Como a transmissão da NBA no Brasil virou referência para o resto do mundo

Formato que dialoga diretamente com o público jovem pode se tornar uma das grandes estratégias da marca no futuro

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

Ouvir notícia

A NBA Brasil começou a fazer, no dia 2 de junho, algo que a liga ainda não tinha colocado em prática em nenhum lugar do mundo, nem mesmo nos Estados Unidos. Na data, foi possível assistir aos confrontos New York Knicks versus Atlanta Hawks e Los Angeles Clippers contra Dallas Mavericks através da plataforma de streaming Twitch.

Mais do que isso, o jogo foi a transmissão de estreia de Alexandre “Gaulês” Borba (maior streamer brasileiro e um dos maiores do mundo) na modalidade e contou com um público de cerca de 150 mil pessoas. Número não tão absurdo quando avaliamos o histórico de Gaulês, mas que superou as expectativas da marca.

Improvável à primeira vista, a parceria se tornou possível por conta de um terceiro nome de peso, a Budweiser. Parceiro de longa data da NBA, o rótulo da Ambev deixou o papel de mero patrocinador que teve entre 2014 e 2020 para se tornar uma “emissora” oficial da liga por aqui.

O que quer dizer, na prática, que a gigante cervejeira comprou os direitos de transmissão de alguns jogos e está assumindo um papel de produtora de conteúdo, algo que também é novidade em termos globais. E a marca tem explorado o produto de duas formas: transmitindo os jogos em seu próprio canal do YouTube e permitindo que Gaulês faça o mesmo na Twitch.

“A Budweiser é nossa parceira de longa data, já realizamos ações de mídia, conteúdo, jogos. E, desde o ano passado, estamos nos desafiando a avançar ainda mais em novas possibilidades”, diz Rodrigo Vicentini, head da NBA no Brasil, em entrevista ao CNN Brasil Business.

Para Alice Alcantara, head de Budweiser no Brasil, a parceria permitirá democratizar conteúdos inovadores, fortalecer a relação das pessoas com a modalidade e tornar o acesso às partidas mais fácil. “Existe um nicho de pessoas que se interessam pelo basquete, mas não se empolgam com a transmissão tradicional. E a ideia é expandir ainda mais iniciativas como essa, com outros formatos e para outros públicos que amam o esporte.”

De fato, entre pessoas da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), 90% se conectam com a NBA por meio do mundo dos jogos, e não necessariamente do esporte em si, segundo Vicentini. “A partir disso, enxergamos este espaço para trabalhar com um dos maiores streamers do mundo.”

A empresa possui jogos licenciados como o NBA 2K, sucesso global de vendas. E é nesse ponto que Gaulês brilha. Aos 37 anos, o produtor de conteúdo está no mundo dos jogos há cerca de 20. Começou como jogador de Counter-Strike e também foi treinador, antes de se afastar do cenário por um período. Voltou como streamer em 2018 e foi formando sua “tribo”, como ele identifica seus fãs.

Naturalmente, suas primeiras transmissões traziam Borba jogando ou comentando partidas de CS. Mas, como boa parte dos canais de sucesso na Twitch, ele encontrou um público fiel e começou a ter mais liberdade para brincar com formatos e conteúdos. Hoje, Gaulês tem quase 3 milhões de seguidores na plataforma e lançou até um cartão de crédito em parceria com o Banco do Brasil.

“É uma nova ótica de transmissão. O Gaulês não era um grande fanático pela NBA, mas tinha afinidade com a cultura da liga. Para o jovem, é como se ele estivesse na sala de casa com amigos assistindo e comentando os jogos. Assim, a gente apresenta o produto e aumenta, no longo prazo, o consumo em outras plataformas”, diz Vicentini.

Sempre ouvimos que esporte é feito para a TV, mas acredito que seja feito pelos fãs. Como temos muitos jogos ao longo de uma temporada, continuaremos explorando novos produtos para que essa pluralidade continue ajudando nossa audiência a crescer.

Gaulês até chegou a dizer, em entrevista, que a iniciativa deu uma certa “dor de cabeça” na matriz da empresa, com streamers norte-americanos queixosos por não terem encabeçado o movimento.

Crescimento da NBA no Brasil

A NBA teve, na temporada de 2019-2020, receitas na casa dos US$ 8,3 bilhões, como noticiou a ESPN americana. E, tirando os Estados Unidos, o Brasil aparece, segundo a própria companhia, como o segundo maior mercado da marca, atrás apenas da inalcançável China. 

Para Amir Somoggi, sócio diretor da consultoria Sports Value, a liga americana ajudou a ressuscitar o basquete por aqui. “Deram aula de gestão esportiva. Em 2020, houve no Brasil 200 milhões de pesquisas no Google sobre basquete e “apenas” 50 milhões sobre vôlei, teoricamente nosso segundo maior esporte”, diz.

“No mesmo quesito, o número de pesquisas locais sobre o Gabigol, maior ídolo do Flamengo, se equivalem às buscas por LeBron James, o maior astro na NBA, ou seja, tomou uma proporção enorme. É um esporte global, que tem fãs no mundo inteiro, e uma liga disruptiva.”

Os próprios números da empresa no Brasil ajudam a desenhar o cenário. O League Pass, pay-per-view da empresa, só é mais vendido na Austrália. Em termos de lojas, o país terá 12 até o final de julho, quarto maior número do mundo. E, juntando com o e-commerce, as vendas de produtos cresceram 35% nesta temporada em relação à anterior.

“O mercado brasileiro tem posição importante na nossa estratégia, só fica atrás da China, que tem população muito maior, em termos prioridade. Somos malucos por qualquer modalidade esportiva e, como o basquete já é tradicional por aqui, fica mais fácil traduzir”, diz Vicentini.  

“E mais do que uma empresa de esporte, somos uma empresa de produção de conteúdo, uma love brand. Queremos que os fãs se engajem, se não pelo basquete em si, pelo lifestyle, pelos games. Como o público brasileiro tem recebido bem nossos projetos, a gente consegue inovar, fazer pilotos.”

O que ocorrerá, por exemplo, com a NBA House Digital 2021. Por conta da pandemia, o evento que costuma ser presencial virou uma plataforma que deve trazer, durante as finais do campeonato, convidados, áreas de experiências, desafios, ativações, memorabília, NBA Store e transmissão dos jogos ao vivo. 

Futuro

Todo fã da NBA almeja, logicamente, assistir seus astros de perto. E a liga tem feito esforços numa vibe “a montanha vai até Maomé”. Londres, por exemplo, já recebeu jogos oficiais da competição. Por aqui, já tivemos jogos de pré-temporada, mas nenhum pra valer até então.

Seria este o próximo passo? Vicentini afirma que, no momento, o país ainda não tem estrutura em termos de ginásios para replicar toda a experiência vivida num jogo de NBA. E, sem o pacote completo, a liga não tem prazo para desembarcar por aqui (vale lembrar que vários astros da própria NBA jogaram na Olimpíada de 2016, no Rio).

O que a marca quer trazer, no entanto, é formação esportiva. Sem dar grandes detalhes, o executivo afirma que, a partir do segundo semestre, a liga investirá na pauta por aqui. “A pandemia acelerou, infelizmente, a falta da prática esportiva entre os jovens.”

Hoje, a NBA conta com cerca de 100 escolinhas de basquete licenciadas espalhadas pelas cinco regiões do país.

Mais Recentes da CNN