‘China deve dar solução politizada a caso Evergrande’, diz especialista

Arthur Kroeber afirma que crise deve ser resolvida com empresas estatais comprando ativos do conglomerado

Evergrande tem S$ 300 bilhões em dívidas
Evergrande tem S$ 300 bilhões em dívidas REUTERS/Aly Song

Giordanna Neves (Especial para o jornal O Estado de S. Paulo) e Luciana Dyniewicz, do Estadão Conteúdo

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Com US$ 300 bilhões em dívidas, a incorporadora imobiliária chinesa Evergrande tem balançado o mercado financeiro global com a possibilidade de entrar em falência. Já deixou de pagar juros de parte da dívida e, mesmo assim, o governo de Xi Jinping diz que não fará seu resgate.

Para Arthur Kroeber, fundador da consultoria Gavekal Dragonomics e autor do livro China’s Economy: What Everyone Needs to Know (Economia Chinesa: O que Todo Mundo Precisa Saber), a saída mais provável para esse imbróglio é que empresas estatais comprem ativos do conglomerado – como já está ocorrendo com um banco do grupo – e que credores sejam pagos conforme sua importância política. “Uma solução politizada.”

 

 

Kroeber destaca que o caso não deve desencadear uma crise no sistema financeiro, mas afirma que uma desaceleração da China vai ocorrer, prejudicando emergentes como o Brasil.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo.

A Evergrande já deixou de pagar juros da dívida, mas o governo chinês continua afirmando que não vai salvá-la. Ao mesmo tempo, o Banco Central do país disse que ajudará os compradores de imóveis da empresa. Como avalia a situação atual da Evergrande?

O governo está tentando realizar algumas coisas. O objetivo é reduzir a especulação e o risco financeiro do mercado imobiliário, obrigando os incorporadores a contrair menos dívidas. A Evergrande é vítima dessa mudança de política do governo.

A questão é: o governo vai intervir para salvar a Evergrande por ela ser muito grande e ter uma implicação sistêmica? Ou vai deixá-la fracassar e manter a agenda de reduzir os riscos no setor imobiliário? Acho que o que está tentando fazer é atingir o objetivo principal, mas minimizando o impacto do colapso da Evergrande.

Está negociando com empresas estatais para que assumam projetos de construção da Evergrande e trazê-los para quem comprou os imóveis. Está tentando evitar o pânico entre os compradores. O problema é se ele vai deixar a Evergrande ir à falência. Ele não pode fazer isso sem criar um problema financeiro maior, mas também não quer fazer nada que pareça estar salvando a Evergrande.

O governo deve forçar um acordo entre empresas e credores?

É provável. O governo também está pressionando a empresa para ela arrecadar dinheiro com a venda de ativos e pagar pelo menos alguns dos credores. Meu palpite é que haverá uma aquisição de certos ativos da Evergrande por companhias estatais. A partir disso, eles devem classificar os credores de acordo com a importância política deles e pagá-los. Não completamente, mas uma parte. Uma solução politizada.

O senhor disse que a empresa foi “vítima” de uma mudança de política, mas ela também não errou?

Vítima no sentido de que tinha um modelo de negócios que funcionava bem em um determinado ambiente de políticas. Aí o ambiente mudou, e seu modelo de negócios deixou de ser adequado. Foi vítima não porque era alvo do governo, mas porque não estava preparada para uma mudança. Aí o governo disse: “Cabe a você resolver seus problemas”.

Podemos ver outras empresas em situação semelhante à da Evergrande e gerando outras crises dessa magnitude?

A Evergrande é a maior incorporadora imobiliária. Mas há milhares de outras incorporadoras. É uma indústria muito fragmentada e muitas empresas estão inadimplentes. Se olharmos para o setor, a cada mês há pelo menos um bilhão de renmimbi (cerca de R$ 845 milhões) de inadimplência em títulos, o que é sem precedentes. Mas a maioria é de empresas menores. Se elas fecharem, não terá um impacto sistêmico.

A questão é: se você tem a Evergrande e muitas dessas empresas em crise, isso cria um efeito cascata. Mas a preocupação seria maior se as pessoas parassem de comprar imóveis. Enquanto as pessoas continuarem comprando, as empresas ruins sairão do mercado, mas as boas ainda serão capazes de ganhar dinheiro, e o fluxo continua.

Acho que é isso que o governo espera que aconteça. No entanto, pode haver um problema se os compradores olharem para o setor e disserem: ‘Não quero dar uma entrada em um apartamento, porque não sei se essa empresa vai estar funcionando até terminar o apartamento; então, vou esperar’.

Alguns analistas estão comparando essa crise com a de 2008/2009. O senhor já disse que não é a mesma coisa. Se não vamos ter algo semelhante ao caso do Lehman Brothers (banco americano que faliu em 2008), o que devemos esperar?

A diferença é que o governo chinês tem a capacidade de intervir de maneira muito rápida. O governo também aprendeu a administrar colapsos corporativos, porque houve vários casos no país nos últimos cinco anos. O maior risco é uma desaceleração econômica mais acentuada do que imaginamos. As implicações disso para o resto do mundo seriam uma desaceleração significativa na demanda chinesa por commodities.

Além da queda na exportação de commodities, quais impactos países emergentes como o Brasil devem esperar?

Já vimos uma redução enorme no preço do minério de ferro. Isso está menos relacionado à Evergrande e mais ao fato de que o governo está tentando frear a capacidade de aço por questões ambientais. Mas, se você tem uma desaceleração na demanda imobiliária chinesa, o preço do minério de ferro cai.

O quadro geral é de risco de desaceleração econômica, e isso é negativo para os preços das commodities na maioria dos casos. Portanto, será difícil para os mercados emergentes que dependem do comércio de commodities com a China.

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