Donald Trump ou Joe Biden: de que lado está o mercado financeiro?

Trump é visto como um presidente mais pró-mercado graças aos grandes cortes de impostos; Biden, porém promete investir trilhões de dólares em energia limpa

Os candidatos republicano, Donald Trump, e democrata, Joe Biden, à presidência dos EUA: mercado vê Trump como mais 'pró-mercado'
Os candidatos republicano, Donald Trump, e democrata, Joe Biden, à presidência dos EUA: mercado vê Trump como mais 'pró-mercado' Foto: Carlos Barria - 28.set.2020 / Reuters; Kevin Lamarque - 4.set.2020 / Reuters

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O debate acalorado entre Donald Trump e Joe Biden parece ter agradado os investidores. Ao menos, não esfriou a tendência de alta dos mercados. Os principais índices americanos sobem nesta quarta-feira (30).

Apesar da rejeição ao presidente americano estar acima dos 53%, os investidores não têm nada do que reclamar de Trump. Ao contrário. Ele reduziu o imposto das empresas de 35% para 21%, o maior corte dos últimos 30 anos, o que permitiu que as companhias conseguissem empregar mais e até aumentar os salários.

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Corte de impostos soa como música para os ouvidos de Wall Street. Afinal, essa sobra pode ser revertida em expansão ou, claro, em distribuição de dividendos. O S&P 500, que é um dos principais índices americanos, subiu quase 50% da eleição de Trump para cá – e chegou a bater o valor recorde no início de setembro.

“O governo republicano tende a ser mais pró-mercado e voltado para melhorar o ambiente de negócios”, diz Rodrigo Gaze, gestor de mercados internacionais da gestora ACE Capital.

Mas isso quer dizer que Biden seria ruim para o mercado? Não necessariamente. Visto como o mais moderado entre os pré-candidatos democratas, Biden é bem relacionado com o “establishment”. Ou seja, ele não deve fazer grandes mudanças como bradavam candidatos como Elizabeth Warren, considerada o “terror do Vale do Silício”, e Bernie Sanders.

Porém, em campanha, já defendeu o aumento de impostos sobre lucros de empresas americanas no exterior, além de incentivos fiscais para a indústria local.

“Não estou procurando punir as empresas americanas. Mas há uma maneira melhor: investir nos Estados Unidos e investir em nossa comunidade”, disse ele no início do mês.

Por isso, pensando no curto prazo, é possível que as bolsas fiquem mais voláteis se o favoritismo de Biden se confirmar. Segundo levantamento da Real Clear Politics, Biden tem 49,7% das intenções de votos e Trump tem 42,9%. Essa vantagem, em junho, já foi bem maior: cerca de 10 pontos percentuais. Nas contas da consultoria, Biden tem 54,8% chances de ganhar, ante 44,3% de Trump.

Quais setores se beneficiariam?

Apesar de a vitória de Biden ser vista como negativa por parte do mercado, alguns setores poderão respirar aliviados com um eventual governo democrata. Os que devem ser mais beneficiados são de empresas ligadas à energia limpa. Biden já prometeu investir US$ 2 trilhões em quatro anos para estimular a guinada.

Atualmente, cerca de 60% das matérias-primas usadas em segmentos de transporte e eletricidade, que Biden quer incentivar, são de carvão ou gás natural. O candidato também quer ver o mesmo acontecendo na construção civil – e a área de infraestrutura é a que deve gerar mais investimentos.

Portanto, empresas ligadas aos combustíveis fósseis, como mineradoras e petroleiras, podem sofrer com essa mudança.

Além disso, as empresas chinesas podem se tornar mais atrativas para os investidores. Afinal, é quase certo que Biden cessará a guerra comercial fomentada por Trump. 

Já Trump fará exatamente o oposto. Empresas do setor bancário, por exemplo, e petroleiras devem ganhar espaço na carteira dos investidores em uma vitória do republicano. Afinal, a última coisa que se espera de Trump é que ele aumente a regulação e os impostos das companhias. 

“O setor de bancos pode performar bem porque tiraria muito o risco de aumento da regulação”, diz Gaze, da ACE.

Trump também defende impor barreiras para empresas estrangeiras venderem nos EUA – em especial, as da China – para forçar que multinacionais estabeleçam suas cadeias de produção no país.

Senado em foco

Outro fator que os investidores estão bem de olho é na eleição para o Senado americano. Em 2020, serão 35 postos que estão em jogo. Deles, 23 são de republicanos e 12 são de democratas.

No total, atualmente, o Senado é de maioria republicana, com 53 de 100 cadeiras. Os democratas têm 45 postos e os independentes, duas. Logo, se nessa eleição, os democratas ganharem 17 cadeiras (menos da metade), eles viram maioria.

“Isso pode mudar a configuração do poder e até mesmo implementar mudanças nos planos de qualquer um dos presidentes”, diz Arthur Siqueira, sócio e analista da corretora GeoCapital, especializada em investimentos no exterior.

Ou seja, Trump e Biden podem muito bem ser eleitos, mas sem a maioria no Senado, a situação ficará difícil.

Como está a economia?

A economia americana, até o novo coronavírus, vinha crescendo ininterruptamente. Durante o mandato de Trump, o PIB americano teve alta de 2,4%, 2,9% e 2,3% em 2017, 2018 e 2019, respectivamente. Para uma economia desenvolvida como a americana, é um tremendo salto.

Para melhorar a situação do presidente americano, a taxa de desemprego sempre ficou próxima ou abaixo dos 4%. Mesmo assim, o governo recebia críticas, já que os salários não cresciam – deixando muitas pessoas em situação complicada, especialmente os mais pobres.

Aí veio a pandemia. Com ela, queda brutal no PIB (chegou a cair 32,9% no segundo trimestre, a maior retração desde a Grande Depressão de 1929) e o aumento da taxa de desemprego em 14,7% em abril. Agora, já está cerca de 8,4%.

O tombo, no entanto, deve ser menor do que o estimado no início da pandemia. Quem diz isso é a própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, na sigla em português), também conhecida como ‘clube dos países ricos’.

A economia dos EUA, que é a maior do mundo, também deve ter desempenho melhor este ano com contração de 3,8%, contra queda de 7,3% projetada anteriormente. Mas com um país dividido e tanta tensão política, a vida do presidente que assumirá o mandato em 2021 não será nada fácil.

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