Comercializadoras de energia brasileiras estimam impacto de R$ 5 bi por Covid-19

Estimativa é do presidente da Associação Brasileira de Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros; grupo de empresas inclui Engie, EDP e CPFL

Cabos de distribuição de energia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro 28/10/2011
Cabos de distribuição de energia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro 28/10/2011 Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Do CNN Brasil Business*, em São Paulo

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Comercializadoras de eletricidade, que operam no mercado livre de energia no Brasil, devem sofrer impactos de cerca de R$ 5 bilhões em 2020 devido ao novo coronavírus, apurou a agência de notícia Reuters. No mercado livre de energia, grandes empresas, como indústrias e shoppings, negociam diretamente seu suprimento. 

Entre as principais comercializadoras do Brasil estão unidades da elétrica francesa Engie, da portuguesa EDP e da CPFL (da chinesa State Grid), além de subsidiárias da Copel, Votorantim e Cemig.

O setor também tem empresas ligadas a bancos, como o BTG Pactual, e independentes, sem ligação com grandes grupos de energia.

As perdas previstas no segmento devem-se à forte redução do consumo de energia associada a quarentenas adotadas pelo Brasil para reduzir a propagação da Covid-19, que obrigaram o fechamento de estabelecimentos comerciais, e aos efeitos econômicos da pandemia, que reduziram o nível de atividade em diversas áreas da indústria.

“Os comercializadores estão estimando uma redução de 20% no consumo (no mercado livre). Estamos perdendo R$ 5 bilhões neste ano, é um prejuízo que o setor está tomando porque a gente nunca viu uma situação como essa”, disse o presidente da Associação Brasileira de Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros.

Ele explicou que, nas negociações com clientes, as comercializadoras geralmente permitem certo nível de flexibilidade nos contratos, para cima ou para baixo. Mas, com a pandemia, houve uma corrida de consumidores livres em geral para exercer a opção de redução de volumes.

“A cada mês o comercializador faz a gestão de risco de seus clientes, na hipótese de que uns vão consumir mais, outros menos. Mas, com a Covid, todos consumidores exerceram todas suas flexibilidades e no mesmo sentido, para menor”, apontou.

Desde o agravamento da epidemia no Brasil, em meados de março, o consumo de energia no Brasil apresenta retração de 11% na comparação com 2019, ou de 15% ante o período imediatamente anterior às quarentenas, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Mas no mercado livre, que responde por cerca de 30% da demanda total, a queda tem sido maior, de 12% ano a ano e de 19% frente aos dias prévios às medidas de isolamento, ainda de acordo com números da CCEE.

Além disso, os impactos do coronavírus sobre o mercado de energia reduziram fortemente os preços spot da eletricidade, pelos quais excedentes de energia contratada e não utilizada podem ser liquidados.

O preço spot, ou Preço de Liquidação das Diferenças, está agora a cerca de R$ 87 por megawatt-hora no Sudeste, contra média de R$ 327 em janeiro e R$ 154 em fevereiro.

Renegociações 

Em meio a esse cenário causado pelo coronavírus, muitas empresas têm pleiteado renegociações de contratos livres junto a comercializadores e geradores, com base em cláusulas que preveem descumprimento de compromissos por questões de força maior.

“Estamos sofrendo muito com a crise, mas ainda assim estamos mantendo nossa máxima de respeito aos contratos”, disse Medeiros, da Abraceel.

Alguns clientes, no entanto, têm buscado também liminares ou arbitragens para rediscutir os contratos e reduzir perdas.

O presidente da elétrica mineira Cemig, Reynaldo Passanezi, disse que a área de comercialização da empresa tem recebido pedidos de renegociação e de acionamento da flexibilidade de contratos no mercado livre e buscado atender os clientes quando entende ser possível e razoável.

“Situações excepcionais, obviamente, a gente tem que entender. Uma academia, um shopping, um cinema, é algo que você tem que trabalhar para que o contrato seja cumprido, ainda que com algum diferimento”, afirmou ele na última quinta-feira, em videoconferência da comercializadora Delta Energia.

“Óbvio que as empresas têm um limite para isso, essa não é uma função da empresa, é tipicamente uma função bancária. O fôlego que a gente tem pra fazer diferimentos é limitado”, acrescentou ele.

As preocupações com o movimento de renegociações de contratos de energia começaram há cerca de dois meses, quando algumas comercializadoras alertaram clientes sobre a possibilidade de a pandemia levar ao acionamento de cláusulas de força maior.

*Com informações da Reuters 

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