que a taxa de desemprego no Brasil está em 14,6% no trimestre encerrado em maio, segundo maior patamar da série histórica, aberta em 2012, com 14,8 milhões de desempregados. Na véspera, o Caged apontou que o país abriu 309 mil vagas de trabalho em junho, 41,1% mais que o registrado em maio. Ao longo de 2021, o saldo seria de 1,5 milhão de postos abertos em 2021.

Também ex-presidente do instituto, o economista Paulo Rabello de Castro classifica a declaração do ministro como absurda e entende que os dados do Caged deveriam ser analisados pelo IBGE, antes de qualquer divulgação, e lembrou a fusão de três pastas que deu origem ao Ministério da Economia: da Fazenda, do Planejamento e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, e do Planejamento. O IBGE está submetido à estrutura administrativa dirigida pelo ministro.

“O Caged depende que as empresas estejam informando corretamente, de informações de contadores. Como ter certeza de que esteja certo? As empresas que estão quebrando vão se preocupar com uma informação acessória?”, disse Rabello de Castro.

“O Ministério da Economia captura dados do cadastro, mas não há estatísticos no Caged. Por uma questão legal, os dados deveriam passar por tratamento estatístico no órgão. Uma das poucas vantagens dessa centralização de poder no Ministério da Economia seria colocar o instituto na coordenação de todas as estatísticas econômicas, o que não aconteceu”, continuou.

Os dois ex-presidentes destacaram que a PNAD Contínua era realizada de forma presencial e tinha taxa de resposta no patamar dos 80%. No entanto, com a pandemia, o passou a ser feita por telefone, o que reduziu a proporção de respostas para algo entre 50% e 60%, um padrão internacional considerado bom.

Sobre as diferenças entre os dados da PNAD e do Caged, Rabello explica que são pesquisas diferentes, que precisariam ser analisadas sob óticas distintas. Por isto, segundo ele, não há disparidade.

“É como comparar uma foto em preto e branco e uma colorida. Haverá diferenças, mas não são pesquisas incompatíveis. A PNAD mostra que há uma recuperação no reemprego no setor informal. Como houve desemprego em massa, as pessoas estão voltando a procurar emprego. A fotografia dos desempregados cresce mais rápido que o emprego, porque a taxa é calculada em cima de quem está procurando emprego. O ministro poderia ter dito isso”, conclui Rabello de Castro.

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