Com pandemia, greve dos caminhoneiros pode ser mais complexa do que a de 2018

Paralisação pode afetar distribuição de vacinas e transporte de cargas para exportação e comprometer ainda mais a renda das famílias

Anna Russi, Julliana Lopes, Manuela Tecchio e Natalia Flach, da CNN, em São Paulo e Brasília

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Planejada para esta segunda-feira (1º), de acordo com duas associações de trabalhadores, a greve geral dos caminhoneiros pode ser ainda mais grave e complexa do que a paralisação de maio de 2018. No contexto da pandemia, o movimento pode afetar a distribuição de vacinas, interromper a logística de cargas de exportação e prejudicar ainda mais a renda de milhares de famílias —que já não podem contar com o auxílio emergencial—, de acordo com especialistas consultados pelo CNN Brasil Business.

Do outro lado da mesa, o governo permanece cético em relação à greve. Representantes do Ministério da Infraestrutura conferem a iniciativa a “associações isoladas” e dizem que as entidades que aderiram publicamente à paralização até agora têm baixa representatividade entre a categoria.

“A Associação Nacional do Transporte Autônomos do Brasil (ANTB) não é entidade de classe representativa para falar em nome do setor do transporte rodoviário de cargas autônomo e que qualquer declaração feita em relação à categoria corresponde apenas à posição isolada de seus dirigentes”, disse a pasta à CNN.

Na última semana, porém, o Conselho Nacional de Transportes Rodoviários de Cargas (CNTRC) enviou um ofício ao governo confirmando a paralisação. Diante de um governo que se recusa a negociar com essas entidades, cresce a preocupação de economistas, empresários e investidores diante do impacto econômico e social que uma greve como esta pode causar.

“Ninguém descarta a possibilidade de uma greve, acho que existe adesão, sim. E o impacto de uma paralisação agora, nos moldes da que houve em 2018, seria devastador”, avalia André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica Consultoria.

Peso maior no bolso dos mais pobres

Para Galhardo, o primeiro golpe seria sentido em produtos que já estão com o preço distorcido, o que afeta justamente as classes mais vulneráveis da população.

Como já demontrado por dados recentes do Ipea sobre a inflação, o preço de alimentos e do combustível, por exemplo, tem pesado mais no bolso dos mais pobres: 6,2% frente a 2,7% dos mais ricos. 

“Quando você olha o impacto por faixa de renda, quem ganha menos dinheiro no Brasil são justamente as pessoas mais prejudicadas pela flutuação dos preços. São essas camadas que vão sofrer mais, se houver uma paralisação”, diz Galhardo.

Dependência do transporte rodoviário

A professora e coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da FGV Priscila Miguel explica que o impacto de uma paralisação de caminhoneiros toma proporções enormes por causa da dependência que o país ainda tem em relação à distribuição de cargas. 

“Em termos de transporte, o Brasil é extremamente dependente do transporte rodoviário. Cerca de 60% é transportado dessa forma. É um país sobre rodas, muitas coisas são transportadas por caminhões”, reforça.

Ela explica que, na pandemia, com o fortalecimento do e-commerce, muitos produtos passaram a ser distribuídos em pequenas rotas, feitas de moto, mas que essa não é a realidade de todas as mercadorias e que existe uma parte do trajeto que invariavelmente depende dos caminhões.

“Apesar de termos volume maior sendo movimentado, o caminhão está concentrado nos centros de distribuição. As longas distâncias são percorridas por esses trabalhadores”, explica.

Pior que em 2018?

Dados de um relatório do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) apontam como a greve dos caminhoneiros impactou fortemente a economia brasileira em 2018, momento em que era ainda maior a dependência do transporte rodoviário de carga.

“No período anterior à greve, a mediana da expectativa de crescimento do PIB para aquele ano começou em 2,7% em janeiro e chegou a ser de 2,9% no final de março, passando para 2,5% poucas semanas antes da greve. No final de maio já estava em 2,3% e, um mês depois, já era de 1,6%”, aponta o documento.

