Arezzo tem dinheiro para gastar e quer crescer; comprar a Hering vale a pena?

A Arezzo estreou recentemente no segmento de vestuário com a compra da Reserva por R$ 715 milhões e quer crescer nesse mercado

Vista de loja da Cia. Hering, em São Paulo
Vista de loja da Cia. Hering, em São Paulo Foto: Aluísio Alves/REUTERS

Leonardo Guimarães,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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A notícia de que a Arezzo (ARZZ3) tentou, sem sucesso, comprar o controle da Hering (HGTX3) movimentou o mercado. O conselho de administração da varejista catarinense rejeitou por unanimidade a proposta de fusão e a Hering voltou aos holofotes. 

As empresas não divulgaram valores, mas é certo que uma proposta pela Hering hoje deve doer muito mais no bolso de quem quer comprar, já que as ações da varejista dispararam e fecharam o pregão desta quinta em alta de 28,13%. 

A notícia também agradou os investidores da outra parte envolvida, e as ações da Arezzo subiram 8,35% depois que o mercado percebeu o tamanho da vontade da empresa de crescer vendendo roupas. Além disto, o movimento mostra que a empresa está capitalizada para aproveitar as oportunidades, em um momento em que as varejistas estão fragilizadas por causa da pandemia. 

Mas será que faz sentido para a Arezzo comprar uma empresa do porte da Hering? Perguntamos a um especialista –Luiz Claudio Dias Melo, sócio-diretor da consultoria 360 Varejo–  e a resposta é: sim.

A Arezzo estreou recentemente no segmento de vestuário com a compra da Reserva, por R$ 715 milhões, e quer crescer nesse mercado depois de construir uma marca muito forte no setor de calçados. 

A Reserva é uma adição importante ao portfólio da Arezzo, mas não traz tanta escala quanto uma empresa do porte da Hering, que tem mais de 700 lojas espalhadas pelo Brasil. Além disso, a Hering tem maior penetração entre os consumidores de classe média, algo que a Reserva não oferece. 

Outro bom motivo para a Arezzo tentar a compra da Hering é que a empresa vinha sendo negociada a múltiplos baixos. É claro que a valorização das ações após a notícia da recusa da proposta vai dificultar as coisas para a Arezzo, mas a oportunidade é boa, dado o tamanho da estrutura operacional da Hering e da relevância da marca. 

E o lado da Hering?

Ok, para a Arezzo faz sentido comprar uma empresa desse porte, mas será que a Hering quer vender o controle da empresa? 

A Hering tem uma marca muito forte e consegue se posicionar à frente de players como Renner e C&A quando o assunto é qualidade. Teve bons resultados, mas “vem andando de lado há muito tempo”, segundo Luiz Claudio Melo. 

O especialista vê a Hering com dificuldade para operar uma boa estratégia omnichannel, modo de integrar as operações online e offline. A Arezzo, por outro lado, é uma empresa “tech”, que estruturou um marketplace com marcas do grupo e abriu para vendedores de fora. A fusão poderia ajudar a Hering a acelerar o processo de digitalização e não depender tanto de suas lojas físicas.

A varejista catarinense faz parte do grupo de empresas que tomou um golpe pesado com o fechamento de lojas por causa da pandemia. O faturamento despencou e a margem vai ser ainda mais pressionada por causa dos investimentos que a empresa vai fazer. Serão R$ 131 milhões investidos em tecnologia e plataformas digitais em 2021. 

A Arezzo, por outro lado, viu seu lucro crescer 77% no último trimestre de 2020, com um resultado operacional muito forte e a incorporação da Reserva. 

O negócio ainda pode acontecer? 

Segundo Melo, essa série pode ter novos episódios. A recusa inicial da Hering não significa o fim das conversas, já que os acionistas da empresa ainda podem se manifestar a favor do negócio e influenciar o conselho. 

É difícil, porém, imaginar uma aquisição hostil, que acontece quando não há negociação entre as partes, e a empresa interessada na compra tenta a fusão via Oferta Pública de Aquisição (OPA). “Não faria sentido para a Arezzo abrir mão da expertise dos sócios da Hering nessa transação”, analisa Melo. 

Além de não fazer sentido, não parece ser o modus operandi da Arezzo, que manteve Rony Meisler, fundador da Reserva, no comando da marca mesmo depois da aquisição. 

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