Após dia de caos, bolsa sobe e dólar tem maior queda em 6 meses

Ibovespa teve a maior alta desde 2009 e moeda norte-americana voltou ao patamar de R$ 4,64 após atingir R$ 4,80

Real encabeçou lista de moedas que mais se valorizaram em relação ao dólar nesta terça
Real encabeçou lista de moedas que mais se valorizaram em relação ao dólar nesta terça foto-mohamed-abd-el-ghany-reuters-20-03-2019

Reuters

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O Ibovespa teve nesta terça-feira (10) a maior alta diária desde 2009, recuperando parte das perdas da véspera, quando tombou mais de 12% e teve o pior dia em mais de duas décadas. A melhora neste pregão foi apoiada em correções técnicas e expectativas de ações coordenadas de autoridades no mundo todo para proteger as economias dos efeitos do surto de coronavírus.

No mercado de câmbio, o dólar sofreu nesta terça a maior queda diária em seis meses, voltando à casa de R$ 4,64 diante de uma combinação de alívio externo e também de atuação do Banco Central. Na véspera a cotação flertou com a marca de R$ 4,80 e atingiu novo recorde histórico.

As ações da Petrobras também mostraram melhora, após tombo de quase 30% na véspera, mas foram os papéis da Vale que se destacaram, com salto de mais de 18%.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 7,14%, a 92.214,47 pontos, na máxima da sessão, maior alta percentual diária para fechamento desde 2 de janeiro de 2009. O giro financeiro somou R$ 39,6 bilhões.

Na véspera, o Ibovespa fechou com queda de 12,17%, no pior dia na bolsa em mais de duas décadas, marcado por circuit breaker, conforme decisões da Arábia Saudita derrubaram os preços do petróleo e adicionaram preocupações a um mercado já fragilizado pelo surto do coronavírus.

Na segunda à noite, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que tomará importantes medidas para proteger a economia do país contra impactos da disseminação do coronavírus. O governo do Japão afirmou que planeja gastar mais de US$ 4 bilhões em um segundo pacote de ações para lidar com o vírus.

Agentes financeiros também estão na expectativa da reunião de política monetária do Federal Reserve, na próxima semana, com grande parte apostando que o banco central voltará a cortar o custo do dinheiro nos EUA, em um esforço para apoiar a economia contra crescentes incertezas globais.

“A perspectiva de maiores gastos do governo está ajudando investidores a ignorar a ampliação nas medidas de contenção que reduzirão a atividade econômica”, destacou o analista Jasper Lawler, chefe de pesquisa no London Capital Group, destacando entre as medidas as restrições de deslocamento na Itália.

Em Wall Street, o S&P 500 fechou em alta de 4,9%.

Os preços do petróleo avançaram nesta terça-feira, com o Brent fechando em alta de 8,3%, a US$ 37,22 o barril, após registrar a maior queda em quase 30 anos na véspera, diante da possibilidade de estímulos econômicos e sinais da Rússia de que conversas com a Opep seguem possíveis.

Mas profissionais do mercado alertam que o cenário ainda é bastante incerto e a volatilidade tende a seguir elevada.

“Investidores continuam avaliando os riscos que surgiram, incluindo o surto do coronavírus, a forte queda nos preços do petróleo, as pressões no mercado de crédito e uma reação morna à surpresa positiva da política monetária da semana passada”, afirmou o Goldman Sachs em nota a clientes.

Destaques da bolsa

Vale saltou 18,45%, na esteira da alta dos preços do minério de ferro na China e melhora dos mercados no exterior, em meio a expectativas de estímulos econômicos no mundo, mais do que recuperando o valor de mercado perdido na véspera, com ganho de R$ 36,9 bilhões.

O papel preferencial da Petrobras subiu 9,41% e o ordinário avançou 8,51%, um dia após queda histórica, com perda de R$ 91 bilhões em valor de mercado. A recuperação foi apoiada na trégua do nervosismo no cenário externo, além de alta dos preços do petróleo, após declínios expressivos na véspera.

Via Varejo fechou com elevação de 21,29%, também recuperando-se de recuos significativos nos últimos pregões, seguida pela rival Magazine Luiza, em alta de 16,43%. B2W subiu 11,51%.

As preferenciais da Gol e da Azul valorizavam-se 12,71% e 5,41%, respectivamente, após o dólar sofrer a maior queda diária em seis meses, voltando à casa de R$ 4,64. CVC subiu 11,59%.

A Ambev caiu 1,7%, entre as poucas baixas da sessão, após anúncio de investimentos noticiado na véspera, quando também a rival Heineken divulgou plano de expansão de capacidade no país, com investimento de R$ 865 milhões a ser feito no Paraná. O Itaú BBA chamou a atenção para o fato de que papéis considerados muito defensivos, como Ambev, podem ser afetados se o surto de coronavírus prejudicar a demanda base.

Dólar recua

O dólar à vista encerrou esta terça em baixa de 1,69%, a R$ 4,6457 na venda, maior baixa diária desde 4 de setembro de 2019 (-1,79%).

A queda da cotação reflete ajuste depois do caos da véspera, quando a moeda chegou a alcançar a cotação de R$ 4,80, e também alívio nos mercados mundiais diante das negociações entre autoridades de governos de vários países sobre pacotes de ajuda econômica.

As moedas emergentes, contudo, mostravam desempenho misto, e o real encabeçou a lista de melhor desempenho entre 33 rivais do dólar na sessão.

A venda de mais US$ 2 bilhões em moeda à vista pelo Banco Central, combinada com a percepção de que o BC pode estar menos confortável para cortar juros na reunião da próxima semana, ajudaram a divisa brasileira a se destacar positivamente nesta terça.

A discussão sobre mais reduções da Selic segue no radar do mercado, já que novo afrouxamento monetário poderia reduzir mais o diferencial de retornos entre a renda fixa brasileira e a de outros países emergentes, o que jogaria contra um fluxo cambial que já está negativo no ano depois de saída líquida recorde em 2019.

Vicente Matheus Zuffo, diretor de investimentos da SRM Asset, lembra que o real tem se comportado pior que seus pares emergentes desde o último corte de juros pelo Copom (5 de fevereiro), enquanto a curva longa de juros tem caído menos que a parte intermediária.

“Um corte, ainda mais de 75 pontos-base, provavelmente faria a curva empinar ainda mais e manteria o real insistentemente fraco”, disse.

O Copom volta a se reunir em 17 e 18 de março.

Na véspera, o diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra, afirmou que o câmbio passou a ser o “canal mais relevante de transmissão de política monetária”, reflexo da queda dos diferenciais de juros.

Dado que o real está entre as moedas que mais se depreciam neste ano, a declaração de Serra foi entendida como uma indicação de que o BC está cauteloso com os efeitos da desvalorização cambial sobre a inflação.

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