Desta vez, o problema pode ser ainda maior. “Hoje, a situação está muito mais complexa do que em 2018. Vivemos uma pandemia. Uma paralisação causaria problemas enormes para a chegada de insumos hospitalares, por exemplo”, avalia Galhardo, da Análise Econômica. 

Se entrarmos em greve, piora a disponibilização de materiais. Principalmente num momento de pensar a logística de distribuição da vacina

Priscila Miguel, coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da FGV

 

Difícil para os próprios caminhoneiros

É também por isso que os caminhoneiros podem ter que repensar sua estratégia, afirmam os especialistas. “Isso acaba trazendo problemas para a imagem dos caminhoneiros também. E isso é exatamente o que eles não querem. Eles sabem da importância de ter o apoio da população”, diz Galhardo.

Também é preciso lembrar, dizem os especialistas, que o auxílio emergencial, que ajudava na renda das famílias desses caminhoneiros, chegou ao fim. Ou seja, pode ser que, depois de estourada a greve, os trabalhadores não consigam manter a paralisação por muito tempo, como em 2018.

“Os caminhoneiros são trabalhadores como nós. Não vai ser fácil pra eles pararem. O auxílio acabou. Quem ainda tem reservas? O custo por trás disso pra eles também é grande”, diz o economista-chefe da consultoria.

Governo dobra a aposta

Por enquanto, o governo adota um tom cético em relação à greve. Em entrevista à repórter Anna Russi, de Brasília, um assessor especial do ministro Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) disse que a pasta acompanha a categoria de perto desde 2019, após o susto do ano anterior, e que, por enquanto, não há motivo para preocupações.

Não há qualquer adesão a um movimento de greve para o dia 1º, estamos muito seguros disso

assessor especial do Ministério da Infraestrutura

Composta por milhares de trabalhadores, na maioria autônomos, a categoria dos caminhoneiros, de fato, é imensa e apresenta uma pluralidade de orientações políticas e realidades sociais. Um representante dos caminhoneiros autônomos conversou coma repórter Julliana Lopes e admitiu que a adesão à paralisação ainda não atingiu a maioria da categoria.

“A categoria está inflamada, sofrendo, mas avaliando a situação. Tem a questão da entrega das vacinas, que é delicada. Uma parte anunciou paralisação pro dia 1º, mas não é a maioria ainda. Por enquanto, estamos conversando”, disse o trabalhador, que não quis se identificar.

Ele reforçou que há, sim, muito descontentamento no meio. Ele disse que, mesmo a categoria tendo saído vitoriosa da greve de 2018, a percepção geral é de que as demandas não foram atendidas pelo governo. 

Sobre isso, o assessor da Infraestrutura disse que a pasta tem diversos canais com a categoria e que existe uma agenda permanente de diálogo com as principais entidades representativas, por meio do Fórum do Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), além de reuniões constantes com lideranças.

“Estamos de portas abertas. Mas não haverá nenhum tipo de diálogo com quem quer se valer do setor para se promover com movimento de paralisação. O governo não vai negociar com ninguém que fale em greve”, disse o assessor, em entrevista ao CNN Brasil Business.

A fonte do ministério disse que, desde janeiro de 2019, houve 13 tentativas de paralisação. E que, portanto, não se pode levar em consideração ameaças. “Não dá pra ficar sempre caindo na lábia desses caras”, dise.

Ainda assim, o presidente Jair Bolsonaro autorizou reduzir o PIS/Cofins sobre o diesel e fez um apelo à categoria, para que não aderisse à paralisação. “Reconhecemos o valor dos caminhoneiros para a economia, apelamos para eles que não façam greve, que todos nós vamos perder”, pediu o presidente.

Para Galhardo, da Análise Econômica, não se pode fugir do diálogo. “Essa greve vai coincidir com o fim do auxílio, com a pandemia, é uma combinação explosiva. O governo deve atuar para pelo menos renovar as promessas que fez há três anos.”

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