Carros, aviões elétricos e ESG: a EDP quer ir além da distribuição de energia

Empresa aposta na criação de modelos de negócio para aumentar os ganhos em um futuro não tão distante (e para não depender tanto da transmissão e distribuição)

Miguel Setas, presidente da EDP Brasil
Miguel Setas, presidente da EDP Brasil Foto: Divulgação/EDP Brasil

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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A empresa de energia EDP Brasil (ENBR3) poderia muito bem ficar aonde está. Afinal, ao contrário de outros setores como o de óleo e gás, a demanda futura por energia só deve aumentar. Logo, a companhia que atua nas áreas de transmissão e distribuição, além da energia solar, poderia ficar tranquila quanto à perenidade dos seus negócios. Mas ela quer ir além.

Uma das demandas que a companhia, que é de origem portuguesa, observa é o de carros elétricos. Segundo um estudo da consultoria Boston Consulting Group, o Brasil terá 2 milhões de veículos movidos à eletricidade até 2030. Pode parecer pouco perto de uma frota de mais de 40 milhões de carros, mas não é assim que o português Miguel Setas, presidente da empresa no Brasil, observa.

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“Essa quantidade é maior do que diversos países europeus jamais sonhariam ter no total das suas frotas. É uma vasta oportunidade”, diz Setas em entrevista ao CNN Brasil Business.

Para que eles circulem, no entanto, será necessário… energia elétrica. Por isso, a empresa tenta se antecipar ao mercado para começar a instalar postos de carregamentos ultrarrápidos pelo país.

No fim de novembro, a companhia anunciou uma parceria com a rede de varejo Graal, que tem as suas lojas localizadas em rodovias. A meta é instalar 30 postos de recarga até 2022 nas rodovias do estado de São Paulo. Os investimentos serão de R$ 33 milhões e, além da Graal, também participam as montadoras Audi, Porsche e Volkswagen.

 “Queremos instalar postos de carregamento rápido, em que o motorista consiga ter uma autonomia de 100 quilômetros após uma recarga de 10 a 15 minutos”, diz Setas.

E não é só no chão que a empresa vai ter o foco. Ainda em novembro, a companhia firmou uma parceria com a fabricante de aeronaves Embraer para desenvolver pesquisas de um avião elétrico. Trata-se de um protótipo de pequeno porte e que já tem o primeiro voo previsto para 2021.

Segundo Setas, não se trata apenas de uma tendência, mas de uma realidade que pode trazer ganhos até no médio prazo para a empresa. Ele pega como exemplo o mercado de táxi aéreo de São Paulo, especialmente de helicópteros – o segundo maior do mundo, atrás apenas da cidade americana de Nova York.

“O potencial do mercado brasileiro é altíssimo e, na próxima década, já vai ganhar uma boa expressão”, diz Setas.

E o agora?

É óbvio que pensar no futuro faz parte do plano de sobrevivência de todas as empresas. Mas o presente, com a pandemia ainda rolando, ainda é complicado. Para a EDP, não é diferente.

Nos nove primeiros meses de 2020, a empresa viu o seu lucro cair 15,3%, para R$ 299,7 milhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), importante medida de geração de caixa, também recuou 2,7% no mesmo período.

Setas, no entanto, prefere dar a atenção nos números ajustados. “Quando comparamos aquilo que dá para comparar, o nosso lucro teve alta de 22% e o Ebitda de 19,3% no terceiro trimestre”, diz ele. De janeiro a setembro, em termos ajustados, o lucro e o Ebitda tiveram alta de 4,3% e 3,7%, respectivamente.

Os principais negócios da empresa são, em ordem de importância, geração, distribuição, transmissão e soluções em energia.

Mas uma das apostas da companhia é também uma tecnologia que ainda não tem tanto espaço no Brasil, mas deve ser uma espécie de “eldorado” em um futuro próximo: a energia solar.

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Um estudo realizado pela consultoria americana Bloomberg New Energy Finance estima que o país deverá dobrar a capacidade de energia renovável até 2040, para 316 gigawatts. Do total, 36% de toda a energia elétrica viria do Sol.

Não por acaso, a empresa tem investido, todos os anos, cerca de R$ 100 milhões na ampliação das usinas solares. “O Brasil já tem quase metade de uma Itaipu em energia solar e a expectativa é que nos próximos anos cresça ainda mais”, afirma Setas.

ESG

Além do potencial do mercado, Setas chama a atenção para a agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança Corporativa). De acordo com o executivo é algo incortornável para qualquer empresa atualmente, especialmente para a EDP Brasil que tem 49% do seu capital pulverizado na bolsa de valores.

 “Temos investidores dos EUA, da Europa e do Oriente que exigem uma atenção muito particular nessa agenda”, diz ele.

Ele diz que a empresa está totalmente focada com temas como diversidade e meio ambiente e que a EDP não voltará atrás.

Mas mesmo com essa visão positiva sobre o futuro da empresa, o ano da EDP na bolsa não foi dos melhores. De janeiro até agora, suas ações caíram quase 10%. A corretora XP, no entanto, prevê que o preço do papel da empresa já consiga se recuperar já em 2021. E a EDP enxerga que essa visão de futuro da empresa resultará em valorizações lá na frente.

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